Transformados e enviados: Reflexões sobre as dimensões da Missão Anglicana

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Transformados e enviados: Reflexões sobre as dimensões da Missão Anglicana

Comissão MISSIO1999

Transformados e enviados

REFLEXÕES SOBRE AS DIMENSÕES DA MISSÃO ANGLICANA

E como poderão ouvir, se a mensagem não for anunciada (Romanos 10:14). Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança das suas mentes. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, que é boa, perfeita e agradável a Ele (Romanos 12:2).

1. Anglicanos em missão: a Conferência de Lambeth de 1998 e depois.

A Conferência de Lambeth de 1998, por meio de seus relatórios, forneceu a nossa Comunhão Anglicana ricas fontes para reflexão e permanente ação. Elas merecem um acurado estudo, enquanto continuamos a nossa longa e às vezes difícil jornada, no sentido de sermos uma igreja transformada e transformadora, isto é, ser um povo a serviço da missão de Deus em Cristo.

A MISSIO, a Comissão Sobre Missão da Comunhão Anglicana, recebeu com especial apreciação o relatório da Seção II, denominado “Chamados Para Viver e Proclamar as Boas Novas”. A MISSIO endossa com muita alegria as conclusões e recomendações dos bispos, e as recomenda a todas as igrejas da Comunhão Anglicana para estudo e conveniente implementação.

Em vez de trabalhar sobre o mesmo tema, esta seção do relatório da MISSIO focaliza questões que a Conferência de Lambeth não abordou, ou que a MISSIO acredita que merecem posterior reflexão. Nós também colocamos questões nesta seção que esperamos estimulem a ação e a reflexão.

2. Missão: no papel ou nas bases?

Reunida em Harare, Zimbabwe, a MISSIO realizou sua quarta e última reunião num ambiente de alegria e tristeza. A alegria veio da percepção de que os seus membros haviam aprendido a trabalhar juntos de maneira criativa e produtiva, e a celebrar a unidade na diversidade, pelo fato de serem anglicanos comprometidos com a missão em todos e para todos os lugares. Esta alegria veio também do fato de que puderam ouvir de uns e outros as histórias das igrejas locais de toda a Comunhão Anglicana, procurando viver e proclamar fielmente o evangelho.

A tristeza veio do fato de que ouviram outras histórias, histórias de lutas e sofrimentos, de pessoas que tiveram que enfrentar grandes privações, oposição ou falta de coragem. Vários membros da MISSIO não puderam estar presentes na nossa última reunião, porque situações de conflito, violência ou doença os obrigaram a permanecer em suas cidades. Em Zimbabwe, onde nos reunimos, vimos pobreza e desigualdades não só como legados do passado, mas também perpetuadas pelo peso da dívida internacional e pela má administração política e econômica. Fomos lembrados por pessoas e comunidades de todas as partes do mundo sofredor dos efeitos da guerra, da perseguição, da opressão, da fome, da pandêmica AIDS e assim por diante.

Enquanto estivemos reunidos diariamente em nosso centro de conferência ao norte dos arredores de Harare, lembrávamo-nos do povo de Kosovo, do Sudão, da Tanzânia, da Indonésia e de tantos outros lugares. Muitos deles enfrentaram a morte ou deslocamentos, no mesmo momento em que estávamos sentados ao redor de nossas mesas, discutindo a ordem das palavras no papel.

Portanto, oferecemos estas reflexões e este relatório completo, na certeza de que somos servos de todo o povo de Deus em toda a Comunhão Anglicana, e que aquilo que dizemos no papel precisa falar àqueles que efetivamente estão trabalhando na santa missão de Deus, onde quer que estejam e sejam quais forem as oportunidades ou perigos que enfrentam.

Em seu contexto, “a missão nas bases” significa lidar com o sofrimento, com o conflito, com a opressão, com a pobreza ou quaisquer outras circunstâncias que trazem morte em vez de vida? Em caso afirmativo, como você pode repartir sua carga com os outros na família de Deus? Em caso negativo, como você pode se solidarizar com aqueles que carregam esse tipo de cruz?

3. Missão como transformação

Aproveitando a sugestão contida no discurso presidencial do Arcebispo de Cantuária, a Conferência de Lambeth de 1998 manifestou forte apoio à sugestão de que a transformação da igreja é uma prioridade. Entretanto, houve pouco apoio à idéia, sugerida pela MISSIO na sua terceira reunião, de que a Década de Evangelização fosse seguida por uma Década de Transformação - talvez porque houve resistência para ter outra década qualquer.

Década ou não, o processo de transformação, iniciado pelo simples fato de que já estamos em Cristo, precisa continuar reformulando nossas comunidades e instituições, para que nossa própria Comunhão Anglicana seja uma proclamação do evangelho. “Precisamos caminhar o caminho para contar a história”.

O relatório da Seção II da Conferência de Lambeth de 1998 começa com a afirmação de que missão é a maneira de Deus amar e servir ao mundo. Deus envia o seu próprio povo para participar da missão. A Seção II também enfatiza que o alvo da missão de Deus é a transformação da vida, não só dos indivíduos, mas também da sociedade, das nações e da ordem criada (Cf. João 10:10).

A Igreja (ekklesia) é a comunidade desafiada para ser o instrumento da missão de Deus. Se o meio é a mensagem (Marshal McLuhan), somente uma igreja que está em permanente processo de transformação pode cumprir tal desafio. Como a MISSIO salientou em sua segunda reunião (Ely, 1996), “Ela (a igreja) deve dar cada vez mais atenção à relação entre missão e cultura, ter uma compreensão mais integrada da relação entre justiça e evangelho, e estar ciente tanto da realidade do pecado estrutural como do pecado pessoal”.

O que, na sua igreja, precisa ser transformado? Como essa transformação pode acontecer?

3.1 Transformando ou se conformando?

O evangelho transformador se destina não somente ao pecado pessoal, mas também ao pecado estrutural.¹ Não podemos reduzir a evangelização à transmissão de uma série de artigos de fé, sem qualquer senso de urgência para encarnar esta fé num mundo cercado por injustiça e opressão. Salvação, a idéia bíblica de integridade ou saúde, é freqüentemente reduzida a salvar almas, em vez de salvar a pessoa inteira, e o pecado é visto exclusivamente como algo moralista e individualista, que precisa da absolvição da culpa pessoal. O chamado para a conversão é muitas vezes dirigido exclusivamente ao indivíduo, sem nenhuma referência à dimensão coletiva contudo, muitas pessoas não são só pecadoras, mas são também afetadas pelos pecados do outros.

A visão da igreja missionária é trabalhar com Deus para reinventar as estruturas da sociedade humana, a fim de que reflitam mais fielmente os propósitos de Deus. A consciência da dimensão social e política da evangelização 3 precisa ser trazida à vida diária da congregação, se queremos viver como agentes de transformação. “O evangelho se refere à salvação do pecado. Mas ele é muito mais do que salvação pessoal... A salvação que Jesus prometia era a vinda do Reino de Deus".4

A missão transformadora não conduz apenas as pessoas a experimentarem a Cristo, mas a experimentá-lo de tal forma que sua fé comunitária experimente tanto a renovação como a transformação. Muitos estudantes cristãos engajados, por exemplo, se deixam levar pelo nominalismo, depois que saem da universidade. O desafio aqui é considerar a missão como processo formativo e transformador em vez de simples conversão.5

O Cristianismo não é uma simples religião. Os primeiros cristãos foram chamados de “os seguidores do caminho”. Eles eram uma força transformadora na época apostólica. Sua preocupação não era somente “contar a história”, mas “caminhar o caminho”. Nesse sentido, transformação significa a ação para estabelecer aquelas condições em que a integridade da vida pode ser alcançada. Enquanto a palavra “desenvolvimento” sugere que as comunidades podem alcançar um nível satisfatório de crescimento, a palavra “transformação" sugere que o crescimento não pára, que continua até que “os reinos deste mundo se transformem o reino de nosso Deus e de seu Cristo" (Apocalipse 11:15).

“Caminhar o caminho” significa que os discípulos de Jesus seguiram o caminho da cruz. “A Igreja na terra, como igreja in via (a caminho) continua marcada pelos pecados da humanidade e por sua solidariedade para com os sofrimentos do mundo... As coisas difíceis que nos dividem podem paradoxalmente se transformar em dádivas... No mundo não acontecem coisas como esta: que aqueles que são oposição deviam permanecer do mesmo lado, juntos... carregando as cargas uns dos outros, inclusive compartilhando os sofrimento de uns e outros"."

Isso nos leva ao centro da koinonia, isto é, à participação na vida do Crucificado (cf. Filipenses 2:6-8). A dimensão em que a igreja se solidariza com o sofrimento humano é um sinal significativo de sua identidade como corpo de Cristo. Uma igreja transformadora carregará, a semelhança do discípulo individual, as marcas do Senhor Jesus (cf. Gálatas 6:17).

Se você tivesse que começar a jornada para ser uma igreja transformada, como você administraria o custo dessa mudança, o conflito que causaria e a insegurança que muitos iriam sentir?

3.2 A Igreja e o reino de Deus

Jesus veio para anunciar o reino de Deus (Marcos 1:14-15). Estas são as “boas novas". No ministério de Jesus, morte e ressurreição e a vinda do reino de Deus se tornam uma realidade presente.

A Igreja demonstra essa realidade nestes cinco itens:

  • oferece vida, não morte
  • inclui, não exclui
  • luta pela integridade e saúde
  • vive segundo valores que são diferentes dos valores do mundo
  • enfatiza o servir em vez do dominar

A agenda da Igreja está enraizada no Antigo Testamento (Levítico 25, Isaías 65:17-25) e encontra sua expressão no Novo Testamento (Atos 2:42-47). A noção do Jubileu ou “Ano do Favor” é fundamental para as boas novas (Lucas 4:18-19; cf. Isaías 61:2). É o tempo de remissão de dívidas, de libertação da dependência econômica, da possibilidade dos refugiados voltarem aos lares e da devolução de terras e recursos retirados. Estas marcas de missão se tornaram conhecidas no advento de Jesus. As boas novas significam Emanuel, Deus de amor e justiça conosco. A promoção do Ano do Jubileu em 2000 é um evento missionário significativo e ecumênico. Damos as boas vindas ao apoio que lhe foi dado pela Conferência de Lambeth de 1998; e estamos alegres ao ouvir daquelas agências de missão das províncias que já se comprometeram com ele, e desafiamos as outras províncias e agências de missão a fazerem dele uma de suas prioridades.

A igreja não pode proclamar estas boas novas simplesmente “tendo missão” ou considerar a missão como uma atividade ou programas externos. Para colocar a questão de maneira mais positiva, a igreja deve ser missão uma comunidade que encarna a missão confiada a Jesus e dada por Ele a seus seguidores (João 20:21). O mundo jamais ouvirá um evangelho que é aparentemente contraditório pelo caráter da comunidade que o proclama. Somente uma igreja verdadeiramente transformada pode ser um agente transformador de Deus.

Reexamine as atividades missionárias e as prioridades de sua província (diocese ou paróquia). Como elas se relacionam com o resto das atividades e prioridades da igreja? Em que medida elas se manifestam na sua condição de povo de Deus, ou nas pressões de seu contexto? Em que medida elas se identificam com sua vida litúrgica e modelos de ministério?

3.3 A identidade e o caráter na missão da igreja.

“Somente lembrando-se sempre que sua verdadeira identidade é Cristo, pode a igreja escapar de ser mais uma instituição religiosa. Na sua forma... isto é, aquilo que ela realmente é - um credo, um culto e um código de conduta, com mestres, sacerdotes e prelados para dirigi-la... Somente sendo o próprio Cristo pode a comunidade cristã continuar sendo a fonte daquela água viva que é também o vinho da vida"."

Quando usamos a imagem paulina do “Corpo de Cristo”, estamos nos referindo ao Cristo encarnado no corpo eucarístico ou no corpo místico da igreja. As três imagens estão, de fato, intimamente relacionadas. A igreja é o sacramento do evangelho. A igreja é a missão de Deus, porque ela é a expressão e o instrumento Daquele que foi enviado.

Não pode haver missão renovada, se os olhos não se encontram com amizade, acolhida, compreensão e bondade. 10 A igreja primitiva sabia que a palavra chrestos (bondade) era apenas uma variante de Christos. Respeito, cortesia, bondade e gentileza devem ser modelos da estruturas por meio das quais a graça de Deus é comunicada.

Como está a igreja no seu contexto vivendo como sacramento do evangelho?

3.4 A igreja emergente

Há sinais de que a transformação das igrejas está ocorrendo, enquanto nos aproximamos do terceiro milênio. Esta é uma questão particularmente sensível às igrejas do Primeiro Mundo, onde muitas delas estão tentando se desfazer das pesadas e inflexíveis estruturas, dos recursos empatados com a manutenção de caras instalações e de valores culturais modelados pelas proposições do modernismo. Entre outros, o Alban Institute, nos Estados Unidos, tem sido pioneiro nesse movimento, enquanto o Centro Ecumênico Para o Desenvolvimento Paroquial, em Chicago, focaliza sua ação em ajudar as paróquias a planejarem com vistas a uma mudança transformadora. Na Inglaterra, teólogos como Robert Warren 11 e Robin Greenwood 12 estão também se ocupando da questão da transformação de maneira criativa.

Na Comunhão Anglicana, o movimento conhecido como “Ministério Total”, isto é, equipes de leigos e pessoas ordenadas compartilhando responsabilidades que antes eram realizadas pelos clérigos, está ganhando impulso. Algumas agências missionárias, como a Comissão Anglicana de Missão, na Austrália, está procurando modelar esta abordagem por meio de equipes de estruturas.

Onde você vê sinais de uma igreja emergente mais participativa do que hierárquica, mais comunitária e menos institucional? Que sinais você vê de que a igreja de sua área está mais capacitada a proclamar o reino de Deus por meio de sua vida e testemunho?

4. A igreja em missão: fazer, ter, ser

O desafio de dar fiel testemunho à missão transformadora de Deus significa que temos de repensar o modo de viver melhor essa missão.

Tem sido sugerido que, enquanto a igreja do período da Cristandade fez missão, e a igreja da época do Iluminismo e do período moderno tinha uma missão, a igreja emergente é missão.13 Isso pode ser bastante verdade para as igrejas “velhas” da Europa e da América do Norte. As igrejas que sempre viveram como minorias, especialmente em dois terços do mundo, sabem muito bem que nesse sentido sempre foram "igrejas de missão". Mas as igrejas que tradicionalmente se consideraram como igrejas que enviam são também conclamadas para uma nova identidade para compartilhar com as igrejas locais em qualquer lugar: ser igrejas enviadas.14 Saber quem somos é parte integrante de como testemunhamos as boas novas. Deus nos convida da mesma maneira como tem convidado o povo em todas as gerações transformados em sinal, em antecipação e em instrumento do reino de Deus. 15 para que sejamos

  • Como sinal, a igreja aponta para o Deus das Escrituras criador, amoroso, justo, que cura e perdoa, e faz isso mais claramente na adoração, que a caracteriza como uma santa comunidade de ação de graças e louvor;
  • Como antecipação, a igreja incorpora na sua vida os valores do reino de Deus, e faz isso mais claramente em amor recíproco, que a caracteriza como uma comunidade (universal e inclusiva) católica de serviço;
  • Como instrumento, a igreja participa da missão de Deus no mundo, e faz isso mais claramente por meio de atos e palavras, que a caracterizam como uma comunidade apostólica de testemunho.

A igreja que envia se caracteriza por uma unidade construída em torno da presença do Senhor encarnado, crucificado e ressurrecto, a quem adora, serve e proclama. Jesus, o enviado de Deus, nos conduz até Ele, derrama o seu Espírito sobre nós e nos envia ao mundo novamente em seu nome. Como povo de missão, somos nutridos, renovados e transformados pela presença de Cristo no meio de nós. No sentido mais profundo, a vida espiritual é compartilhada pela missão de Deus.

De que maneira sua igreja é um sinal apontando para as boas novas do reino de Deus em Cristo, ou uma antecipação da comunidade do povo remido de Deus, ou um instrumento para tornar as boas novas reais e visíveis em seu contexto?

As Cinco Marcas de Missão (CCA, 1984 e 1990)

A missão da igreja é a missão de Cristo:

  • para proclamar as boas novas do reino de Deus;
  • para ensinar, batizar e nutrir novos crentes;
  • para responder às necessidades humanas por meio do serviço;
  • para transformar as estruturas injustas da sociedade;
  • para defender a integridade da criação e manter e renovar a vida na terra.

5. As Cinco Marcas de Missão.

Na sua segunda reunião (Ely, 1996), a MISSIO começou a rever “As Cinco Marcas de Missão” desenvolvidas pelo Conselho Consultivo Anglicano entre 1984 e 1990. Reconhecemos com satisfação que as cinco marcas receberam ampla aceitação entre os anglicanos e forneceram às paróquias e dioceses de todo o mundo uma lista de itens práticos e importantes para as atividades missionárias.

Entretanto, somos levados a acreditar que, como nossa Comunhão Anglicana percorre um caminho cuja direção está centralizada na missão, as cinco marcas necessitam de uma revisão. 16

Missão: anunciando as boas novas

A primeira marca de missão, identificada pelo CCA-6 como evangelização pessoal, é de fato um resumo de tudo o que a missão é, porque está baseado no próprio resumo de Jesus sobre sua missão (Mateus 4:17; Marcos 1:14-15; Lucas 4:18: Lucas 7:22: cf. João 3:14-17). Em vez de ser apenas uma (embora a primeira) das cinco diferentes atividades, ela deveria ser a declaração chave sobre tudo o que fazemos como missão.

Missão no contexto

Toda missão é feita num determinado lugar - o contexto. Por isso, mesmo havendo uma unidade fundamental nas boas novas, elas são modeladas pela grande diversidade de lugares, de tempo e de culturas em que as vivemos, proclamamos e incorporamos. As cinco marcas não devem nos levar a pensar que há somente cinco marcas de fazer missão.

Missão como celebração e ação de graças

Uma importante característica do Anglicanismo é a nossa crença de que a adoração é o ponto central de nossa vida comunitária. Mas a adoração não é algo que fazemos apenas quando testemunhamos as boas novas: a adoração é em si mesma um testemunho para o mundo. Ela é um sinal de que tudo na vida é santo, que a esperança e significado podem ser encontrados no oferecimento de nós mesmos a Deus (cf. Romanos 12:1). Sempre que celebramos a eucaristia, proclamamos a morte de Cristo até que Ele venha (I Coríntios 11:26). Nossa vida litúrgica tem uma dimensão vital para o nosso chamado à missão. Embora não esteja incluída na lista das Cinco Marcas, ela está subentendida nas formas de testemunho público ali relacionadas.

Missão como igreja

As Cinco Marcas sublinham o fazer missão. A fidelidade de ação é a medida de nossa resposta a Cristo (cf. Mateus 25:31-46; Tiago 2:14-26). Entretanto, o desafio que se nos apresenta não é só fazer missão, mas ser povo de missão, isto é, aprender a permitir que cada dimensão da vida da igreja seja modelada e dirigida por nossa identidade como sinal, como antecipação e como instrumento do reino de Deus em Cristo. Nossa compreensão de missão deve deixar isso bem claro.

Missão como Deus em ação

"A missão parte de Deus. Missão é a maneira de Deus amar e salvar o mundo... Assim, a missão nunca é invenção ou escolha nossa” (Conferência de Lambeth de 1998, Seção II, parte inserida na última edição do relatório). A iniciativa da missão é de Deus e não nossa. Nós somos simplesmente chamados a servir na missão de Deus, vivendo e proclamando as boas novas. As Cinco Marcas de Missão deixam isso claro.


5.1 As Cinco Marcas de Missão e depois

Recomendamos a todas as províncias (e suas dioceses) o desafio de desenvolver ou revisar sua própria compreensão de missão. Sugerimos duas maneiras possíveis a seguir:

  • As Cinco Marcas podem ser revisadas para acrescentar comentários semelhantes aos mencionados acima. Isso tem a vantagem de conservar o modelo familiar das Cinco Marcas
  • De maneira alternativa, uma declaração holística dos atos de missão pode ser fortalecida pela definição de uma compreensão da natureza da missão. Isso afirmaria a solene responsabilidade de cada igreja local no sentido de discernir como ela deve servir mais fielmente a missão de Deus em seu contexto. Um exemplo dessa compreensão é dada a seguir:

Missão é o ato criador, reconciliador e transformador de Deus, fluindo da comunidade de amor, fundamentado na Trindade, feito conhecido a toda a humanidade na pessoa de Jesus, confiado à fiel ação e testemunho do povo de Deus, que no poder do Espírito é sinal, antecipação e instrumento do reino de Deus (Adaptado de uma declaração da Comissão de Missão do Conselho Nacional de Igrejas da Austrália).

As Cinco Marcas de Missão (revisadas)

Na missão, todo o povo de Deus vive as boas novas do reino de Deus quando

  • testemunha para todo o povo o amor de Cristo, que reconcilia, salva e perdoa;
  • constrói comunidades de fé, que acolhe, celebra e transforma;
  • é solidário com os pobres e necessitados;
  • desafia a injustiça, a opressão e a violência;
  • protege, preserva e renova a vida em nosso planeta.

Sejam quais forem as palavras ou idéias que as expressões locais de nossas igrejas usem, a MISSIO espera que elas sejam instruídas por três convicções:

  • Estamos unidos pelo compromisso de servir a missão transformadora de Deus;
  • A missão é o alicerce de tudo o que somos, fazemos e dizemos como povo de Deus;
  • Nossa fidelidade à missão se expressa numa grande diversidade de modelos de missão, estratégias e práticas.

Se você perguntasse às pessoas em posição de liderança na sua província (diocese ou paróquia) se elas consideram a missão como “o alicerce de tudo quanto somos, fazemos e dizemos como povo de Deus”, o que você pensa que elas responderiam?

6. Crescimento da igreja e missão anglicana.

Em todas as nossas quatro reuniões, em quatro diferentes lugares do mundo, temos nos alegrado ao ouvir relatos sobre crescimento de igrejas locais. Nós mesmos vimos comunidades adorando, servindo e proclamando às vezes, em condições precárias, num contexto de oposição, indiferença e extrema pobreza. Temos nos sentido humilhados por sua coragem e perseverança. Temos notado que entre alguns anglicanos, “o crescimento” é às vezes medido pelo número de novas paróquias ou dioceses, que são criadas. Às vezes, esta ênfase dá a impressão, talvez não intencional, de que os números são o primeiro critério de crescimento. O crescimento em números, às vezes, é esperado como um dos frutos do testemunho fiel. Durante a nossa reunião em Zimbabwe, pudemos sentir a beleza da adoração em grandes congregações anglicanas, cuja música e dança nos deixaram sem respiração.

Entretanto, a todos os que participam do nosso compromisso da missão de Deus, apresentamos duas notas de preocupação sobre a ênfase indevida nos números (quer de pessoas, paróquias ou dioceses) para alcançar o crescimento da igreja:

  1. Esperamos que a ênfase nos números de novas paróquias e dioceses seja acompanhada por uma atenção à qualidade do crescimento verificado. O crescimento da igreja tem a ver também com um compromisso mais profundo, uma espiritualidade mais madura, uma disciplina apostólica mais corajosa, e fidelidade na adoração, no serviço, no testemunho, etc.
  2. Esperamos que a ênfase no crescimento como “extensão da igreja" que tem sido uma prática missionária predominante na história do Anglicanismo não esconda um imperialismo denominacional. A missão de Deus não significa a expansão triunfante de uma igreja em particular, nem é necessariamente completada pela criação de mais e mais paróquias anglicanas. Missão é o testemunho de todo o povo de Deus às boas novas conhecidas em Cristo. Por isso, convidamos as nossas províncias e agências missionárias, cuja energia é dedicada ao estabelecimento de igrejas, a examinar sua abordagem e prioridades, e buscar formas para se engajar naquele tipo de missão que edifique a unidade do santo, universal e apostólico povo de Deus, e assim deixá-lo livre para se envolver no mundo ao seu redor.

Que idéia (ou idéias) de “crescimento” existe em sua situação? Se lhe perguntassem “de que maneira a sua igreja está crescendo”, como você responderia?

7. Filiação anglicana e senso de pertencer

Pertencer é um tema que MISSIO considera importante em qualquer discussão sobre missão. Por exemplo, os bispos da Seção II da Conferência de Lambeth de 1998 tomaram conhecimento da Comunidade de Iona, na Escócia, com seu forte senso de missão ecumênica, combinado com uma forte espiritualidade encarnada. Parece que ela preenche a necessidade, sentida particularmente entre o povo do Ocidente, por mais intimidade, mais reciprocidade e relações mais pessoais na comunidade.17

Os jovens, em particular, não são atraídos pela filiação à igreja tradicional. Surge então a pergunta: que tipo de filiação é adequado para a igreja? Existe apenas uma forma de filiação?18 Claro que uma igreja de missão precisa oferecer um senso de comunidade e filiação que seja mais satisfatório e envolvente do que a filiação institucional.

As duas ilustrações estão baseadas na importante declaração sobre unidade, adotada pela 7ª Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (Camberra, 1991). Intitulada “A Unidade da Igreja Como Koinonia: Dom e Chamado”, a declaração desafia as igrejas a tomarem enérgicos passos em companheirismo. Duas questões surgem aqui para os anglicanos. Há limites para a diversidade? Como podemos conservar a fraternidade com aqueles que não podem aceitar os pontos de vista dos outros? Considerando que não há respostas fáceis, essas questões nos estimulam a ficar atentos ao fato de que o ponto central da koinonia ou da comunhão é a vida com o Pai por meio de Jesus Cristo no Espírito Santo. Esta é a mais profunda comunhão possível para qualquer criatura de Deus.19 Os cristãos estão vinculados a Deus por “uma missão comum, testemunhando para todos os povos o evangelho da graça de Deus e servindo a toda a criação”. 20 Pertencemos uns aos outros em Deus. O desafio da missão é trazer os outros a experimentar esta mesma qualidade de pertencer ou koinonia.

Quando as pessoas se filiam a uma paróquia anglicana em seu contexto, que tipo de “filiação” é oferecido? Que procedimentos ou estruturas você dispõe para ajudar na integração de novos membros na koinonia (apoio, partilha, cuidado mútuo, solidariedade) da igreja?


7.1 A igreja como sal e sabor

Existem algumas situações em que a missão cristã é conduzida como se fosse uma campanha militar, onde a conquista e a vitória são as imagens dominantes do crescimento da igreja. Isso obriga alguns membros da MISSIO a pensar o que significa pertencer à igreja.

O bispo Jubal Neves, do Brasil e membro da MISSIO, pondera sobre essa questão da seguinte maneira:

No passado (por meio das Cruzadas, Inquisição e proselitismo estatal), a igreja estava ocupada em batizar as pessoas como condição para ser membro da igreja e alcançar a salvação. Mesmo nos dias de hoje, algumas igrejas mantém companhas ou cruzadas para encher os seus bancos. Esta visão olha a igreja como um lugar para evitar a condenação eterna e alcançar a felicidade eterna. Nesta perspectiva, o crescimento da igreja é medido pelo número de membros, que são considerados como clientes. Ser "massa” aparentemente é mais importante do que ser “fermento”(Mateus 13:33).

Esta é uma tentação contra a qual precisamos resistir. Aderir ao plano de Deus é mais importante do que pertencer a uma igreja. Obedecer ao chamado de Deus para a justiça e o serviço é maior do que a questão dos números nos bancos (cf. Isaías 65:14-21; Lucas 4:17-25). A igreja não é mais uma simples arca de salvação, mas o agente de Deus da missão no mundo. A liturgia deve expressar, como celebração, a ação de minha fé numa sociedade que se transforma, da igreja e de nós mesmos. Precisamos, portanto, recuperar a imagem do fermento, de ser o sal, a luz e a semente de mostarda. Este é o verdadeiro significado da catolicidade da igreja. Com relação aos números, é importante considerar o compromisso e a maturidade da comunidade eclesial, de acordo com o seu contexto.

Em vez de gastar tempo em domesticar novos crentes, a igreja deve se lembrar de sua vocação de ser sinal, antecipação e instrumento da missão de Deus. Nesse sentido, os leigos, o povo da congregação local, estão na linha de frente. As estruturas da igreja e o ministério ordenado existem para preparar, animar e facilitar a qualidade de vida da igreja e não simplesmente procurar desesperadamente aumentar o número de membros. Este ministério é convocado como instrumento para fortalecer a missão, a fim de transformar os reinos deste mundo no reino de Deus (cf. Apocalipse 11:15). A comunidade cristã é uma espécie de força-tarefa para atuar pela transformação das estruturas deste mundo, de modo que o reino de Deus se transforme numa dádiva presente aqui e agora na história.

A questão chave aqui é “solidariedade-participação” em vez de “autoridade-obediência”. Nesta igreja do novo milênio, somos convidados não tanto para sermos bem sucedidos, mas para sermos obedientes a Cristo (João 20:21: Mateus 25:34ss).

Portanto, a vocação da igreja em nossos dias é trabalhar pela transformação do povo e da sociedade. É nossa oportunidade para servir, celebrar e transformar como seguidores de Jesus. Nosso objetivo não é colher, mas semear. Seremos conhecidos pelos nossos frutos (Lucas 6:44; Mateus 7:20-21) e somente Deus julgará.

Nessa perspectiva, podemos começar a entender o que significa pertencer à igreja. Há muitas maneira de pertencer e somente Deus pode julgá-las. Enquanto isso, “sede misericordiosos como é misericordioso vosso Pai” (Lucas 6:36), porque a fé cristã é mais parecida a uma nova relação do que uma religião (Mateus 25; I João).21

Na sua experiência, o que as paróquias em seu contexto enfatizam mais: pertencer a uma comunidade solidária e participativa ou a uma instituição de autoridade e obediência?


8. Companheiros em missão

Em outro lugar deste relatório, notamos as mudanças que aconteceram nos padrões e estruturas de missão na Comunhão Anglicana nas última décadas. Aqui desejamos sugerir que estas mudanças por exemplo, o decrescente uso das consultas Companheiros em Missão nos dão as oportunidade de refletir sobre os fundamentos de nossas relações na Comunhão Anglicana. Achamos que é chegado o tempo de mudar o foco de nossas relações de companheirismo que, em muitos casos, tem se caracterizado por uma relação de negócios com programas e prioridades financeiras, para uma parceria que atenda como prioridade as relações de participação em solidariedade.

Notamos de passagem que uma versão modificada do modelo ecumênico “mesa redonda” de conferências, que incorpora muitos dos princípios do processo de CEM, oferece um possível novo caminho para o futuro. Parceiros em tal modelo não são observadores ou comentaristas, mas participantes de fato. Uma conferência piloto do tipo “mesa redonda” está planejada para a quadra da Páscoa em 2000, na região abrangida pelo Conselho Anglicano do Pacífico Sul. Isso deverá se desenvolver mais do que o processo de consulta de CEM.

Reveja as relações de companheirismo ou parceria na sua província (diocese ou paróquia) e em outras partes da Comunhão Anglicana. Quais são as principais características destas relações? Quanta energia é empregada na troca de pessoal e recursos para a missão e o ministério? Que lugar ocupam as questões financeiras?

9. "Povos ainda não atingidos”

Desde sua primeira reunião, a MISSIO vem se preocupando com a questão da evangelização dos povos que ainda não ouviram o evangelho. Entretanto, desejamos sublinhar que existem “povos ainda não atingidos” em muitos diferentes contextos, e não apenas naquelas partes do mundo que alguns descrevem como “janela 10/14”. Estas comunidades existem em muitas províncias anglicanas, inclusive em sociedades consideradas “cristãs”.

Desejamos também afirmar que, em primeiro lugar, a responsabilidade de levar o evangelho a estas comunidades pertence mais à igreja local do que a missionários vindos de outro contexto. Certamente, a igreja local merece apoio da igreja maior, porque somos todos companheiros na missão de Deus em qualquer lugar e para qualquer lugar.

Como anglic

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