Resgatando Nossa História

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Resgatando Nossa História

Robinson Cavalcanti2006

DIOCESE ANGLICANA DO RECIFE - UMA IGREJA DA COMUNHÃO ANGLICANA NO BRASIL, SOB A AUTORIDADE PRIMACIAL DA IGREJA ANGLICANA DO CONE SUL DA AMÉRICA

Resgatando Nossa História (I)

Diocese do Recife: 30 Anos

I - ANTECEDENTES: Os INGLESES

Descontando as breves presenças francesas e holandesas no Brasil Colônia, o Protestantismo de Imigração deitará raízes no período do Brasil Monárquico, primeiro os ingleses, e, logo a seguir, os alemães. Estes, mais numerosos, vinham para ficar, e eram, em sua grande maioria agricultores, fixando-se em zonas rurais do sul e do sudeste. O pioneirismo inglês seria urbano, costeiro, voltado para a indústria e o serviço, quando a hegemonia do Reino Unido nos campos da economia e da tecnologia (as artes, literatura e filosofia eram de matriz francesas) se mantém no Brasil desde o Tratado de Comércio e Navegação, de 1810 (com a vinda da família real para o Brasil fomos elevado ao status de Reino Unido de Portugal e Algarves) até o pós-Segunda Guerra Mundial, quando, com a bi-polaridade das superpotências e a “guerra fria”, os Estados Unidos da América começa a substituir as influências inglesa e francesa. Vale lembrar que durante o século XIX, a “Era Vitoriana”, a Grã-Bretanha chegou a ter o maior Império registrado na História (um quarto do território terrestre e um quinto da sua população), tendo que abrir centenas de Capelanias Anglicanas em todo o mundo, por iniciativa do governo, além da presença de missionários junto aos nativos, apoiados por Sociedades Missionárias Anglicanas privadas.

O setor de exportação-importação, metalurgia, transportes (trens, bondes e navios), energia (gás e eletricidade) e comunicação (telefone e telégrafo) eram de propriedades inglesas, que, ainda investem no setor bancário e em outros ramos comerciais e de mineração. Numerosas colônias de cidadãos britânicos se estabelecem em nossos principais centros urbanos. Pelo Tratado, eles poderiam além de clubes e cemitérios construir templos para o culto anglicano, desde que celebrado em língua inglesa, e que as construções não tivessem símbolos religiosos exteriores. A partir do Rio de Janeiro, esses templos foram construídos, também, em Niterói, São Paulo, Santos, Nova Lima (MG), Salvador, Recife, e, muito posteriormente, em Belém (PA). A jurisdição episcopal era do Bispo de Londres, que ocasionalmente usava bispos em visita ao nosso continente (como 0 do Havaí, em 1869). Mas em 1874, a Igreja da Inglaterra, a pedido do Ministério das Relações Exteriores, instala a Diocese das Ilhas Falkland (Malvinas), com a Catedral em Port Stanley e escritório em Buenos Aires, com jurisdição sobre toda a América do Sul.

No Recife, passamos a ter o Town Club (um bar no bairro do Recife), o Clube Caxangá, o Country Club, o Cemitério (no bairro de Santo Amaro) e o templo da Holy Trinity Church e casa pastoral, ambos no bairro da Boa Vista. A comunidade inglesa, por causa da amenidade do clima, preferia residir na área Parnamirim – Casa Forte – Apipucos – Monteiro.

A Capelania Britânica de Pernambuco teve início no ano da nossa Independência, 1822, tendo como seu primeiro titular o Rev. John Penny, seguido do Rev. Charles Adye Austin, que construirá o templo, a partir de 1838, na Rua da Aurora, esquina com a então Rua Formosa, onde hoje se encontra o Cinema São Luís. A casa pastoral ficava em uma transversal da Rua Formosa, denominado, por isso mesmo de “Beco do Padre Inglês” (o ministro anglicano), posteriormente Rua do Padre Inglês (hoje dominada pelos batistas...).

Estão registrados os seguintes Capelães que aqui serviram: Rev. J. Midgley (1874-1892), Rev. William Ding (que morre de febre amarela e é aqui sepultado), Rev. W.E. Macray (1893-1918), Rev. F.M. Lane (1900-1902), Rev. George Baile (1903-1918, que morre nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, integrando o contingente de voluntários anglo-pernambucanos), Rev. J. Meredith Bate (1920-1922), Rev. Archbald Nocol (1922-1936), Rev. H.J. Dobb (1940-1941). Sem registro preciso das datas de seus períodos, seguem-se os reverendos: Eric C. Wilcokson, J. Gould, D.N. Jackson. Theodore Hina, Cecil R. Burton, R.F. Pearce e John Ellsworth (início dos anos 1960, quando o conheci e a Igreja, ainda com alta freqüência de ingleses e de seus descendentes).

Quando, em 1944, a Prefeitura do Recife resolveu alargar a Rua Formosa, transformando-a em Av. Conde da Boa Vista, foi desapropriado o terreno do antigo templo dos ingleses. Estes compraram um outro no quintal do Country Club, na Rua da Matinha (depois Carneiro Vilela), onde edificaram outro templo, aproveitando móveis, utensílios, o gradil e os vitrais do templo antigo. Ali foi posto o primeiro órgão de tubos de todo norte e nordeste do Brasil.

O último Capelão inglês (meu amigo, discipulador, assessor da ABU, professor dos Seminários Congregacional, Batista e Presbiteriano), o inglês Dionísio (Dennis George) Pape era, na realidade, um Batista, feito Ministro Leigo para oficiar orações matutinas e funções pastorais não-sacramentais, pelo Bispo Sherrill. Foi o Rev. Pape quem me deu o meu Primeiro LOC (Livro de Oração Comum), edição de 1930, da então Igreja Episcopal Brasileira, que uso e conservo com carinho até hoje.

As Capelanias Britânicas eram fechadas, atendendo apenas os estrangeiros, e não tinham nenhuma motivação missionária junto aos brasileiros (“Eles já têm a religião deles...”). Diziam, criticamente, os integrantes do protestantismo de missões (que tem início, em1855, com os congregacionais): “Os ingleses deixam na Inglaterra o seu capote (sobretudo) e a sua Bíblia”. A Capelania do Recife atendia os ingleses de todo o Nordeste, realizando, ocasionalmente, cultos em outras cidades. Um número reduzido de brasileiros se tornou anglicano por casamento, ou por terem conhecido a nossa igreja em visitas de estudo ou de trabalho à Inglaterra. Por outro lado, é inegável que os ingleses deixaram inestimável contribuição cultural e tecnológica para o nosso País, e fixaram a imagem do Anglicanismo como um ramo histórico, reformado e respeitável da Igreja de Jesus Cristo (altas autoridades da Corte Imperial estiveram presentes à inauguração do templo do Rio de Janeiro, protegido pela Polícia, ante a ameaça de apedrejamento de parte de um quitandeiro português...).

Com o fim do Império Britânico e a nova hegemonia dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial (anos 1940 e 1950) quando tivemos lutando, também, um contingente de anglo-pernambucanos a maioria dos ingleses aqui residentes foram voltando para a Grã-Bretanha, outros foram morrendo ou estavam demasiado idosos, outros se tornaram Católicos Romanos por casamento, ou se secularizaram, iniciando o declínio das Capelanias.

A Igreja Episcopal Brasileira, nos anos 1960, estava marchando para ser uma Província Autônoma da Comunhão Anglicana, e inicia gestões diplomáticas para integrá-las, bem como as Capelanias Japonesas (São Paulo e Paraná) à nascente Província. Esse trabalho foi feito por Dom Edmund Knox Sherrill, Bispo da Diocese do Brasil Central, com sede no Rio de Janeiro, e com jurisdição do Paraná à Amazônia. Progressivamente, todas as Capelanias foram mudando de jurisdição, e se integrando à Província brasileira, com exceção (até os nossos dias) da Christ Church (Rua Real Grandeza, Botafogo) no Rio de Janeiro.

Uma assembléia paroquial da Capelania do Recife, Holy Trinity Church, decidiu por essa filiação, enviando como delegada ao Concílio da Diocese do Brasil Central a Sra. Conti. A IEB ficava com o compromisso de assistir os súditos de Sua Majestade, residentes ou de passagem, em suas necessidades religiosas. Cultos em Inglês (por fim apenas uma vez por mês) aconteciam até o início da década de 1990, bem como o Culto Memorial, no dia de Finados, celebrado no Cemitério dos Ingleses. Nesse período de transição serviram no Recife dois norte-americanos: os reverendos John Said (depois Bispo Sufragâneo em Miami) e Phillip Getchell, até 1975 (que inicia a evangelização de crianças pobres da comunidade de Brasilit apanhadoras de bola de Golfe no Clube Caxangá, realizando estudos bíblicos informais embaixo das árvores).

O trabalho de evangelização para brasileiros, em língua portuguesa, tem como pioneiro, em 1966, ο Rev. Alfredo Rocha da Fonseca Filho, pernambucano de origem presbiteriana, formado no Seminário de Porto Alegre. Embora membro da Igreja Luterana (IELB) acolitei o seu primeiro culto e o culto da primeira visitação episcopal. Simpático, dinâmico, comunicativo, o Rev. Alfredo divulgou o Anglicanismo em nossa sociedade, fez amizades na imprensa, realizou o primeiro ato ecumênico, de Páscoa, no Country Club (que tinha os clérigos anglicanos como sócio-honorários), com o Padre da Matriz do Espinheiro e o Pastor da Igreja Presbiteriana da Encruzilhada, promoveu Conferências e Concertos de órgão de tubo (aqui trazendo o grande orador e músico Rev. José Del Nero). Nessa época havia dois cultos dominicais: um em inglês e um em português. Um grupo expressivo pioneiro de confirmandos brasileiros foi deixado pelo Rev. Alfredo, que teve de fugir do Recife perseguido pela ditadura militar, por dar assistência pastoral aos presos políticos da Casa de Detenção. Foi substituído pelo Diácono Rev. Paulo Medeiros (1968-1969), carioca de origem Batista, que deixou o ministério e se tornou conhecido psicanalista no Recife.


Resgatando Nossa História (II)

Diocese do Recife: 30 Anos

II – O PERÍODO SHERRILL (1976-1985)

Em março de 1975 é designado como Pároco o Rev. Paulo Ruiz Garcia, paulista de origem presbiteriana. Em 20 de maio de 1976 encerra-se, definitivamente, o Ciclo da Capelania Britânica, com a criação, pelo Sínodo Geral da agora Igreja Episcopal do Brasil, da Diocese Setentrional, com sede no Recife, desmembrada da Diocese Central, com jurisdição sobre todo o Norte e o Nordeste, sendo designado Bispo o Revmo. Dom Edmund Knox Sherrill, norte-americano, que passaria a aqui residir em 1977, até janeiro de 1986 (continua).

O Primeiro Bispo da nossa Diocese, então denominada de Diocese Setentrional – com jurisdição sobre todos os Estados das regiões Norte e Nordeste – foi Revmo. Dom Edmund Knox Sherrill, missionário norte-americano, e ex-Bispo da Diocese Central (Rio de Janeiro).

Seu pai, o Revmo. Henry Knox Sherrill, foi Bispo Diocesano de Massachussets (Boston), Primaz da então Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América (PCUSA), primeiro Presidente do Conselho Nacional de Igrejas dos EUA, e Capelão-Chefe das Forças Armadas daquele país na Segunda Guerra Mundial. O jovem Edmund formara-se em História pela prestigiosa Universidade de Yale e, servindo nos campos de batalha na Europa, sentiu o chamado para o ministério (como o fizera o seu irmão), cursou o Seminário, foi ordenado Diácono e Presbítero, e se apresentou à Junta de Missões Estrangeiras, vindo a servir no Brasil.

Dom Sherrill era um cavalheiro, de modos gentis e personalidade firme, ampla cultura, pastor, amigo, demonstrando evidentes sinais de carismas para o Episcopado. Politicamente, uma pessoa de esquerda, apoiou a União Cristã dos Estudantes do Brasil (UCEB) e foi um dos oradores da famosa “Conferência do Nordeste”, promovida no Recife, em 1962, pela Confederação Evangélica do Brasil, e que reuniu intelectuais cristãos e seculares (Gilberto Freyre, Celso Furtado, Paul Singer e outros), sob o tema: “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”, teve que usar o peso do seu nome para soltar dos órgãos de repressão do regime militar o jovem Rev. Almir dos Santos (depois Bispo de Brasília), de um episódio do qual também participara, e por pouco deixara de ser preso o jovem Paulo Ruiz Garcia (a época também de esquerda...). Teologicamente – como grande parte de sua geração era, por um lado, não um evangelical, mas um neo-ortodoxo, por outro, em sua simplicidade, um adepto da despojada liturgia da “Igreja Baixa” no Anglicanismo. Sua convivência no Brasil o foi aproximando do Evangelicalismo, chegando a ser um dos co-presidentes da Cruzada Billy Graham Grande Rio, teve uma experiência pessoal carismática, o que o levou à glossolalia (falar em línguas) e a, com discrição, exercer o dom de cura, por imposição de mãos. Foi um Sherrill já maduro, com larga experiência e visão missionária, que propôs à Província a criação da Diocese Setentrional, com a decisão de, ele próprio, se mudar do Rio de Janeiro para o Recife.

O novo projeto diocesano, por iniciativa do Bispo Sherrill, teria, desde o início, o apoio da missão inglesa SAMS, e a presença de um clérigo nacional com dons evangelísticos: o Rev. Paulo Garcia, ex-empresário (indústria e agricultura) não bem sucedido nos negócios, que fora expulso (juntamente com toda a sua turma) do Seminário Presbiteriano de Campinas-SP; estudara, depois no Seminário da Igreja Presbiteriana Independente e, por fim, no Seminário da Igreja Episcopal do Brasil (na época um internato em São Paulo, quando compôs a música paródia: “Todos Mortos com o LOC na Mão”), vindo ali a se filiar ao Anglicanismo. O Bispo Sherrill resolveu nele investir, ordenando-o Diácono e Presbítero, designando-o para servir em algumas comunidades em São Paulo e no Rio de Janeiro, cursar Filosofia e Direito (em escolas periféricas), e enviá-lo para estudar no Instituto de Bossey, na Suíça, do Conselho Mundial de Igrejas, e junto a SAMS, na Inglaterra, como preparação para servir no Nordeste, a partir de março de 1975, totalmente sustentado pela Igreja, vivendo na casa pastoral, em estilo de vida forçosamente simples.

O mesmo também de posição teológica neo-ortodoxa – bom orador, envolvente e competente em relações públicas, começa o seu trabalho com os Confirmados remanescentes do ministério do Rev. Alfredo Rocha da Fonseca Filho, agregando, na fase inicial, membros insatisfeitos de igrejas evangélicas, vestindo para os cultos o robe genebrino preto (usado por presbiterianos, metodistas e congregacionais em alguns países), aproximando-se das lideranças protestantes, usando traduções dos roteiros litúrgicos da Igreja de John Stott, tendo o Hinário Evangélico como fonte de canto, acompanhado pelo órgão de tubo, e, posteriormente, por um coral clássico, com classes de Escola Bíblica Dominical para todas as idades, e Eucaristia apenas um domingo por mês. Publicamente desfazia do Livro de Oração Comum, mas o usava, discretamente, como fonte para suas “belíssimas” orações públicas. Enquanto isso, o Bispo continuou a viver no Rio de Janeiro em 1975 e 1976. O chamado “Período Protestante” da Paróquia da SS. Trindade prosseguiu até 1978. Ouvi, em 1976, do Pároco, duas “pérolas” eclesiológicas: “Esse ministério é uma maravilha: eu aqui e o Bispo no Rio de Janeiro...”, e “Essa Igreja Episcopal é uma maravilha; o único problema são os Bispos...”.

A Diocese Setentrional foi criada pelo Sínodo Geral da Igreja Episcopal do Brasil em 20 de Maio de 1976, e o Bispo Sherrill se mudou para o Recife apenas no início do ano seguinte, 1977, passando a residir na Av. Rosa e Silva, no Espinheiro. A Diocese, em seu início, era composta por apenas três Paróquias: Santa Maria (Rev. Anselmo Stein), Belém-PA, onde a IEAB contava com a prestigiosa “Escola John Kennedy”; SS. Trindade (Rev. Paulo Garcia), Recife-PE e Bom Pastor (Rev. Stuart Broghton), Salvador-BA.

Com o seu prestígio familiar e pessoal nos EUA, o Bispo não teve maiores dificuldades em levantar ofertas financeiras de amigos, parentes e instituições, e sua visão missionária o levou, rapidamente, a abrir novos Pontos Missionários, alguns com projetos sociais, e que, viriam a se transformar em Missões ou Paróquias: São Lucas, em Nova Marambaia-PA; Ressurreição, em João Pessoa-PB; Ο Salvador, em Itaparica-BA; Bom Samaritano, em Boa Viagem e Redentor, na Várzea, ambos no Recife-PE; e Emanuel, em Olinda-PE. Os trabalhos na Ilha de Itaparica e na Várzea tiveram uma forte ênfase social: educação, saúde, mobilização comunitária etc. Infelizmente um jovem missionário oriundo de uma denominação pentecostal, e de mínima formação anglicana, levou consigo a maioria do povo e das propriedades de Itaparica, chocando e entristecendo o bondoso Bispo, que queria avançar, mas que contava com reduzido número de líderes treinados e disponíveis na novel Diocese.


Resgatando Nossa História (III)

Diocese do Recife: 30 Anos

III – O PERÍODO CLÓVIS (1986-1997)

Para a formação de clérigos e líderes leigos, o Bispo Sherrill criou o NAET – Núcleo de Estudos Anglicanos, que funcionava, em fins-de-semana, na antiga casa pastoral da SS. Trindade, transformada em Escritório Diocesano e Paroquial, onde estudaram três dos seus ordinandos, os futuros reverendos: lan Meldrum, Robinson Cavalcanti e Antônio Carlos (da Bahia), complementando suas formações em Anglicanismos. Os outros Ministros Ordenados durante o período Sherrill foram: Josephino Lobato, de Belém-PA e um fazendeiro japonês, Ministro local, para servir à colônia nipônica de plantadores de pimenta. Posteriormente o Bispo organizou dois núcleos de jovens vocacionados ao ministério: os mais “renovados” sob a sua direção espiritual, e os mais “tradicionais” sob a direção do já Rev. Robinson Cavalcanti. Deixou o Bispo, ao final, já preparado o processo do Postulante e depois Rev. Washington Franco. Durante o seu Episcopado recebemos a visita do Bispo-Presidente da ECUSA, Revmo. Edmond Browning.

O Bispo Sherrill viajava ao exterior e para a sede provincial, em Porto Alegre, dava assistência aos novos Pontos Missionários e aos projetos sociais, recebia pastoralmente os fiéis em seu gabinete, mas se envolvia cada vez menos com a Paróquia da SS. Trindade (onde dirigia um culto de oração às quartas-feiras e os ofícios de Semana Santa, com reduzida freqüência, período quando o Pároco tirava para descansar...), deixando o seu dirigente cada vez mais “solto”. Este, nos primeiros anos no Recife, continuava politicamente de esquerda, recebendo o título de “Cidadão do Recife” por iniciativa dos “autênticos” do MDB, e apoiando abertamente a candidatura de Marcos Freire (contra Roberto Magalhães) para Governador do Estado de Pernambuco, sendo, ainda, o Capelão da Convenção partidária, e levando o candidato a um culto nas vésperas das eleições.

Em 1978 e 1979 aquela Paróquia substitui seu “Período Protestante” (tradicional) por seu “Período Carismático”, tendo as alunas do Seminário Betel Brasileiro, de João Pessoa-PB, como professoras da Escola Dominical, o convite como preletores de figuras como o Pastor Enéas Tognini, o Pastor Reuel Feitosa e a missionária e ex-atriz Darlene Glória, o intercâmbio com igrejas “renovadas”, е com o primeiro núcleo da Renovação Carismática no Recife, na Paróquia do Cajueiro, dirigido por freiras. Uma profecia sobre “um belo vaso de barro feito por mãos humanas, que precisa ser quebrado para que eu refaça”, emitida em uma reunião para pastores no Seminário Betel, começou a arrefecer o entusiasmo do Pároco com essa corrente do Cristianismo.

A partir de 1979, a Paróquia da SS. Trindade inicia a sua terceira fase, diferente das duas anteriores, que poderíamos denominar de “Período Casalístico”. Um grupo de casais o Pároco à frente - fez o Encontro de Casais com Cristo (ECC) na Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras (da IPU), em São Paulo. Ao regressar, pleno de entusiasmo, exclama o Pároco a seguinte expressão teológica: “Achei uma mina!”. Todos os demais ministérios foram abandonados, e, por um longo período, tinha-se ECC a cada dois meses, com os adolescentes e jovens, os pobres e os solteiros se sentindo abandonados, alguns deixando a Paróquia. Frase de um membro da Junta Paroquial e líder do ECC: “Não vamos hostilizar pobres, solteiros, viúvos ou divorciados, mas a opção desta Paróquia é pelos casais de classe média, e todos os cargos serão ocupados por eles!”. Deslocava-se a fé no Cristo para a fé no método, tido como inquestionável e infalível.

O Bispo Sherrill estava cansado de um longo episcopado (Rio de Janeiro e Recife) de imensas Dioceses, e não teve a paciência em esperar por transformar a Diocese Setentrional de Diocese Missionária (sem autonomia) em Diocese Plena (com autonomia para escolher o seu Bispo), resolvendo se aposentar. Na época ele exercia as funções de Primaz Interino (com o falecimento do Primaz Dom Arthur Rodolpho Kratz). Como uma figura respeitada, exercendo uma função importante, com a “fama” de evangelista bem sucedido do seu pupilo, não fez uma articulação na Câmara dos Bispos, nem apresentou nomes alternativos, mas apenas a do Rev. Paulo Garcia, deixando o plenário do Sínodo Geral da IEAB em uma situação plebiscitária. O candidato era reconhecido pelo seu carisma de evangelista, mas não de Bispo e carecia de uma postura humilde, além do fato de que a corrente liberal-católica estava consolidando a sua hegemonia sobre a Província. O resultado foi a surpreendente derrota do Rev. Paulo Garcia, sendo eleito Bispo Coadjutor da nossa Diocese o então Deão da Catedral de Santa Maria-RS (e que não conhecia o Nordeste nem como turista) o Revmo. Clóvis Erly Rodrigues. Tive que dirigir o culto e dar a notícia do resultado a uma congregação em comoção. Tive, por determinação do Bispo Sherrill, juntamente com a irmã Dalila, da Paróquia Anglicana do Bom Samaritano, de me deslocar para a cerimônia de Sagração na Catedral de Porto Alegre (não havia qualquer clima para que a mesma se desse aqui) e saudar o consagrado na festa que se seguiu no Teresópolis Tênis Clube.

Durante o ano de 1985 o Bispo Sherrill trabalhou ao lado do seu Coadjutor, o Bispo Clóvis, que imediatamente assumiu a supervisão dos seminaristas (dissolveu os antigos dois grupos, juntando a todos sob a sua direção), e, progressivamente outros encargos, sem as boas vindas da maioria dos fiéis, ressentida pelo mesmo nos ter sido imposto pelo Sínodo. No início de 1986 ο Bispo Sherrill renuncia, se aposenta e muda sua residência de volta ao Rio de Janeiro, amado por sua ex-Diocese, que, por outro lado, ficava tensa, “em temor e tremor” quanto ao seu futuro. (continua).

O segundo Bispo da Diocese do Recife foi o Revmo. Dom Clóvis Erly Rodrigues, gaúcho, ex-missionário em Moçambique, na África, ex-Deão da Catedral de Santa Maria-RS e professor de Ensino Médio, um liberal-católico, dentro da tipologia anglicana, e admirador da Teologia da Libertação. Em virtude de ser, àquela época, a nossa Diocese canonicamente “missionária” (isto é, não autônoma, por não ter alcançado o número mínimo de Presbíteros ativos e de Paróquias), ele foi eleito pelo Sínodo Geral da IEAB, mesmo não conhecendo a região, nem sendo por ela conhecido. De certa forma, conforme carta-denúncia de um grupo de seminaristas à Província, na verdade ele era um “Interventor”, que veio com uma missão dada pela cúpula liberal-católica da Província, de “corrigir” a nossa Diocese das influências evangélicas e carismáticas, e “enquadrá-la” nos parâmetros teológicos e litúrgicos daquela tendência. O primeiro ano (1985) aqui passou como Coadjutor do Bispo Sherrill, assumindo o status de Bispo Diocesano no início de 1986, profundamente isolado por um clero e um laicato, em sua maioria, ferido, desconfiado e hostil.

Em seu primeiro Concílio Diocesano, realizado na Paróquia do Bom Pastor, em Salvador-BA, houve um movimento articulado para pedir, pacificamente, a sua renúncia e retorno ao sul, para que se procedesse à escolha de novo Bispo de consenso para a nossa Diocese Setentrional. O movimento foi desarticulado graças à ação de um Bispo do Sul ali presente como observador, que, nas caladas da noite, reuniu filiados a uma entidade iniciática e uma loja (não exatamente de ferragem..), inclusive delegados “de confiança” do Rev. Paulo Garcia, que, no dia seguinte, adentravam o recinto distribuindo flores, ofertando um ramalhete à esposa do Bispo, e fazendo ardorosos pronunciamentos de apoio ao mesmo...

O Bispo Clóvis era uma pessoa fechada, desconfiada e irônica, que afirmara: “Não gosto de evangélicos e detesto carismáticos”. Viajava para fora da Diocese o máximo que podia, aqui vivia isolado no Escritório Diocesano, cuidando dos papéis, e tentando sempre cooptar – por persuasão, pressão ou ameaça velada – os jovens seminaristas: uma minoria aderiu, uma minoria resistiu, e a maioria ou deixou a Igreja ou deixou a vocação. Assumiu, interinamente, como bispo-pároco a então denominada Pró-Catedral do Bom Samaritano, e, em um ano, a membresia tinha sido reduzida de 150 para 30 membros. Estava sempre aberto para acolher egressos da Igreja Romana e procurava obstacular o ingresso de egressos de Igrejas Protestantes. Seu ecumenismo era extremamente unilateral, apenas com os setores romanos ou protestantes liberais ou da teologia da libertação. Deu novo conteúdo às matérias do NAET, em um cabo-de-guerra permanente entre a maioria evangélica e carismática de alunos e a maioria liberal ou da teologia da libertação dos professores. O NAET, que, até então, ministrava apenas as disciplinas anglicanas para os alunos que cursavam Teologia em Seminários de outras denominações, foi elevado ao status de Seminário Diocesano, com Curso de Bacharelado pleno. Os alunos de Belém-PA e de Salvador-BA deveriam cursar Seminários ecumênicos liberais daquelas localidades. Quem fosse amigo dos reverendos Paulo Garcia ou Robinson Cavalcanti eram – juntamente com eles – marginalizados.

Foram ordenados, durante o seu período os seguintes reverendos: Washington Franco e Siméa Meldrum (os únicos dos seus Presbíteros que continuam conosco), Maurício Andrade (Bispo de Brasília), Sebastião Gameleira (Bispo de Pelotas), Alberto Blandon (no Canadá), Francisco de Assis (em Novo Hamburgo-RS, Diocese Meridional), Raimundo Nonato (em Belém-PA, Distrito Missionário da Amazônia), Alberto Pires (em São Luís-MA, vínculo eclesiástico desconhecido), Evanilza Loureiro (licenciada na dissidência local pró-IEAB), e, apenas ao Diaconato: Luiz Souza de França (Arcediago e Deão da Con-Catedral Anglicana da Ressurreição, João Pessoa-PB), Abimael Rodrigues (em Livramento-RS, Diocese Sul-Ocidental) e Josafá Batista (aposentado em Salvador-BA, na dissidência local pró-IEAB).

A Diocese Setentrional teve o seu nome mudado pelo nosso Concílio Diocesano, e homologado pelo Sínodo Geral da Província, para Diocese Anglicana do Recife.

Apesar de que a filosofia do Bispo fosse sempre a de afirmar que a linha liberal-católica era “o verdadeiro Anglicanismo”, e de que “prefiro que não haja novas Paróquias, a tê-las não do meu jeito”, a resistência e o trabalho missionário dos evangélicos fizeram a Diocese crescer e adquirir status de Diocese Autônoma. É verdade que alguns Pontos Missionários foram iniciados por clérigos evangélicos, e, posteriormente, esvaziados e fechados pelas ações do Bispo, como os de Caruaru (iniciado pelo Rev. Robinson Cavalcanti), Fortaleza (iniciado pelo Rev. Washington Franco) e Maceió (iniciado pela Revda. Evanilza Loureiro). Além da ascensão de antigos Pontos Missionários fundados pelo Bispo Sherrill ao status de Missão ou Paróquia, foram criados, durante o “Período Clóvis” as seguintes novas frentes missionárias: Semeador, em Jardim Brasil, Olinda-PE (filha da Paróquia Emanuel); São Paulo, no Alto do Eucalipto, Recife-PE; Amor Cristão (depois Filadélfia), em Maceió-AL e Reconciliação, em Caruaru-PE (filhas da Paróquia da SS. Trindade).

O “Período Clóvis” foi marcado por um constante clima de tensão, isolamento entre o clero (dois clérigos conversando já era tido como conspiração), os Concílios momentos sempre desagradáveis, prazos canônicos foram ilegalmente reduzidos em favor de quem ele simpatizava e flagrantemente dilatados (como aconteceu, por anos, com o então Candidato Miguel Uchoa) com os que ele não simpatizava ou discordava. Pode-se dizer que, nessa longa e interminável década, a Diocese sobreviveu, apesar do Bispo.

Por outro lado, o Rev. Paulo Garcia funcionava como líder de uma oposição sistemática e implacável. O Bispo era mantido à distância, e não consultado sobre nada, fortemente hostilizado, e somente convidado para realizar o Rito de Confirmação. Era uma figura desconhecida em sua Diocese. Certa feita, convidado para proferir devocional em um Cursilho, foi barrado pelo pessoal do trânsito. Ao que reagiu com justa indignação: “Eu sou o Bispo!”, no que foi contestado pelo chefe do trânsito: “E Eu sou o Papa!”. Na verdade, a Paróquia da SS. Trindade hospedava um “governo-paralelo”, ao ponto de se afirmar que tínhamos dois Bispos: um de Direito (Clóvis) e um de fato (Paulo). A essa altura a Paróquia da SS. Trindade tinha substituído o seu “casalismo hard” ( só ECC), por um “casalismo soft” (com a implantação, posterior, de Encontros de Crianças, Adolescentes e Jovens e os Cursilhos de Cristandade, Masculino e Feminino). Os não-casais eram atendidos (como cidadãos de segunda classe), porém os cargos continuavam privativos de casais. A opção pela classe média e média alta era expressamente assumida, e, no lugar das (minoritárias) conversões, passava a valer as numerosas e superficiais adesões.

O Bispo Clóvis é chamado para realizar a Confirmação de uma multidão de “aderentes” na SS. Trindade (que não promovia cursos de preparação, mas apenas, opcionalmente, uma palestra vaga). No dia seguinte, em um salão de beleza, alguém pergunta a uma senhora que havia sido confirmada na noite anterior: “E, aí, fulana, como foi o culto da sua igreja ontem?”. Ao que a mesma respondeu: “Foi muito bonito. O pastor chamou a gente para ir à frente e um pastor baixinho e careca, que eu não conheço, orou com a mão na minha cabeça. Eu acho que ele estava me abençoando...".

Sob o pretexto – justificável – de combater os erros e excessos do Episcopado Clóvis, ο Rev. Paulo Garcia, sutilmente, ia criando, de fato, uma animosidade contra a instituição do Episcopado em si. Sua conhecida frase: “Não sou contra o Episcopado, mas contra esse Bispo!” foi repetida no Episcopado posterior, e, se o mesmo fosse sincero diria: “Sou a favor do Episcopado, desde que eu seja o Bispo!”.

Ao contrário do Bispo Edir Macedo, que agiu com ética com a sua antiga denominação, a Igreja Pentecostal de Nova Vida, com quem tinha discordâncias, saindo em paz, e fundando, sob a influência da Teologia da Prosperidade, outra denominação, a Igreja Universal do Reino de Deus, o Rev. Paulo Garcia “ficou” (entrismo) na IEAB e promoveu dois fatos extremamente graves:

  1. Sob a capa da instituição e da nomenclatura, criou, de fato, uma nova instituição, uma Igreja Pós-Denominacional, centrada na fidelidade à sua liderança carismática (no sentido sociológico e não teológico), no vínculo sócio-afetivo com a Paróquia e no envolvimento com os movimentos de evangelização, tipo ECC e Cursilho, sem qualquer conhecimento da História, da Doutrina e do Governo do Anglicanismo (confundindo Arcebispo de Cantuária com Vinho de Catuaba...), e superficial conhecimento bíblico, pan-cristão e pan-protestante. Um original Episcopalismo sem Bispo (ou o Pároco usurpando o seu papel), um Anglicanismo sem Cânones e sem Livro de Oração Comum (LOC). Isso possibilitaria, se necessário, levar esses “mui fiéis” para onde quisesse;

  2. Havendo a Igreja Cristã, ao longo dos séculos, criado as

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