Reflexões sobre o episcopado
Reflexões sobre o episcopado
Rev. Jorge Aquino, ose
"Que se ordene como bispo aquele que, sendo irrepreensível, tenha sido eleito por todo o povo"
Tradição Apostólica de Hipólito
Queridos irmãos e irmãs, nossa Diocese Anglicana do Recife vive hoje uma realidade privilegiada. Há vinte e cinco anos atrás, estávamos sendo criados como diocese missionária, fruto do trabalho exaustivo do bispo Edmund K. Sherrill, então bispo do Rio de Janeiro. Hoje, um quarto de século depois, e não mais como diocese missionária, mas como diocese emancipada com seu primeiro bispo eleito, estamos na iminência de eleger outro bispo, desta feita, um bispo sufragâneo.
Acredito que esta possibilidade da eleição de mais um bispo em nossa diocese deve nos fazer refletir cuidadosamente a respeito. Nossa diocese precisa se dedicar com cuidado a esta reflexão porque ainda não vislumbramos em todos os nossos líderes (clérigos e leigos) uma completa compreensão do ministério episcopal. Pelo contrário. A maioria de nosso povo é proveniente de comunidades não apenas não episcopais mas anti-episcopais, o que faz forçosamente existir um “hábito mental" não episcopal em parte do laicato e do clero. Este povo passou anos raciocinando com categorias congregacionais ou presbiterianas e agora se encontram em uma igreja completamente diferente que utiliza um outro paradigma mental para a definição dos papéis na igreja. Recentemente, conversando com um pastor que passou pouco tempo em nossa igreja mas que regressou à sua igreja de origem, ouvi dele a seguinte explicação para sua saída: "tenho dificuldades de aceitar a figura de um bispo". Aquele homem não tinha qualquer problema com a liturgia da igreja e nem mesmo com o ethos inclusivista e compreensivo de nossa denominação. Sua grande dificuldade era com a figura institucional de um bispo. Esta realidade nos faz acreditar ser extremamente necessário uma reflexão sobre a pessoa e o papel do bispo em nossa comunidade.
A consciência de sermos episcopais é tão forte entre os anglicanos que o "episcopado histórico" é um dos elementos inegociáveis de nossa identidade. O conhecido "Quadrilátero de Lambeth", peça reconhecidamente curta em sua abrangência, apresenta como parte inegociável da identidade anglicana e condição fundamental para qualquer tipo de acordo ecumênico bilateral, o respeito ao episcopado histórico “adaptado localmente nos métodos de sua administração às diversas necessidades das nações e povos chamados por Deus para a unidade de sua Igreja".
Partido assim, da consciência da importância dos bispos para uma comunidade episcopal, a primeira pergunta que nos vem a mente quando se pretende refletir sobre esta temática é: o que é um bispo? Na compreensão da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, um bispo é um legítimo sucessor dos Apóstolos. Alguém que foi sagrado por outros bispos, em uma ininterrupta sucessão, a fim de administrar uma região que é denominada de diocese.
O exercício histórico do episcopado pode variar entre um episcopado monárquico absoluto e um episcopado colegiado, contudo, historicamente o bispo tem desempenhado pelo menos quatro importantes papéis: ele é mestre, é pastor, é apóstolo e é guardião.
1. Mestre
O estudo da história eclesiástica nos mostra de forma bem clara que desde a Igreja primitiva que os bispos exercem um papel de extrema importância no ensino da comunidade dos fiéis e na formulação doutrinária da Igreja. No passado podemos encontrar um Irineu, um Agostinho de Hipona, um Anselmo de Cantuária, um Thomas Cranmer, etc. mas isto não significa que todos os bispos devam ter a mesma envergadura intelectual destes mestres do passado. Significa sim que o bispo deve ser "apto para ensinar", para dirigir sua diocese de acordo com o que sempre ensinou a Igreja (Tradição) e sem se desviar das Escrituras, com o auxílio das ciências (Razão).
2. Pastor
Além de mestre, o bispo também deve ser visto como pastor. O bispo, em sua diocese é o representante do Bom Pastor. "a idéia do cuidado pastoral é inerente ao seu ofício" e "tanto o clero quanto o laicato devem olhar para ele como o pastor chefe"[1] É assim, como “Pastor chefe" na igreja, que ele é descrito nos ofícios de instrução do LOC de 1930. Na eclesiologia Episcopal, o bispo é "o" pastor da diocese. Nos textos clássicos da literatura episcopal as palavras de Jesus “apascenta as minhas ovelhas“ (Jo 21:15-17) são sempre associadas ao ministério episcopal. Não há outros pastores, há representantes do bispo em cada comunidade local. Na qualidade de pastor o bispo é aquele que ouve os problemas de seu clero, que cuida, que acode, que se esforça para ajudar; mas que também disciplina, repreende e procura a correção do faltoso. Não é sem propósito que o chamamos “Pai em Deus". Ele é aquele que ouve as carências de seu clero e ajuda a dirimir as dores e as dificuldades.
3. Apóstolo
Um outro papel importantíssimo que é exercido pelo bispo é o de apóstolo. A palavra apóstolo significa originalmente "enviado", e aponta para o papel missionário do bispo. Ele é aquele que tem a responsabilidade de fazer missão na igreja anglicana. Por isso todas as Missões estão ligadas a ele. Ele é quem se esforça para ver as comunidades crescerem; ele é quem confirma aqueles que querem renovar os votos batismais e recebe aqueles que querem pertencer a esta comunidade de cristãos. Não há crescimento na igreja sem um bispo que o promova e o oriente. Lembro-me do bispo David Gitari que em uma palestra em um congresso de Missões Globais deu um testemunho extraordinário. Quando ele se tornou bispo da Diocese de Mt. Kenya oriental, em 1975, existiam cerca de 19 paróquias e 150 congregações. Em 1990 foi preciso dividir a Diocese em duas pois o número de paróquias havia crescido para 33 e as congregações para cerca de 400. Nossa Diocese tem crescido muito nos últimos três anos, mas é possível um crescimento maior ainda. Sem, contudo, a presença e o apoio do bispo diocesano, isto jamais ocorreria.
4. Guardião da doutrina, da liturgia e dos cânones
Não é atoa que ao bispo se requer guardar o sagrado depósito da fé (a doutrina) que foi dada a Igreja. Um bispo não pode titubear diante de algum perigo contra a santa doutrina que recebemos dos nossos pais. No Documento da Comissão de Doutrina Cristã envolvendo o Arcebispo de Cantuária e York, se diz que "eles asseguram a pureza do ensino apostólico contra o perigo da introdução de novos e errôneos ensinamentos".[2]
O bispo é aquele que possui o chamado jus liturgicum. Ou seja, ele é aquele que tem a responsabilidade e poder para cumprir e fazer cumprir a liturgia da igreja na Diocese. O jus liturgicum lhe garante a possibilidade de criar novas liturgias e adaptar as já existentes às necessidades que surgirem. Contudo é o bispo que tem o dever de velar pela liturgia nas comunidades de sua diocese. Ninguém pode cortar, adaptar, criar, colar, por, tirar ou fazer qualquer alteração na liturgia da igreja sem a expressa autorização do bispo diocesano.
Ele é também o guardião dos cânones. Muitas vezes achamos entediante lidar com assuntos canônicos e de fato, em grande medida o é. Contudo cabe ao bispo, cumprir e fazer cumprir os Cânones Gerais e Diocesanos na diocese em que foi eleito. Ele não tem a opção de abdicar desse dever. Todos os demais clérigos estão obrigados a cumprir os cânones, mas o bispo possui este dever advindo, além do seu juramento (que os clérigos também fizeram) de sua função administrativa, de bispo.
Uma olhada, mesmo que rápida, em nossos Cânones Gerais, nos permitirá ver que existem quatro tipos de Bispos: o Diocesano, o Coadjutor, o Sufragâneo e o Aposentado. Vejamos cada um deles particularmente.
1. Diocesano
De acordo com o Cânon 17 Art. 1º dos Cânones Gerais da IEAB, “Bispo diocesano é o bispo com jurisdição numa diocese, responsável por sua liderança pastoral e administrativa, eleito para tal fim". Os deveres do bispo diocesanos são os mais variados. Além de obviamente administrar os sacramentos, o bispo diocesano tem também a obrigação de visitar cada comunidade, avaliar o estado de cada uma delas, averiguar o comportamento do clero, confirmar, etc.
2. Coadjutor
O bispo coadjutor é aquele que auxilia o bispo diocesano mas que tem direito à sucessão, ou seja, que assumirá a diocese quando este se aposentar ou, por alguma outra razão, sair.
3. Sufragâneo
O bispo sufragâneo é descrito no Art. 1º do Cânon 19 como “um assistente do bispo diocesano" agindo sempre sob a direção do mesmo. É aquele que poderia muito bem ser chamado de bispo auxiliar. Ele só existe para ajudar e dar apoio ao bispo diocesano. Em algumas Províncias ele é indicado pelo diocesano e referendado no concílio. É importante que se diga que o bispo sufragâneo não tem direito a sucessão, logo, não assumirá a diocese quanto o diocesano se aposentar.
4. Aposentado
O bispo aposentado é aquele que serviu como bispo até sua aposentadoria mas que pode continuar atuando e ministrando os sacramentos. Ele tem assento na Câmara dos Bispos, tem voz mas não em voto.
Queridos irmãos e irmãs, a oportunidade que teremos de escolher um bispo sufragâneo nos próximos meses nos coloca diante de três possibilidades. Nossos votos e nosso esforço poderá resultar na eleição de um bispo que, em primeiro lugar seja um obstáculo e um empecilho ao programa de governo de nosso bispo Diocesano. É possível que o bispo eleito seja apenas um crítico, uma pedra no caminho e um gerador de tensões. Se isto acontecer vislumbramos duas conseqüências obvias. Em primeiro lugar todos os esforços da diocese se voltarão para dirimir as dificuldades, as tensões e diferenças entre os dois bispos. Perderemos muito tempo e esforço. E, em segundo lugar, o projeto de governo que foi aprovado pelo pacto de Pau D'alho, sofre um golpe mortal, uma vez que não mais se desenvolverá.
Em segundo lugar, é possível que nosso processo eletivo nos leve a alguém que seja apenas um bispo de “aparências, nada mais". Alguém que esteja apenas interessado em vestir uma camisa roxa e passear pela praia de Boa Viagem expondo sua nova situação eclesiástica. Um pavão! Alguém com o ego insuflado e que adore ser paparicado, mas que não mova uma palha para dar seqüência no estabelecimento de uma Diocese verdadeiramente anglicana no nordeste. Se isto acontecer, prevejo duas grande conseqüência: em primeiro lugar queimaremos um cartuxo, perderemos tempo e uma boa oportunidade para que nossa Diocese se desenvolva de forma mais plena e descentralizada. Teremos que esperar para que a Câmara dos Bispos autorize uma nova eleição de Bispo em nossa Diocese. Em segundo lugar, imporemos, sobre o atual bispo, mais trabalho, pois ele terá sozinho que visitar toda a Diocese e cada uma de suas comunidades, o que a cada dia fica mais difícil em função do crescimento.
Finalmente, nosso processo eleitoral poderá ver surgir um bispo sufragâneo que seja, de fato, um ajudador, um auxiliar. Alguém que se coloque ao lado do diocesano, alguém que o ajude, que esteja com ele nas lutas, que divida com ele as responsabilidades, que esteja sob sua orientação e sob sua ordens. Se isto ocorrer poderemos prever algumas conseqüências lógicas: uma presença episcopal mais freqüente nas comunidades da diocese, permitindo que cada comunidade tenha um bispo mais presente do que tem atualmente; uma descentralização das atividades episcopais, permitindo que o trabalho (e o cansaço) seja dividido; a resolução mais rápida de problemas, evitando mais demora e, portanto, mais sofrimento; um crescimento maior da Diocese. A lógica e a inteligência nos faz optar por este tipo de bispo.
Diante do que foi exposto acima, e tendo pela frente uma eleição tão importante para nossa diocese, precisamos apresentar alguns parâmetros para nortear nossa escolha. Acreditamos que a primeira atitude que devemos evitar é a personalização do debate, ou seja, antes de debater "nomes" devemos debater "perfis". Ou seja, antes de perguntar qual é o nome, devemos perguntar qual é o perfil do bispo que precisamos? O perfil do bispo que precisamos deve, em primeiro lugar se coadunar com a natureza do sufraganato. Ele deverá ser um assistente, um companheiro, um colaborador. Alguém que assuma cumprir o programa de governo do bispo diocesano. Finalmente, o perfil do bispo sufragâneo que precisamos, deve ser buscado na resposta às necessidades urgentes da diocese. Precisamos de um bispo que seja também missionário, que viaje, que já ao sertão e ao litoral, à Bahia e ao Maranhão, que visite os mais diversos tipos de obreiros e que esteja disposto a está presente nas comunidades mais abastadas de nossa diocese e, da mesma forma, àquelas comunidades mais necessitadas. Um bispo que tenha trânsito entre os membros do MST e que, da mesma forma, esteja aberto para receber e discutir com a UDR.
Encerro estas palavras, fazendo minha a oração contida no LOC, à página 152 que diz: “Ó Deus, que guiaste os teus Apóstolos a ordenarem ministros em todo o lugar; concede que a tua Igreja, sob a orientação do Espírito Santo, escolha pessoas aptas para o ministério da Palavra e Sacramentos, amparado-as em seu trabalho pela extensão do teu Reino, mediante o Pastor e Bispo de nossas almas, Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre". Amém.
[1] DOCTRINE INTHE CHURCH OF ENGLAND, p.123 [2] DOCTRINE INTHE CHURCH OF ENGLAND, p.122