RESPOSTA DO CLERO EVANGÉLICO DO RIO DE JANEIRO À PASTORAL DO ARCEBISPO DE MARIANA

Versão Integral em Texto

RESPOSTA DO CLERO EVANGÉLICO DO RIO DE JANEIRO À PASTORAL DO ARCEBISPO DE MARIANA

Salomão Ferraz1922

Este documento foi produzido pelo Venerável Salomão Ferraz, no ano 1922, em resposta a um documento de um Prelado da Igreja Católica Apostólica Romana e constitui uma fonte importante do período pré-romano. Dom Felismar Manoel - Bispo Primaz - Catolicismo Evangélico Salomonita.

RESPOSTA DO CLERO EVANGÉLICO DO RIO DE JANEIRO À PASTORAL DO ARCEBISPO DE MARIANA.

Divulgada por todo o pais, mediante processos vários, a Pastoral do Sr. Arcebispo de Mariana já recebeu de conhecidos jornalistas, na imprensa secular, a merecida apreciação. Nessa peça, em que mal se encobre o despeito sob a capa de um zelo nacionalista, encontram-se apenas afirmações, afirmações gratuitas, temerárias, sem nenhuma prova, sem nenhuma demonstração, sem nenhuma base, a não ser a palavra, porventura infalível, do seu venerando autor! Asseverou o Sr. Arcebispo, ex-cathedra, com o peso da sua autoridade, e ficou tudo demonstrado, provado, evidenciado, claro como a luz do dia! Roma locuta, causa finita!

Será isso talvez o suficiente para uns poucos espíritos apaixonados, mas o mesmo não se dá com os demais que exigem irrevogavelmente, em matéria tão grave, provas bastantes, cabais, irrefragáveis, baseadas, não em suspeitas, não em suposições, mas em fatos concretos, em razões iniludíveis. Se um simples magistrado secular, a quem cabe dirimir questões muitas vezes de somenos importância, nunca lavra uma sentença desacompanhada de razões claras, alicerçadas em fatos reais, em documentos incontrastáveis; assim também a um Prelado, que pela sua posição devia ser seguro e mesurado nas suas assertivas, não fica bem de modo algum formular juízos tão ligeiros, tão comprometedores, e isto em documento público e formal, sem os firmar sobre a rocha de fatos substanciais, que não em meras criações da fantasia.

POSSIVEL ENGANO

Se o autor da Pastoral está contando com a docilidade fácil de um público irrefletido, medido pela bitola de uns poucos indivíduos inconscientes, que se prestam à queima de bíblias sem o menor exame, ao simples aceno de um sacerdote alucinado, é bem possível que se engane. Porque parece que um respeitável número dos que leram a Pastoral, e que responderam com calma os seus dizeres, foram também despertados a volver as vistas, com ânimo sereno, às razões e argumentos ao contrário. Há uma geral solicitude para computar os fatos, ponderar razões e chegar-se a uma conclusão satisfatória. E o resultado é que a verdade, pela sua própria força, vai-se impondo a muitos espíritos que, até ha bem pouco ainda, vacilavam ou mostravam-se inimigos à causa do evangelismo.

Essa fase mental doentia, decadente, em que simples magister dixit resolvia questões de grande monta, não é mais a regra, felizmente, em nossos dias, nem foi jamais o método de Cristo, nem o costume dos apóstolos. O próprio São Paulo, revestido, como se achava, de autoridade divina e apostólica, dotado de especial inspiração de poderes sobre-humanos, nunca julgou que a sua simples palavra havia de ser recebida sem argumentos, sem razões, sem discussões. É isto o que ele diz na sua segunda carta aos Coríntios: “Pois nada podemos contra a verdade, senão pela verdade”.

PERANTE O JUIZ SUPREMO

As palavras do Sr. Arcebispo hão de ser levadas à pedra de toque da verdade, à prova decisiva dos fatos em sua implacável realidade, a fim de serem julgadas pelo público. Espera o Sr. Arcebispo, como afirma, e sem muita delonga, comparecer perante o Juiz Supremo, a quem irá dar contas dos seus atos. Porém existe ainda um tribunal, em primeira instância, erigido dentro ainda da província humana, e perante o qual são os homens julgados, mesmo antes de levados à presença do Supremo; tribunal respeitável, temível, de que tremem os déspotas da terra, e do qual procuram evadir os corifeus da submissão sem condições, sem restrições, em nome de uma suposta autoridade divina indiscutível: é o tribunal da consciência pública esclarecida.

À barra deste tribunal é agora trazida, para julgamento, a Pastoral do Sr. Arcebispo de Mariana, comprometida pela ousadia inaudita dos seus conceitos. E se um homem há de ser julgado, com justiça, pela consistência ou falha das suas obras, não poderá o ilustre Prelado mineiro ficar estranho ao julgamento da sua Pastoral. Se dado lhe for, talvez salvar a sinceridade de suas intenções, não conseguirá todavia sair ileso do seu prestigio e no acatamento que deverá merecer do público a sua palavra de príncipe da Igreja.

TRAIÇÃO À PÁTRIA

Afirmou o Sr. Arcebispo, e sem disfarce, que a propaganda evangélica no Brasil obedeça a intuitos da política norte-americana, com o fim de se abrir caminho à final dominação estrangeira no país. E para que não pareça que exageramos ou torcemos as idéias do autor, vamos citar, na íntegra, alguns de seus parágrafos. São estas, textualmente, as suas palavras:

"Com uma perspicácia fina e sagaz conhecem eles que o meio mais eficaz para unir os homens, mais forte que a política, que a simpatia de raça, mais que o próprio parentesco de sangue, é o laço da religião. Daí vem esse afinco desesperado em quererem converter-nos a nós, brasileiros, para as seitas do norte, porque conseguindo unir-nos com eles em religião, está aberta a estrada para dominar-nos em política, no comercio e estabelecer no Brasil o imperialismo americano”.

“A esse fim comercial e imperialista se encaminham essas empresas, essas missões em que se gastam somas fabulosas, para negociar missionários, obter adeptos, construir igrejas e laçar alguns pobres ignorantes, iludidos com promessas ou comprados com dinheiro. A esse mesmo objetivo se referem as associações chamadas escolas, colégios, institutos de artes, agricultura, e outros. São todos meios industriosos para atrair os incautos ao protestantismo americano sem maior resistência. Se conseguirem esse desideratum, dão por bem empregadas as somas gastas nessa empresa comercial e política... proteger de alguma forma a doutrina protestante, é um crime contra a fé, é uma traição à nossa pátria”.

A IMPRENSA CARIOCA

Aos espíritos esclarecidos, emancipados, traquejados no trato dos homens e das coisas, inútil seria demonstrar a falsidade de tais proposições, porque já, de relance, claramente o perceberam. A alta imprensa carioca, com uma única exceção, não quis dar guarida, em suas colunas, ao celebre documento. E foi isso o bastante para que os interessados, num assomo de despeito, e sem mais avisos, tentassem denegrir com as mais nefandas suspeitas a reputação dos homens da imprensa: ou foram subornados pelo ouro estrangeiro, ou se deixaram intimidar por ameaças!

Mas a verdade, que salta aos olhos até dos menos atilados, é que se a imprensa negou-se a reproduzir a Pastoral, foi por considerá-la um trabalho eivado de paixão sectária e virulenta, em total discrepância com fatos conhecidos. O que fez a imprensa foi apenas velar pelo seu próprio decoro, não consentindo em fazer-se veiculo de histórias mal contadas.

HEREJES E IMORAIS

Aos evangélicos bem pouco se lhes dá de serem na Pastoral nomeados como hereges, qualificativo completamente inócuo em nossos dias. Mas quanto à pecha de imorais, que aí recebem os professores dos colégios e institutos de orientação evangélica, basta apenas notar que essas instituições não se acham veladas em mistérios, não se ocultam no interior de suspeitos muros claustrais, não adotam processos clandestinos. Portas escancaradas, tudo aí pode ser visto, examinado, desde as salas de recepções e aulas, através dos dormitórios e refeitórios, até a cozinha e os aparelhos sanitários. Tudo aí se faz à plena luz. O ensino ministrado em tais estabelecimento, é também da mesma natureza translúcido, sem sofismas, sem disfarces, sem processo de ilaquear a boa fé do público. O ensino religioso, baseado nos fatos da revelação cristã e na crença nesse poder divino que opera para o bem na alma humana, é igualmente simples, sem prolongados beatérios enervantes, mas de natureza tal que se recomenda ao espírito do público sensato.

Os professores de tais colégios, homens e mulheres assaz conhecidos, contam no seu número muitos pais e mães de família. Vinculados às sagradas responsabilidades do lar, não constituem nenhuma classe pretensiosa, ou afetada, ou misteriosa.

Os melhores juízes, nestas coisas que afetam os interesses morais e espirituais dos jovens, são os próprios pais conscienciosos. Os dois olhos que trazem na fronte, dados por Deus, não são para se deixarem vendar, a fim de se entregarem cegos, à direção arbitrária de outrem; e esse senso moral que possuem, e que não é mais do que a voz divina que lhes fala interiormente, é o guia mais seguro em meio das contradições humanas. É a mais alta autoridade, perante a qual deverão ser aferidas as injunções de quantos se inculcam para guiar o povo em nome do Senhor. É a última corte de apelação, pelo menos neste mundo, encarregada de examinar e rever as pretensões de sacerdotes, de escribas e fariseus, de bispos, arcebispos, patriarcas, papas ou quaisquer outros. "Pelos seus frutos – disse o Senhor Jesus – conhecereis”.

CRIME DE ALTA TRAIÇÃO

Voltemos, porém, ao ponto principal que neste momento nos ocupa: a afirmação grave, que fez o Sr. Arcebispo de Mariana, de que a obra evangélica no Brasil obedece a um fim clandestino, que é o de dispor o caminho à final dominação política dos norte-americanos. A obra evangélica, segundo a Pastoral, não é mais do que um pretexto, uma capa encobrindo fins interesseiros e subalternos e – o que é muito mais sério – fins criminosos de alta traição!

Será isso verdade?

Se essa imputação, ao ser joeirada, for demonstrada inverídica e caluniosa, como realmente é, recairá sobre o Sr. Arcebispo a humilhação de ser apontado publicamente como violador, em flagrante, daquele excelso preceito da lei divina, que assim reza: “Não dirás falso testemunho contra teu próximo”.

Passaremos, pois, a analisar a obra evangélica no Brasil em seus vários aspectos, conhecidos como a Associação Cristã de Moços, as Sociedades Bíblicas e as Sociedades Missionárias, a fim de averiguar em que ponto, em que brecha, em que fenda, em que interstício, porventura equivoco dessas instituições, poderia surgir algum motivo de suspeita, que desses visos sequer de plausibilidade às tremendas assertivas da Pastoral.

ASSOCIAÇÃO CRISTÃ DE MOÇOS

Um dos expoentes mais conspícuos da obra evangélica no Brasil é incontestavelmente a Associação Cristã de Moços, estabelecida a mais de um quarto de século, na cidade do Rio de Janeiro, e criada já também nos principais centros urbanos do país. A precedência que damos aqui a esta instituição, mencionando-a na frente das demais, é pelo simples motivo do seu maior destaque perante o público e as autoridades do país.

Terá a Associação Cristã de Moços no Brasil intuitos políticos ocultos de colocar o país sob a dominação dos norte-americanos?

A primeira coisa a notar é que a Associação Cristã de Moços é uma poderosa organização internacional que conta, em mais de cinqüenta países, um numero superior a dez mil e quinhentas instituições congêneres, com um total que excede a um milhão de associados. Teve sua origem na Inglaterra, onde foi fundada por George Williams, e desse país foi importada para os Estados Unidos, irradiando-se para todas as partes do mundo. A Aliança Universal das Associações Cristãs de Moços tem a sua sede na cidade de Genebra, na Suíça. O seu escopo, universalmente reconhecido e apreciado, é assegurar aos homens que trabalham nas grandes cidades, onde as solicitações para o mal são múltiplas e fortes, um centro de cultura espiritual, moral e física, um ambiente saudável, em que possam medrar as virtudes varonis e os sentimentos cristãos.

É isto o que a Associação Cristã de Moços vem realizando, com gerais aplausos, em todo o mundo, sem provocar, mesmo nos países pagãos e os mais incultos, a menor desconfiança de intuitos menos dignos dos seus alevantados fins. A insinuação maliciosa do Sr. Arcebispo de Mariana é uma dessas monstruosidades, de tal modo aberrante de toda a realidade, que não mereceria outra resposta senão o silencio, o descaso, o mais solene desprezo, se uma tal atitude não corresse o risco de ser interpretada, por espíritos menos informados, como indicio de fraqueza ou ausência de razões. E que o Sr. Arcebispo está completamente divorciado da verdade e resvala infelizmente pelo desfiladeiro lúgubre da fantasia malévola, é o que será demonstrado ainda mais claramente pelos fatos a seguir.

A ACM DURANTE A GUERRA

Ao tempo da grande guerra, quando entre todos os beligerantes o espírito de suspeita assumia proporções quase incríveis e os fuzilamentos se faziam, não raro, sumariamente, os obreiros da Associação Cristã de Moços, em grande número, uma hoste de abnegados, levados por objetivos superiores, penetravam em todos os acampamentos, aliados ou germânicos, e em toda a parte armavam as suas celebres barracas (huts), essas abençoadas agências do conforto material e espiritual aos soldados, e nunca apareceu quem levantasse contra eles a mínima suspeita de traidores ou perigosos à nação. Em toda a parte eram bem acolhidos pelos chefes de Estado, pelos generais, por comandantes e comandados, sem o mínimo vislumbre de suspeição!

É portanto um absurdo, um disparate de tal monta, que só um individuo com a sua razão obliterada poderia afirmar que os nobres trabalhos da Associação Cristã de Moços no Brasil obedecem a intuitos políticos inconfessáveis!

A ACM NA REPUBLICA DO MÉXICO

Se a Associação Cristã de Moços representasse algum perigo norte-americano, deveria ser o México o primeiro país a dar o rebate, porque as questões políticas entre os dois países, devido à vizinhança, têm sido por vezes melindrosas. E no entanto é o próprio Governo do México quem subscreve a importância 7.000 pesos a favor dessa instituição, a fim de significar, de um modo positivo, o seu franco apoio à obra benfazeja da Associação Cristã de Moços naquele país!

Escrevendo ao Dr. Mott, poucos meses faz, a propósito da Associação Cristã de Moços, o novo Presidente do México, General Álvaro Obregon, cujo Governo nem foi ainda reconhecido pelos Estados Unidos, exprime-se nestes termos: “Profundamente me impressionam os objetivos almejados pela Associação Cristã de Moços neste país, especialmente os projetos que é seu ardente propósito efetivar nesta República. Depois de uma carta do Sr. J. M. Clinton, seguida de uma longa conversação que com ele entretive, é com prazer que dou a minha opinião de que tenho achado recomendáveis os propósitos da Associação Cristã de Moços, de modo que o Governo, do qual tenho a subida honra de ser Presidente, prestará todo o apoio, franco, decidido, para a sua realização, consoante o seu hábito de dar mão forte a todas as instituições que, como a ACM, têm inscrito no seu programa, como alvo primordial, o desenvolvimento da civilização em todas as suas manifestações, e isto com absoluto respeito às leis da República.”

A ACM EM VÁRIOS PAISES

Recentemente, em virtude das experiências satisfatórias, os Governos da França, da Itália, Sérvia Armênia, República do Hedjaz, a Romênia e até da própria Rússia bolchevista, formularam pedidos à Comissão Internacional, com sede em Genebra, para estabelecer tais organizações nos seus respectivos territórios.

RUY BARBOSA

A Associação Cristã de Moços tem-se imposto, no Brasil, aos espíritos mais cultos, aos cidadãos de maior destaque e responsabilidade nas coisas públicas, a homens de patriotismo a toda a prova. Entre os muitos que facilmente poderíamos citar, destacamos um cuja palavra, no país e no estrangeiro, é recebida com o mais profundo acatamento. Ruy Barbosa, concorrendo de boa vontade para a grande subscrição, que foi um verdadeiro sucesso, assim se manifesta em carta endereçada ao saudoso Dr. Francisco de Castro Junior:

"Rio, 19 de outubro de 1917. Meu caro Francisco de Castro. Aí vai, em um cheque de um conto de réis, a minha modesta contribuição para a Associação Cristã de Moços. Só o que sinto, é, em vez de um só, não lhe poder dar todos os quatrocentos. – Ruy Barbosa.”

Testemunhos desta ordem dispensam comentários.

A ASSOCIAÇÃO CRISTÃ FEMININA

Fatos e documentos similares poderiam ser aduzidos, se necessários, em abono também de uma outra instituição congênere, estabelecida com grande aceitação no Rio de Janeiro, há pouco mais de um ano. É a Associação Cristã Feminina, com sua sede provisória no Largo da Carioca. O seu fim, os seus princípios, os seus processos são, para o elemento feminino, os mesmos que os da A.C.M. para os homens. Há centenas de senhoras e senhorinhas, de todas as classes sociais e profissões e também muitos pais de família, que bendizem a hora em que uma organização tal foi iniciada. Insistentes pedidos têm vindo, de outras grandes cidades, para ser nelas também fundada a mesma Associação.


Porém sobre este aspecto da obra evangélica não mais nos deteremos. Ninguém, com a mais rudimentar dose de senso, poderá por em dúvida, mesmo ao de leve, os elevados intuitos de tais associações disseminadas pelo mundo.

As insinuações do Sr. Arcebispo são, pois, à vista de provas tão patentes, simplesmente pueris, são irrisórias, tal a discrepância em que se encontram com os fatos universalmente conhecidos, e reconhecidos pelo próprio Governo Brasileiro, que não tem regateado o seu apoio à obra benemérita, altruística e altamente patriótica da Associação Cristã de Moços!

AS SOCIEDADES BÍBLICAS

Outro grande ramo das atividades evangélicas, no país, são as chamadas Sociedades Bíblicas. Como as Associações Cristãs de Moços, e com o mesmo espírito de altruísmo, são grandiosas empresas, promovidas pelas almas cristãs generosas que compreendem o valor incomparável do melhor dos livros, a Bíblia, para o levantamento moral e espiritual dos homens. As suas agências no Brasil, são apenas pequeninos ramos dessa árvore gigantesca, dessa fronde abençoada que estende a sombra salutar sobre os povos todos da terra. A mais antiga dentre elas é a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, com a sua agência no Rio de Janeiro à Rua da Assembléia, 51. Foi fundada em Londres, no ano de 1804, com o concurso de cerca de trezentas pessoas, representantes das diversas corporações evangélicas, sendo imediatamente subscrito um fundo inicial de 700 libras. Sustentada por cristãos de todas as nacionalidades, tem por escopo fazer a distribuição universal das Santas Escrituras em todas as línguas e dialetos do mundo, ao alcance dos mais pobres dentre os homens. Grandiosa, interessante e sobre modo inspiradora é a história dos magníficos conseguimentos dessa empresa internacional com a sua sede em Londres.

Doze anos mais tarde, a 8 de maio de 1816, em Nova York, teve assento uma reunião presidida pelo Sr. Joshua M. Wallace, e dessa reunião, que se fez notável, resultou a organização universalmente conhecida como a Sociedade Bíblica Americana, que possui as suas agências em toda a parte do mundo, assim como também no Rio de Janeiro, à Rua da Quitanda, 49.

Relatar a magnitude dos esforços, e os gigantescos cometimentos levados a cabo por estas Sociedades em todos os pontos do orbe – desde os gelos polares aos arredores equatoriais, entre a civilização avançada da Europa e os milhões da China, do Japão, da Índia, entre os requeimados filhos da África e os selvagens das ilhas remotas do Pacífico, assim como os povos florescentes que habitam o Novo Mundo – é produzir uma das mais grandiosas epopéias dos tempos modernos. É o avanço triunfal do livro por excelência!

O BISPO DE RIBEIRÃO PRETO

É esse mesmo livro que, em Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, o Sr.Bispo Monsenhor D. Alberto Gonçalves da ordens para ser lançado às chamas, a pretexto de serem falsas as bíblias espalhadas pelas referidas Sociedades. Se são falsas, porque não colocar nas mãos do povo as verdadeiras? A moeda falsa há de ser reconhecida em confronto com a genuína. Mas o Sr. Bispo foge de um tal confronto, e parece temer as arguições do livro, mesmo das edições católicas romanas que trazem a mais, no Antigo Testamento, os livros que têm o nome comum de apócrifos, e por isso manda reduzir sumariamente a cinzas, o importuno volume!

INTUITOS POLÍTICOS?

E agora muito naturalmente perguntamos: Que tem que ver a obra das Sociedades Bíblicas com essa historia de intuitos políticos do povo norte-americano? Essas intenções só podem ter realidade na imaginação doentia e transviada de alguém supinamente ignorante ou transtornado nas suas faculdades pelos efeitos naturais de uma segunda infância. É por isso que nos contentamos apenas com o restabelecer a verdade dos fatos, em sua limpidez, na força da verdade que se impõe aos espíritos honestos. O maior castigo que se pode infligir aos levantadores de aleives, não é cobri-los de impropérios, mas o entregá-los, confundidos, ao juízo do público esclarecido.

O PRESIDENTE DA CHINA

Mas não nos sentimos com direito de passar adiante sem citar aqui, em conexão com a obra das Sociedades Bíblicas, as luminosas e inspiradoras palavras de um ilustre filho do Oriente extremo, um representante dessa raça conhecida ainda há poucos anos como estacionária, um oriental, um homem da raça amarela, com os seus olhos oblíquos e apertados, de bigode descaído, um chinês que afinal se mostra mais sensato e progressista do que o Sr. Bispo de Ribeirão Preto! Em mensagem telegráfica, endereçada à Sociedade Bíblica Americana, assim se exprime o Presidente da República Chinesa, o sr. Hsu Shi Tchang:

“A instrução concernente a toda a virtude, como contida nas Santas Escrituras da religião de Jesus, tem exercido entre todos os cristãos da China uma ilimitada influência para o bem e tem levantado igualmente o padrão de todo o meu povo em linhas de verdadeiro progresso. Nutro a ardente esperança de que os futuros benefícios, derivados das Santas Escrituras, se estenderão aos confins da terra e ultrapassarão os sucessos do passado”.

Estas nobres palavras, em confronto com a atitude desrespeitosa e profana do sr. Bispo de Ribeirão Preto, seriam de molde a trocar de molde à consciência do Prelado paulista e de quantos, por descuido ou preconceitos, não têm sabido valer-se do inestimável auxilio moral e espiritual das Santas Escrituras.

AS ASSOCIAÇÕES MISSIONARIAS

Eis-nos enfim ao ponto em que nos cumpre considerar, posto que sucintamente, as numerosas sociedades missionárias com as suas respectivas sedes em países como a Grã Bretanha, o Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Alemanha, Holanda e muitos outros. Os seus generosos esforços se irradiam, abençoados, por todas as partes, dentro da própria pátria e nos países estrangeiros, onde quer que as necessidades espirituais se pronunciem. São associações diversas e inteiramente estranhas a quaisquer interesses de ordem política ou comercial, como é universalmente conhecido. Colunas e colunas se encheriam com a simples nomenclatura dessas associações, de todos os matizes cristãos, inclusive as católicas romanas. Os seus templos, os seus colégios, seus hospitais, os seus dispensários, asilos, orfanatos, em que se gastam milhões e milhões largamente, erguem-se por toda a parte do mundo, em países pagãos e entre povos batizados,onde quer que se encontrem condições espirituais que reclamem auxilio ou cooperação; entre os gelos do território de Alaska, no meio dos esquimós, na Terra do Fogo, nas distantes ilhas do Pacifico, no coração da África, da Índia e no Japão, na China, na Rússia, na Turquia, nos Balkans, nas regiões necessitadas da própria pátria, assim como em outros países como a Itália, Portugal, Espanha, America Central e do Sul – com intuitos puramente religiosos!

Em nenhuma dessas instituições se pode perceber a menor sombra de intenções políticas, a não ser porventura nas de procedência católica romana, representantes de uma Igreja que ainda sonha com o cetro do poder temporal do mundo. Mas mesmo a respeito destas, as católicas romanas, seria injusto afirmar-se que as suas intenções são políticas.


TRISTE PARALELO

É este um fato universalmente notório, incontestável e incontestado. As intrigas maliciosas e ridículas que o Sr. Arcebispo pretende tramar contra a obra evangélica no Brasil, atribuindo-lhe objetivos inferiores e criminosos, só encontram historicamente, nos tempos modernos, um precedente, um triste paralelo que pouca honra faz ao ilustre Prelado mineiro: o dos fanáticos boxers, há anos, no tempo em que a China arrastava ainda as algemas terríveis de um governo reacionário e desastrado!

CANUDOS NÃO REPRESENTA O BRASIL

As insuflações do Sr. Arcebispo nunca conseguirão, no Brasil, nem por sombras, qualquer coisa que se pareça com a insurreição dos fanáticos chineses. Aqui não estamos em nenhum recanto da Hottentotia, nem tribo somos de selvagens, facilmente ilaqueaveis por impostores peregrinos, venham de onde vierem, da Inglaterra, de Nova York ou de Roma! O Brasil certamente não é Canudos, nem Canudos é o expoente do Brasil. Em Canudos pode-se dominar pela superstição, pelo fanatismo, pelas asserções dogmáticas de um chefe enganado e enganador, que trouxe a desgraça aos infelizes sertanejos. O povo brasileiro tem o direito de exigir razões e de que se lhe apresentem fatos, realidades, e não apenas essas murmurações confidenciais de sacristia.


A IGREJA ROMANA NOS ESTADOS UNIDOS

Haverá fins políticos e "tredos" (traiçoeiros), de dominação americana, na obra evangélica no Brasil? Quem a isto responde na afirmativa dá a entender, com adorável simpleza, que nos Estados Unidos só se encontram exclusivamente protestantes, e que lá não existe um só católico romano, um único filho da Igreja de Roma que possa levantar uma débil voz de protesto contra os manejos indecorosos das missões evangélicas, se tintura sequer de verdade houvera nas acusações articuladas pelo Sr Arcebispo de Mariana!

Mas o fato é que existe nos Estados Unidos uma Igreja Católica Romana, e esta muito mais ativa do que a mesma no Brasil. Ao passo que os Estados Unidos três respeitáveis membros do colégio eleitoral do Papa, o Brasil só tem um único cardeal, e este mesmo conseguido a custo pelo tenaz esforço de um Rio Branco! É que a Igreja Romana melhora seus planos e seus métodos nos países onde encontra a saudável atmosfera de um ambiente evangélico, ao passo que decai naqueles em que é exclusivo ou preponderante o seu poder. É isto o que explica a visível diferença entre o romanismo decadente no Brasil e outros povos latinos, e o romanismo mais disciplinado dos povos em que prevalece o sistema da Igreja reformada.

E seria porventura crível, se algum laivo de verdade houvesse nas afirmações do Prelado de Mariana, que a Igreja Romana na America do Norte se conservasse em silêncio, com detrimento dos seus próprios interesses? É totalmente inconcebível! Pode correr quanto quiser a mentira, mesmo com o sinete de um vulto conhecido, mas nem por isso deixará de ser facilmente apanhada!


MISSÕES BRASILEIRAS EM PORTUGAL

Duas importantes corporações evangélicas, conspicuamente brasileiras, mantêm trabalhos missionários em Portugal. É forte a premência dos compromissos no Brasil, mas nem por isso deixam de prestar auxilio aos irmãos na Lusitânia. Que se diria de um individuo na terra de Camões, que se aventurasse a propalar que a obra missionária, aí sustentada com tanto esforço, obedece a fins políticos ocultos, para abrir caminho ao predomínio brasileiro sobre o velho Portugal? Seria tido por certo como um idiota, ao menos no conceito dos brasileiros, que de perto conhecem as coisas do seu país. E os portugueses que, por ignorância ou malícia, fossem propensos a receber tais imposturas, haviam de responder que uma tal imputação é totalmente disparatada e inverossímil: 1° Porque o Brasil não tem religião oficial; ah! Como também hoje em Portugal não há nenhum culto preferido pelo Estado, que se conserva neutro em questões religiosas. 2° Porque si um tal pacto monstruoso viesse porventura a realizar-se, o clero romano no Brasil seria o primeiro a denunciá-lo.

Pois o mesmo argumento, e com o mesmo peso, pode ser aplicado para demonstrar a futilidade alvar e supinamente ridícula dos que enxergam, ou fingem enxergar intenções políticas na obra missionária dos norte-americanos no Brasil. Os Estados Unidos, como ninguém ignora, não tem nenhum sistema religioso oficial; sua Constituição garante a mais escrupulosa liberdade de cultos, e seria materialmente impossível auxilio oficial ou político a qualquer deles, especialmente em propaganda missionária, sem o veemente e muito justo protesto dos demais.


NACIONALISMO EVANGELICO

O ideal, mil vezes declarado por todas as juntas missionárias, tanto para o Brasil como para as demais partes do orbe, é a formação de comunidades evangélicas inteiramente autônomas, completamente nacionais. E muitas delas há, em todas as regiões do mundo, assim como também no Brasil, que já conseguiram esta meta de completa autonomia; e as demais trabalham afincadamente para alcançar o mesmo objetivo, que é a de se tornarem completamente nacionais! Note-se: completamente nacionais, sem dependências tutelares nem de Londres, nem de Nova York, nem de Genebra e muito menos de Roma!

O CULTO EVANGELICO NO IDIOMA DO PAÍS

É uma das provas mais terminantes do espírito de lealdade e de profundo respeito às nacionalidades, entre as quais se exerce a propaganda evangélica, é a sua instrução, secular ou religiosa, e o seu culto, não em língua estranha, morta ou viva, mas no próprio idioma do país. O culto evangélico não induz os brasileiros a adorar a Deus na língua dos ingleses ou em latim, mas nessa língua maravilhosa que canta, que chora, que ri e que troveja no verbo de Ruy Barbosa. O espírito da obra evangélica, longe de produzir resultados desintegrantes no genuíno patriotismo, tem os seus efeitos profunda e acentuadamente nacionalistas. É isto também o que tem sido comprovado pela experiência em toda a parte.


O NACIONALISMO DE UM CLERO VINCULADO À FAMILIA

O clero evangélico no Brasil é composto, na sua absoluta maioria, de nacionais. Os estrangeiros constituem exceções. E estes clérigos nacionais, entrelaçados com a sociedade pelos elos da família, de que são chefes exemplares, nunca se prestariam a ser instrumentos dóceis nas mãos de quaisquer aventureiros. É a família o fundamento do espírito nacional, a célula mater do Estado. Um homem solitário, ou apenas ligado a um lar clandestino, criminosamente constituído, poderá menosprezar a sua terra natal, ou mesmo preteri-la por quaisquer interesses fortuitos do momento. Mas a um chefe de família, e esta legitima, consagrada pela legalidade e pelo respeito público, ser-lhe-á muito difícil tornar-se estranho ou indiferente ao torrão que foi o berço de seus filhos, e que foi o cenário das suas mais carinhosas e santas afeições humanas, e cujo pavilhão ele vê farfalhar, como penhor de justiça, de paz, de liberdade e honra, sobre as cabeças de débeis criancinhas, que são pedaços de sua alma e as esperanças da pátria!


CONCLUSÕES

Tem a Igreja Romana, nos Estados Unidos, a pretensão de ser a corporação religiosa de maior prestigio na política daquele país. E algo de verdade haverá nisto, em razão de estar sempre essa Igreja, em toda parte, de espreita para conseguir os favores do poder público. Mas note-se que prestigio político não é necessariamente influência moral e espiritual. É às vezes o contrário.

É por tanto absolutamente inadmissível, si algum longe de verdade houvesse nas asserções do Sr. Arcebispo, que a Igreja Romana, nos Estados Unidos, não levantasse imediatamente o seu protesto! Mas nada disto se ouve, nada se sabe, nada se conhece, porque nada existe que justifique a solidez de uma tal suposição, qual a que foi espalhada, com leviandade infantil, aos quatro ventos, por um membro de destaque no clero romanista do Brasil.

É verdadeiramente assombroso que a Igreja Romana nos Estados Unidos, encabeçada por eminentes cardeais, políticos matreiros, vaqueanos nos meandros intrincados da política nunca pode lobrigar quaisquer intenções secundarias, quer nas Associações Cristãs de Moços, que cooperam com as do Brasil, quer nas Sociedades Bíblicas, quer nas associações missionárias, porque nada existe que mesmo de leve possa dar azo a uma semelhante suposição; é verdadeiramente assombroso que só ao Sr. Arcebispo de Mariana, lá do silencio do seu retiro em Minas, fosse concedido o singular privilegio de fazer a estupenda descoberta, envergonhando os mais finos estadistas, cabendo-lhe a gloria de apresentar, ante o mundo estarrecido, e com o garbo do herói de Cervantes, a sensacional revelação!


SOLENE REVELAÇÃO

É realmente uma revelação, mas de natureza bem diversa da que pretende o ilustre prelado de Minas! Há neste caso a solene revelação de alguns fatos que devem ficar indelevelmente gravados, em caracteres de chamas, na consciência dos brasileiros: -

1° A completa falsidade das afirmações do Sr. Arcebispo de Mariana, que na sua Pastoral atribui intenções políticas inconfessáveis à obra evangélica no Brasil. Se quer alguém contestar os princípios cristãos e democráticos da obra evangélica, faça-o muito embora; mas a ninguém é licito, sem "desar" (falta de elegância), emprestar-lhe estranhos motivos.

2° A duvidosa

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