Relatório do Primaz
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
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GABINETE DO PRIMAZ
RELATÓRIO DO PRIMAZ
Aos delegados Clericais e Leigos ao 30° Sínodo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, reunido em Curitiba, PR, de 26 a 30 de Julho de 2006, AD.
Apresento-vos, em síntese, este relatório dos atos do Primaz e provincial, ocorridos no interregno sinodal. Todo o acontecimento doloroso e difícil, contém em si as sementes de crescimento e libertação. Nesta persuasão é que temos, como província, enfrentado os problemas, os desafios e as dificuldades financeiras e administrativas que nos impões pesados fardos. Sobretudo, muitas decisões nada agradáveis tiveram de ser tomadas, trazendo contrariedades, tristezas, agressividade e inconformidade para muitos. Toda esta complexidade de coisas trouxe certa “paralisia provincial”, em termos de eventos, reuniões e viagens, afetando drasticamente a nossa ação pastoral e missionária. Decepciona a todos termos de colocar a nossa energia, trabalho e poucos recursos que possuímos para questões administrativas, econômicas, financeiras e judiciais, em vez de nos empenharmos em nossa atividade fim como igreja, ou seja, a consciência de que temos parte na missão confiada a todo o Povo de Deus, para a transformação do mundo.
Nesse relatório, nosso desejo está expresso no lema sinodal e no mote para o triênio: “Responsabilidade Cristã: Fortalecer a Igreja para o serviço no mundo de Deus. Adoração, Serviço e Compromisso”.
1. Reestruturação
O triênio 2003/6 continuou sendo para nós a continuidade de um período de reestruturação, iniciado no triênio anterior, quando o Primaz e a Secretaria-Geral informaram ter chegado o tempo de reajustar a estrutura provincial de acordo com a realidade vivenciada. A dura realidade é que as dificuldades diocesanas em redimensionar as suas cotas, aumentando sua participação, no orçamento provincial não foi possível; o déficit provincial acumulado, desde muitos anos, atingiu um patamar insustentável; nosso orçamento se sustenta, basicamente com recursos financeiros vindos do exterior. Na realidade, a sede provincial tem se valido dos projetos diocesanos obtidos no exterior para fazer um fluxo de caixa, antes de repassá-los, e isto tem provocado um atraso enorme para as destinatárias. Em não fazendo isto, não há como manter a estrutura provincial. A ação tomada pelo Conselho Executivo foi, basicamente, o corte radical de despesas com pessoal. Um grupo de trabalho, nomeado pelo Primaz, apresentou, ao final deste ano, uma série de idéias para elaboração de um plano emergencial a curto, médio e longo prazo para atender a grave situação.
Através de um projeto de reflorestamento enviado à Oferta Unida de Gratidão da Igreja dos Estados Unidos, obtivemos uma substancial quantia que já está sendo investida num plano que irá proporcionar recursos de sustentabilidade provincial, a longo prazo. Pela primeira vez na história provincial, se conseguiu um recurso específico visando a sustentação financeira da sede provincial. Lembrando-se que, ainda cabe a sede provincial o sustento financeiro dos Distritos Missionários. Também está sobre a mesa do Conselho Executivo e da Câmara dos Bispos, um estudo de criação de um Fundo Permanente, por meio da desimobilização do patrimônio físico da JUNET, e algum da Província, a semelhança do realizado, com sucesso, pelo FAPIEB, o qual, em sua projeção, geraria recursos para sustentar a sede provincial, sem prejuízo de todos os compromissos e programas da JUNET. O estudo foi
realizado pelo Sr. David Catron, franciscano, voluntário da ECUSA, atualmente trabalhando na IEAB, na Diocese Sul-Ocidental.
O grande desafio que está perante o nosso Sínodo é, mais uma vez, o da Responsabilidade Cristã da Igreja Brasileira. Passados 40 anos de nossa autonomia, ainda somos uma igreja financeira e economicamente dependente do exterior.
2. Destaques Positivos
Mas temos muitas coisas positivas que nos alentam na caminhada. O Sínodo irá apreciar a proposta, já aprovada pelo Conselho Executivo, da criação da Diocese da Amazônia. Ou seja, os desafios missionários, apesar de nossa fragilidade financeira, continuam a ser enfrentados. A Igreja está crescendo e expandindo naquela região. Graças à liderança do Reverendo Saulo M. de Barros e de sua esposa Ruth, e do trabalho dos clérigos e das lideranças leigas daquele Distrito Missionário, o sonho de uma Diocese se torna concreto neste Sínodo. É uma diocese que nasce auto-sustentável.
Saudamos a recepção da Ordem Terceira de São Francisco da IEAB, na Ordem Terceira da Sociedade São Francisco, quando do Capítulo Interprovincial, realizado em Cantuária, Inglaterra, em 2005. Na qualidade de Bispo Primaz, já havíamos acolhido, oficialmente, o recebimento dos vários grupos franciscanos da IEAB, na Ordem Terceira de São Francisco, Província das Américas. Continuamos orando para que o carisma de Francisco de Assis possa estar presente na vida de nossa igreja, despertando-a para o serviço aos pequeninos.
Registramos, com alegria, a celebração festiva dos 20 Anos da ordenação feminina na IEAB. Foi um longo caminho percorrido, muitas reações e dificuldades foram vencidas, e ainda existirão outras de ser vencidas, mas damos graças a Deus pelo ministério ordenado da mulher, em nossas várias dioceses. O Encontro, realizado em setembro de 2005, em Santa Maria, contou com a maioria das nossas reverendas, de algumas convidadas dos Estados Unidos, da Inglaterra e de outros países da América Latina, e, também, de pastoras de outras igrejas irmãs.
Sob o mote “Na dança da Vida... Quem somos? Como atuamos? O que queremos?”, realizou-se em Bocaiúva do Sul, na Diocese Anglicana de Curitiba, o Encontro Nacional da Juventude Anglicana do Brasil, em julho de 2005. Foi com espírito de reavivamento que a juventude da IEAB experimentou o ENUJAB 2005. O encontro reuniu 150 jovens de diferentes cantos de nossa igreja, ressaltando-se a presença ativa dos representantes dos distritos missionários. Os jovens discutiram com seriedade a sua identidade como cristãos anglicanos e quais os seus desafios.
Não podemos deixar de registrar um momento muito importante na vida provincial que foi o Encontro das Pastorais Sociais. O mesmo aconteceu no Instituto Reverendo Severo da Silva, na Diocese Anglicana de Pelotas. O encontro foi promovido pelo Departamento de Educação Cristã e Missão. O objetivo maior do programa foi o de desencadear o processo de criação de uma Rede Nacional das Pastorais Sociais. A partir de auto-diagnósticos feitos pelas dioceses e distritos missionários, partilhados no primeiro dia do encontro, foi sentido, e a partir daí construído, um perfil de nossa Igreja em relação à Diaconia.
Queremos destacar também a celebração dos 45 anos da presença anglicana na cidade de Brasília. A Diocese Anglicana de Brasília preparou um programa especial de comemorações desse momento importante da vida e missão da Igreja naquela parte do país. As comemorações contaram com a presença de convidados especiais, como o Revmo. Bispo D. Edmund K. Sherrill, que realizou a sua primeira visita episcopal em Brasília com a igreja ainda em construção, e o Reverendo Oswaldo Kickhöfel, que fez um relato histórico dos primeiros passos do anglicanismo no Planalto Central. As comemorações culminaram numa celebração festiva no domingo 5 de junho, tendo como pregador
convidado o Deão Robert Geannini, da Catedral de Cristo, da Diocese companheira de Indianápolis, ECUSA.
A UMEAB também realizou o seu Encontro Nacional, na Diocese Anglicana de Brasília, em outubro de 2004. O tema inspirador do evento foi: “Uma Mulher Segundo o Coração de Deus”. O mesmo foi coordenado pela Presidente Nacional da entidade, Sra. Angélica Campos. Foi um momento de comunhão, alegria, e fortalecimento do ministério da mulher anglicana brasileira.
A Educação Teológica provincial, desde a sua reestruturação em 1995, com a criação do CEA e dos dois seminários provinciais, e a continuidade dos centros diocesanos, deu uma nova dinâmica na oferta mais ampla da formação para o clero e laicato. Ao final de 2005, a Junta Nacional de Educação Teológica promoveu uma Consulta Nacional, onde pôde se avaliar a caminhada até o presente, e reafirmar o atual modelo como o mais adequado para o momento da IEAB. A mesma enfatizou a necessidade maior de intercâmbio entre os seminários provinciais e internacionais. Isso já vem acontecendo com o SETEK, que, atualmente, possui dois alunos da Diocese de Angola fazendo o curso teológico de quatro anos. Também os cursos teológicos à distância estão proporcionando a um número razoável de pessoas de todo o Brasil, e a alguns do exterior, a realização de seus estudos. Em 2006, existem 22 alunos matriculados. O importante é que todo o projeto de formação teológica brasileira é custeado quase que 95% pela própria JUNET, com seus recursos próprios, com destaque para a concessão de Bolsas de Estudo, que têm possibilitado a formação e qualificação de quadros. Também tem sido importantes os vários seminários regionais promovidos pelo CEA, que além de formação, têm produzido integração entre as dioceses. Também de importância foi a realização, pelo CEA, do Primeiro Simpósio Nacional de Teologia, em Londrina, PR, em agosto de 2004, sobre o tema “Inclusividade”.
Não poderíamos deixar de destacar a criação e instalação da Diocese Anglicana de Curitiba, no último Sínodo, e a escolha do seu Bispo Diocesano, na pessoa de D. Naudal Alves Gomes. Hoje, essa diocese recebe o Sínodo provincial e tem caminhado em seu crescimento missionário rumo a uma diocese plena.
Também temos a salientar a escolha de D. Mauricio Andrade para bispo diocesano da diocese de Brasília, que tem buscado promover o crescimento e a expansão de nossa Igreja no Planalto Central do Brasil. Sua sagração se deu no dia 30 de agosto de 2003, na Catedral Nacional de Brasília, com a participação expressiva de convidados de toda a IEAB, do exterior e de inúmeros convidados ecumênicos. No domingo 31 de agosto, ocorreu a instalação do novo Bispo na Catedral da Ressurreição, sendo pregadora a Revma. Bispa Cate Waynick, bispa da Diocese Companheira de Brasília de Indianápolis, EUA.
Outros eventos que marcaram este triênio foram a realização de duas Consultas sobre Sexualidade Humana. As mesmas atenderam à recomendação da Conferência de Lambeth 1998, estimulando as províncias a continuarem a reflexão ampla sobre o assunto, tendo cuidado de ouvirem a experiência das pessoas homossexuais. Este Sínodo irá receber oficialmente o documento final da última consulta, realizada no Rio de Janeiro.
Também a IEAB ingressa no Ensino Superior, com criação e instalação da Faculdade Anglicana de Erechim e do Centro de Educação Tecnológica Barão do Rio Branco, em Erechim, na Diocese Sul-Ocidental. As duas instituições de Ensino Superior tiveram seu funcionamento autorizado em dezembro de 2003, com realização de seu primeiro vestibular em 2004. Os dois cursos em funcionamento são: Administração em Serviços e Tecnologia em Sistemas de Informação. A Faculdade e o Centro são muito especiais, porque trazem consigo a tradição de ensino do Colégio Barão, desde 1929, e a proposta da educação integral, formação intelectual, aliada à formação moral e cristã.
3. Presença Internacional
Apesar de sermos uma pequena Igreja, no contexto da Comunhão Anglicana, temos tido uma presença internacional atuante e destacada. Estamos presentes como membros da CETALC (Comissão de Educação Teológica da América Latina e Caribe), na pessoa de D. Naudal A. Gomes. O Revmo. D. Luis Osório Prado é membro do Comitê Permanente da Comissão Internacional Anglicana de Justiça e Paz. O Revmo. Bispo D. Maurício Andrade é membro do Conselho Consultivo da USPG (Sociedade Unida de Propagação do Evangelho), da Comunhão Anglicana, com sede em Londres, Inglaterra. O Reverendo Dessórdi Peres Leite representa as Províncias Anglicanas das Américas, na Rede Internacional Anglicana de Juventude. A Secretária-Geral, Sra. Christina Winnischofer e a Srta. Ana Lucia Machado, de Porto Alegre, RS, integraram parte da representação anglicana na reunião da Comissão da ONU sobre o Status da mulher, (UNCSW), em Nova Iorque, em 2005 e 2006. A Secretária-Geral é a representante da América do Sul, na Rede Internacional Anglicana de Mulheres. O Revmo. D. Naudal participou, nestes últimos anos, de uma Comissão do Conselho Mundial de Igrejas, sobre o futuro do Ecumenismo mundial. A Reverenda Inamar C. de Sousa foi membro do Comitê Central e do Comitê Executivo do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) até a última Assembléia, ocorrida em Porto Alegre, em fevereiro de 2006. O Primaz foi eleito como representante das Províncias Anglicanas das Américas e Caribe, no Comitê Permanente dos Primazes e, nesta qualidade, passou ser também membro do Comitê Executivo Permanente do Conselho Consultivo Anglicano. Também foi nomeado pelo Arcebispo de Cantuária para participar do Grupo de Trabalho de Educação Teológica para a Comunhão Anglicana (TEAC). Ο Reverendo Jerson Dariff Palhano participou da Comissão Internacional de Diálogo Bilateral entre a Comunhão Anglicana e a Aliança Batista Mundial. Nas Convenções Gerais da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, o Primaz e esposa, vários dos nossos Bispos, alguns clérigos e leigos, têm sido convidados especiais para participarem das mesmas. Na "Rede Anglicana de Conversações Inter-Religiosas” (NIFCON), tem participado o Revmo. Bispo D. Celso Franco de Oliveira. Na Rede de Juventude do CLAI temos a participação da Srta. Renata Nunes.
4. Ecumenismo
O nosso compromisso ecumênico tem crescido por meio da presença e participação da IEAB em diversos organismos e eventos que buscam a unidade da Igreja de Cristo. A IEAB teve um papel importante nas Comissões Nacional e Local preparatórias da Nona Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas. Foram nossos representantes D. Maurício Andrade, na Comissão Nacional, e a Secretária-Geral, Christina Winnischofer, na Comissão Local. Durante a Assembléia, clérigos e leigos da IEAB lideraram várias comissões como Liturgia e Culto, Comunicação, Infra-estrutura, Juventude, Café Teológico e Música. Também foi decisivo o apoio da IEAB com recursos humanos e infra-estrutura para os vários acontecimentos paralelos que reuniram todos os anglicanos presentes à Assembléia.
Na Presidência do CLAI (Conselho Latino Americano de Igrejas) está atualmente D. Mauricio Andrade, e o Secretário Executivo é o Reverendo Luis Caetano Grecco Teixeira. O Revmo. D. Celso Franco de Oliveira é um dos Vice-Presidentes do CONIC. Na última assembléia geral, no corrente ano, o Revmo., Bispo D. Jubal Pereira Neves foi eleito Presidente da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviços), juntamente com o nosso irmão Carlos José Machado, para o Conselho Fiscal. O reverendo Francisco de Assis da Silva é o atual Secretário Executivo do CECA (Centro Ecumênico de Evangelização, Capacitação e Assessoria). O Revmo. Bispo D. Sebastião Armando Gameleira Soares tem sido assessor permanente do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos). O Bispo Almir dos Santos continua participando ativamente do GTME (Grupo de Trabalho Missionário Evangélico de Apoio e
Solidariedade aos Povos Indígenas do Brasil). O Deão Sérgio F. de Andrade é o Coordenador do "Programa de Apoio à Ação Diaconal das Igrejas", da Diaconia, organização ecumênica, com sede em Recife, que se coloca a serviço dos excluídos da sociedade e na busca da construção da cidadania com dignidade. Temos representação na ASTE (Associação de Seminário Teológicos Evangélicos), com sede em São Paulo, no SICA (Serviço Interconfessional de Aconselhamento) com sede em Porto Alegre. Também, D. Maurício Andrade foi escolhido para ser um dos coordenadores do importante Fórum Ecumênico do Brasil (FE-BRASIL), que congrega as igrejas e organizações ecumênicas brasileiras.
5. Viagens
Nossa função tem exigido a nossa presença em inúmeros eventos, reuniões dentro e fora da Igreja. Presidimos os atos de instalação da Diocese Anglicana de Curitiba, Investidura do seu Bispo Diocesano, D. Naudal Alves Gomes, e dedicação da Catedral de São Tiago, em Curitiba. Participamos das Convenções Gerais da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, em Mineápolis – 2003 e Columbus 2006, com assento e voz na Câmara dos Bispos. Participamos da reunião da Câmara dos Bispos da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, em Spokane, Estado de Washington, onde fiz um pronunciamento sobre a situação da IEAB. Visitamos a Diocese de Massachusetts, em Boston. Participei da Reunião da Comissão Bilateral, em Martha's Veinyard, Estados Unidos. Presidimos em Brasília as cerimônias de Sagração e Instalação de D. Maurício Araújo de Andrade como Bispo Diocesano da Diocese Anglicana de Brasília. Presidimos, em Belém, a concílios do Distrito Missionário da Amazônia e dirigimos o retiro do clero e lideranças leigas. Participamos de duas reuniões dos Primazes, uma em Londres e outra em Dromantine, na Irlanda. Participamos, na qualidade de membro do Comitê Permanente dos Primazes, da Reunião do Conselho Consultivo Anglicano, em Nottingham, Inglaterra. Participamos das reuniões do Comitê Permanente dos Primazes e do Conselho Consultivo Anglicano, em Nottingham e Londres. Participamos de duas reuniões do Grupo de Trabalho de Educação Teológica para a Comunhão Anglicana (TEAC) em Bristol (Inglaterra), e Joanesburgo (África do Sul). Participamos do Congresso de Teologia, promovido pela CETALC, no Panamá. Participamos de duas Assembléias da CESE, em Salvador, do Encontro de Líderes das Igrejas, promovido pelo CONIC, em São Paulo. Participamos do Encontro das Famílias Confessionais, promovido pelo CLAI, em Santiago do Chile. Participamos, juntamente com D. Glauco, do Encontro Ecumênico Mundial de Bispos, em Genebra, Suíça, promovido pelo movimento “Focolare”, da Igreja Católica Romana. Em todas, participamos representando da IEAB e desempenhando tarefas específicas, previamente solicitadas.
6. Diocese Anglicana do Recife
Todos, nesta altura, temos conhecimento dos problemas difíceis ocorridos na Diocese Anglicana do Recife, que culminaram com a deposição do seu então bispo diocesano, Sr. Robinson Cavalcanti, e, posteriormente, de grande parte do clero, bem como o afastamento da comunhão da IEAB de comunidades que permaneceram com ele. Em conseqüência disso, este Sínodo deverá eleger um novo bispo diocesano para aquela diocese.
Parece-me ter ficado bem claro a todos que os fatos referentes ao ocorrido em Recife, foram acontecimentos que precederam Mineápolis e a eleição de bispo Gene Robinson, o que somente desencadeou e fez recrudescer o que já vinha ocorrendo na DAR. Não se tratou, como tem sido propagado, de uma “guerra santa entre evangélicos e liberais"; este tratamento é ofensivo à nossa inteligência e à verdade dos fatos. A acusação de perseguição a “evangélicos” e “ortodoxos” é uma versão que foi ardilosamente construída e alimentada pelo bispo deposto, com apoio de instâncias dentro e paralelas à Comunhão Anglicana.
Não nos alegramos com a realidade acontecida na DAR e com o momento atual da Comunhão Anglicana. Muito menos, com as ações de Províncias, grupos, redes e pessoas, que neste momento de crise e divisão, cruzam fronteiras provinciais, diocesanas e paroquiais, numa total e agressiva atitude de desrespeito à nossa autonomia como Província. Infelizmente, como bem disse o Arcebispo de Cantuária: “Um ponto central para algumas pessoas que professam a fé cristã é a afirmação de que Deus criou um mundo no qual Ele não se “intromete” para resolver problemas. Deus criou o mundo de tal maneira, que as opções de maldade e ódio não podem ser simplesmente frustrados ou abortados (pois assim Ele teria de intervir a cada instante na história), mas sim, elas têm de ser confrontadas, sofridas, curadas e isso em meio a um processo complexo, que é a história humana, sempre em colaboração com o que fazemos, dizemos ou rezamos" - (Writing in the Dust, p.12).
Os fatos acontecidos na DAR são matéria de tratamento disciplinar e canônico, de alguém que desrespeitou as Leis Eclesiásticas (Cânones) da Igreja, na qual as pessoas legalmente constituídas zelam pelas mesmas e pela comunhão e unidade da IEAB. O bispo deposto, Robinson Cavalcanti, foi afastado do ministério ordenado da Igreja, não por um ato sumário do Primaz, mas após um longo processo canônico e trabalho de uma Comissão de Investigação dos fatos; foi condenado pelo Tribunal Superior Eclesiástico, constituído de três bispos canonicamente eleitos pelo Sínodo provincial, e referendado unanimemente pela Câmara dos Bispos. Em nenhum momento do processo o acusado, usando do direito de defesa, contestou o conteúdo das denúncias a ele imputadas, mas, sim, ateve-se a discorrer, segundo ele, sobre problemas formais do processo. Estes fatos muito nos entristeceram. Mas nossa oração, agora, se dirige à DAR, que permaneceu fiel e em comunhão com a IEAB, para que continue a sua tarefa missionária na construção de um tempo novo e um futuro melhor.
7. Dom Sumio Takatsu
No dia 23 de janeiro de 2004, faleceu no Hospital Santa Magiore, em São Paulo, aos 77 anos, nosso querido colega bispo D. Sumio Takatsu, bispo emérito da Diocese Anglicana de São Paulo. Presidimos o ato de Encomendação de D. Sumio, no templo da Paróquia São João, em Pinheiros, São Paulo. A IEAB sente falta desse grande teólogo, pastor e extraordinário ser humano, cuja obra marcou, profundamente, a maioria de nós, a formação teológica, a visão eclesiológica, a compreensão da liturgia da Igreja e do ministério de todos os cristãos. Ele foi um dos maiores defensores da Ordenação Feminina e da Comunhão das Crianças. Choramos a perda não somente do teólogo, do pastor, do mestre e do amigo, mas, acima de tudo, de um ser humano muito especial, sempre cheio de bondade e atenção, disponibilidade e abertura para o novo que Deus faz suscitar no meio da Igreja. Sua ausência é a presença mais sentida nas reuniões da Câmara dos Bispos. Sentimos falta de sua palavra de conselho, inspiração, lucidez, conciliação e de autoridade natural em todos os momentos de sua participação. Ele formou teológica e pastoralmente, uma geração inteira de bispos, clérigos e leigos da IEAB. Todos nós bebemos dos seus ensinos sobre Novo Testamento, Ética Cristã, de Ecumenismo e, nos últimos tempos, de Liturgia. Ele chamou atenção da Igreja para a necessidade de renovação e muito colaborou na elaboração de nosso atual Livro de Oração Comum. A IEAB acrescenta ao seu calendário litúrgico, a vida, o testemunho e o ministério de um santo de Deus: Sumio Takatsu, Teólogo e Mestre, 2004 AD.
8. Conclusão
Vivemos em sociedades que são pródigas em pronunciamentos sobre direitos, mas, ao mesmo tempo, relutantes em falar sobre responsabilidades. Neste Sínodo, somos chamados a assumir a nossa
responsabilidade cristã, fortalecendo a Igreja para o seu serviço no mundo de Deus. Como anglicanos brasileiros temos de caminhar juntos, de promover a paz, a justiça e a harmonia, de manter a unidade de maneira vigorosa, como se as nossas vidas dependessem dela. Uma comunhão como a nossa, e estamos vendo isso, é vulnerável às pressões da divisão. Nós não somos, e nunca seremos, queira Deus, o tipo de igreja que impõe respostas de cima para defender a unidade. Ao contrário, somos uma igreja, ou esperamos ser uma igreja, que abandona as suas próprias defesas para ir ao encontro do povo em seu próprio território. Somos uma igreja que procura servir a Deus servindo, não controlando o povo. Somos um povo que se mostra arrependido de suas falhas. Nossa igreja não é uma igreja morta, onde os abutres rondam, mas uma igreja comprometida com a verdade de Deus, decididamente voltada para fazer discípulos, ser uma igreja que cresce e se compromete, sobretudo, com nosso Senhor Jesus Cristo. Não deveríamos permitir que algum assunto, mesmo particularmente sagrado para nós, se transforme em assunto que divida a Igreja de Deus. Temos visto trechos das Santas Escrituras serem atiradas como "granadas de mão”, uns contra os outros, para defendermos nossos pontos de vista.
A palavra mais forte que chega a mim, num Sínodo, não é a palavra dita, mas a palavra vista na imagem da Igreja reunida, constituída de pessoas de todos os cantos do Brasil e do exterior. A imagem composta de muitas e diferentes faces, juntas, como Corpo de Cristo. Esta imagem nos afirma e convoca a sermos uma comunhão Una em Cristo. A comunhão é fruto da ação de Deus, e não de uma mera construção humana. Vivemos o dom da comunhão quando derrubamos as barreiras de hostilidade e de divisão. Como bispos, clero e povo reunido em Sínodo, apesar de nossas diferentes perspectivas e posições, de diferentes visões e experiências, somos membros, uns dos outros, chamados a viver o mistério da reconciliação, para descobrirmos a verdade em comunhão. No Sínodo, buscamos a verdade para a IEAB no contexto da comunhão. E isso significa para todos nós, pela graça de Deus, mover-nos em meio a expectativas e perdas, tristezas e alegrias, decepções e esperanças. O que realmente importa é estarmos juntos na missão que o Senhor nos convocou, prontos a acolhermo-nos, mutuamente, na força e no amor de Deus. A comunhão nos impõe a negação de nós mesmos e de nossos interesses individuais (Primeiro Coríntios 13.4). E isso, na maioria das vezes, é muito dolorido para nós. Mas a forma de vivermos como Igreja será um testemunho muito mais forte, do que todas as nossas falas e decisões plenárias. Ao sairmos desse Sínodo, por certo, não seremos a mesma Igreja, porque sairemos enriquecidos pelas novas experiências e descobertas. Que possamos ser uma Igreja onde é bom viver, onde possamos respirar e dizer o que pensamos. Uma igreja de liberdade. Uma Igreja que ouve antes de falar, que acolhe em vez de julgar, que perdoa sem querer condenar, que anuncia em vez de denunciar. Uma igreja de misericórdia. Uma igreja onde o Espírito Santo possa se sentir em casa. Uma Igreja aberta.
Curitiba, 27 de Julho de 2006.
Respeitosamente submetido,
- D. Orlando Santos de Oliveira Bispo Primaz