Os Limites da Inclusividade Anglicana

Versão Integral em Texto

Os Limites da Inclusividade Anglicana

Rev. Francisco SalesOSF2003

Os Limites da Inclusividade Anglicana

Rev. Francisco Sales, OSF

Caros irmãos e irmãs

Paz e Bem

Desde há um certo tempo que se vem desenhando na Comunidade Anglicana internacional esta importantíssima (ainda mais agora) discussão sobre os limites da inclusividade anglicana, para que a nossa mais bela e original bandeira não se torne nosso ponto fraco.

Sempre defendi, e continuo defendendo, que uma Igreja madura tem de conviver de modo tranqüilo e amadurecido com pontos de vistas diferentes; mesmo porque, em se tratando do terreno da fé e doutrina cristãs, estes pontos de vista, como já é classicamente reconhecido, mais comumente se comportam como complementares do que propriamente antagônicos.

Apelando à clássica assertiva de que os anglicanos se apropriam : "no essencial, unidade, no secundário, liberdade, e em tudo caridade (amor)". Há um antigo postulado sobre as doutrinas que fala sobre a Hierarquia das Verdades, ou seja, daquilo que nosso Deus se propôs nos revelar, há coisas mais importantes e outras mais acessórias.

Por isso sempre abominei, e continuarei a abominar, como anti-anglicana a posição de não tolerância em relação às variações de correntes doutrinais, ou teológicas, ou ênfases de práxis. Para deixar bem claro o que para um anglicano é o central ou mais importante vide Quadrilátero de Lambeth.

Precisamos assumir claramente esta mesma maturidade e esta mesma identidade no que tange às variações não mais propriamente doutrinais ou teológicas, mas teológico-morais ou comportamentais, o que, do ponto de vista do ethos anglicano, é também esperado. Não concordo com posições mais "liberais" como a ordenação de homossexuais praticantes às Sagradas Ordens, nem com a bênção eclesiástica à união destes mesmos. Não concordo com a ordenação de mulheres ao episcopado, mas concordo com a ordenação feminina ao presbiterado e diaconato permanente.

Ocorre que no momento, ocupa a Cátedra de Santo Agostinho de Cantuária seu 104o. sucessor, Sua Graça Rowan Williams, que é considerado um teólogo ortodoxo e um liberal nos costumes, e que tem dado declarações com repercussões bombásticas urbi et orbe a favor dos itens a que me posicionei contrário acima.

Devemos cuidar de ensinar e orientar nosso povo para que não haja sérios danos à identidade anglicana apenas porque o atual Arcebispo de Cantuária é liberal. Devemos esclarecer, sem confundir ou induzir motins, que sua jurisdição se restringe à Inglaterra, e que lá sim, os clérigos e leigos (segundo a autoridade dispersa) precisam discutir um modo de manter as coisas sobre controle. Na IEAB nada mudou (ainda). Haverá eleição para nosso Arcebispo primaz do Brasil, mas isso também não trará maiores abalos sísmicos (talvez apenas os de Caruaru) em caso de eleição de um outro bispo liberal.

Gostaria de conclamar os colegas clérigos e irmãos leigos da Diocese Anglicana do Recife a trabalhar pelo esclarecimento maduro e conseqüente do que realmente significa a eleição de um Arcebispo de Cantuária de corrente liberal em costumes. E gostaria de conclamá-los igualmente e com igual veemência e urgência a não permitir que comentários que firam nossa identidade inclusiva e compreensiva sejam feitos. Muitíssimo menos ainda podemos permitir pronunciamentos irresponsáveis que venham a ter tonalidades cismáticas. Isso me parece pueril.

Precisamos contribuir para a discussão sobre os limites à inclusividade anglicana sim, mas com fervor cristão (não fundamentalismo), com rigor bíblico (não literalismo), com apego aos valores humanos e da família-projeto-de-Deus (não moralismo); essas discussões, a meu ver, devem incluir uma reforma na eclesiologia anglicana internacionalmente, de modo a estabelecer que as decisões de maioria (ainda ortodoxa, juntando anglo-católicos, católicos tradicionais, evangelicais e carismáticos) para que uma decisão de Lambeth seja bem mais normativa que consultiva, para que uma decisão dos Primazes seja mais regulativa que consultiva, etc., mantendo as Províncias autônomas, bem como parcialmente autônomas as dioceses, como temos agora. E que o(s) Arcebispo(s) de Cantuária estejam regulamentados pelo Sensus Fidei anglicano regulamentado, enquanto é tempo!

Que para tudo isso nos ajude o Senhor!

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