O Estandarte Christão - 09/1894

Versão Integral em Texto

O Estandarte Christão - 09/1894

A. V. Cabral1894

O ESTANDARTE CHRISTÃO

ORGAM DA EGREJA PROTESTANTE EPISCOPAL NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

VOL. II. ASSIGNATURA: POR ANNO 3$000 Arvorae o estandarte aos povos Isaias 62:10. PORTO ALEGRE, SETEMBRO DE 1894 PUBLICAÇÃO: UMA VEZ NO FIM DE CADA MEZ Ν. 9.

Expediente Toda a correspondencia deve-se dirigir á caixa do correio n.° 5. o escriptorio da redacção acha-se no edi- ficio da Escola Americana n. 387 Rua Volun- tarios da Patria. REDACTORES REVDOS. J. W. Morris W. C. Brown A. V. Cabral N'esta redacção dão-se todas as informa- ções sobre tratados, e publicações evangelicas. Todas as pessoas que desejarem tomar assigna- tura d'este jornal dar-se-ão ao encommodo de nos remetter sen endereço que serão imme- diatamente attendidas. Os pagamentos poderão ser feitos pelo cor- reio.

O Testemunho Christão. Se com a tua bocca confessares o Senhor Jesus e em teu coração crêres que Deus o resuscitou dos mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para a justiça e com a bocca se faz confissão para a salvação. S. Paulo aos Rom. cap. 10: 9.

E no entanto confronte-se a historia dos a tomar parte nos jogos ou divertimentos cipulos, opportunidades abundantes de sus- ensinos anti-Christãos com a historia da illicitos ou que possam prejudicar a sua tentar o progresso do meu reino por meio Christandade. Não obstante os erros de vida religiosa e o respeito que cada um de contribuir com vossos bens mundanos. que é susceptivel o espirito humano o deve a si proprio, então elle poderá con- Não deixeis de concorrer com vosso obulo, Christianismo exhibe no correr dos secu- tar como certo que terá a zombaria e mas cuidae em não fazer collectas ao som los uma multidão de confessores fieis que o desprezo dos seus pseudo-amigos. Ac- da trombeta, como os hypocritas nas syna- espantam pela firmeza de suas crenças e crescem outros perigos a quem quer dar gogas e nas ruas com bandeiras e fogue- commovem pela abnegação de seus inte- um testemunho christão nos lugares onde tes. Antes seja vosso alvo acrysolado en- resses mundanos. Desde o pinaculo do o Evangelho tem poucos adeptos. E' o grandecer a causa de Deus e não ganhar martyrio que foi o Calvario, até Uganda), caso que a divergencia com os irmãos na os applausos dos homens». E' evidente, Terra do Fogo), Dillon-bay 4), Archi- fé pode condemnar um Christão a cruel pois, que o Author de nossa salvação autho- pelago Santa Cruz) e outros e mui- ostracismo visto que não ha para prote- riza e exige que o Christão contribua ao tissimos outros lugares, para a enumera- ção dos quaes nos fallece o espaço, eis theatros dessa grande cadeia de martyrios e testemunhos que mesmo nos seculos escu- ros da edade media não se vé de todo in- terrompida. Aqui, vemos um personagem como S. Paulo abandonar os privilegios de que gosava na communidade judaica para soffrer pelo Nome de Christo; além João Huss, Jeronymo de Praga, na Bohemia, Jeronymo Savonarola na Italia, Carlos de Seso, Julião Hernandez, Christovão Losada na Hespanha e essa cohorte immensa de con- fessores-martyres que a Egreja militante não recorda hoje nos seus calendarios na terra, mas que a triumphante applaudirá um dia no céo. O atheismo, porém, nada tem para collocar ao lado de tanta cora- gem e devotamento ás crenças. Todavia os tempos se teem mudado sob muitos respeitos para aquelles que querem dar um testemunho a Christo; se para bem, se para mal, não o sei dizer. E' verdade que, mesmo nas paizes civilisados, como o Brazil, ainda se apedreja os pregadores do Christo, ainda se tenta fazer saltar com o dynamite o templo protestante. ainda-se prohibe a prégação e se apupa e ameaça o prégador, mas tudo isto se faz illegalmente, passando por cima da Con- stituição Republicana (na monarchia já era permitido o livre culto, sem forma exte- rior de templo), longe das vistas de um publico sensato e instruido, e sem o con- hecimento dos altos poderes governativos. As difficuldades são hoje quasi sempre de outro genero como vamos examinar. O empregado, por exemplo, que quizer ser um christão fiel não tem hoje que te- mer que seus companheiros ou superiores o denunciem á Inquisição mas está arris- cado a perder o emprego. Porque é pre- ciso que se note que o ser um empregado esbanjador, dissoluto ou vicioso não é, na maioria dos casos, tão pessima recommen- dação, para muitos dos nossos homens, co- mo o facto de professar um moço as dou- trinas de nosso Senhor Jesus Christo, isto é ser um crente evangelico. E' que o car- rancismo é maior e mais tremendo do que vulgarmente se pensa. Um christão verdadeiro tem muitas ve- zes que arrostar com a opposição de sua familia e ahi então a sua vida transforma- se muitas vezes n'uma prova continua, por- que a parentela, sabendo que o christão precisa soffrer humilde e resignado, accu- mula sobre este tudo o que um espirito ex- grosseiro pode aconselhar. Torna-se ahi mais do que nunca necessario que ao christão estejam presentes as palavras do Divino Mestre: «Não julgueis que vim trazer paz á terra: não vim trazer-lhe a paz, mas espada. Porqué vim a separar a o homem contra o seu pae, e a filha contra a sua mãe e a nora contra a sua sogra, E os inimigos do homem serão os seus propriios domesticos. O que ama o pae e a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E o que não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim), (Matheas, cap. 11, vers. 11-13). Mas para que estou eu a citar textos da Escriptura? Os espiritos de hoje pre- ferem áquellas palavras maciças da Biblia as citações arrogantes e quichotescas da demagogia materialista e positiva. E no entanto as palavras de Christo, reprodu- zidas por Matheus, Marcos, Lucas e João teem produzido no mundo maiores actos do altruismo, de abnegação e de coragem do que todos os aphorismos de Aristoteles, Lucrecio, Voltaire, Diderot, Augusto Comte, Darwin e Luiz Büchner. Quando o Chri- stianismo appareceu o materialismo já ha- via apparecido nos ensinos de lang Choo (300 A. C.) na China, de Charvaka na India, Demokrito na Grecia (500 A. C.), e o positivismo era ensinado em seus principios essenciaes por Protagoras e ou- tros na Grecia mais de quatro centos an- nos antes da era Christā¹).

  1. Robert Flint, A. T. Theories. Pg. 177. Onde foi martyr o bispo Hannington em 1885. Onde pereceram Allen Gardiner e seus com- panheiros em 1851. O reverendissimo bispo da Virginia, um Onde foram devorados Williams e Harris em 888 Onde soffreu o martyrio João Coleridge Pat- teson, bispo das ilhas Melanesianas. protegel-o a força administrativa dos grandes centros christãos, nem para acolhel-o o foco amoroso de uma communidade mais isempta das pequeninas intrigas e rastei- ras invejas que sóem surgir nos meios acanhados. Mas, apezar de tudo isto, e por maior peso que demos a estas circumstancias e difficuldades que acabo de pôr á luz para nossa precaução e oração, conclúo, apezar de tudo isso, com as palavras que hei dito no principio: «Não obstante todos os peri- gos que porventura acarrete uma publica profissão de fé, é esta ainda hoje, como o foi nas eras passadas uma cousa essen- cial á vida christa e á propagação do reino de Deus. Cada vez que soffremos uma inju- ria pelo amor de Christo, cada vez que sup- portamos alguma offensa ou injustiça pelo amor de Christo, cada vez que nos opprime a calumnia por amor de Christo, sentimo- nos mais dignos dos vastos planos divinos. Septembro de 94. A. V. Cabral.

O dever de dar Ha muitos commungantes da Egreja que team falta ainda de esclarecimento sobre o sagrado dever de contribuir para o tra- balho do Senhor. Talvez seja devido ao facto de não se ter dirigido sua attenção para este assumpto, o qual liga-se tão in- timamente á vida Christa e á nossa sal- vação eterna. Consideremos brevemente qual é nosso dever n'este respeito sem duvida, vae nos causar surpreza ver quão clara e vivamente resalta o assumpto nas paginas do livro que é denominado «o la- bio de verdade». Ao abrirmos o sermão do monte esse discurso em que salientou o divino Mestre as verdades fundamentaes que servem como de constituição e estatutos á sua Egreja- mos que a fe que se esconde e se recata, só pode ter uma existencia ephemera porque seu espi- rito é quasi sempre timido ou egoista, po- rém quasi nunca christão. E no entanto ha muitas almas que reconhecem a ver- dade do Christianismo, mas não colhem para sua vida os fructos d'elle porque ne- gando-se a confessar Christo publicamente nos mais satisfeitos comnosco, sentimo-nos para não prejudicarem seus negocios mun- danos trahem os votos do baptismo e que- bram o juramento de leacs soldados de Christo, visto que o Mestre disse: Porém qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei tambem diante de meu Pae que está nos Céus. E' muitas vezes o medo dos homens que impede a confissão franca de uma fé em Jesus Christo. O mesmo facto se deu quan- do o Divino Mestre vein a este mundo, conforme nos refere S. João em seu Evan- gelho cap. 12 v. 42. «Comtudo até muitos dos principes crêram n'Elle, mas não o confessavam por causa dos Phariseus, para não serem expulsos da synagoga». Mas ao Christão devem sempre estar presentes aquellas palavras do Filho do Homem: Qualquer que quizer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me. Porque qualquer que perder a sua vida perdél-a-ha, mas qual- quer que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, esse a salvará. Pois que aproveitaria ao homem se ganhasse todo o mundo e perdesse a sua alma? Porque qualquer que entre esta geração se adultera e peccadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do Homem tambem se envergonhará d'elle, quando viér na gloria do seu Pae, com os santos Anjos (Marcos 8, 34-38). Mas para que estou eu a citar textos da Escriptura? Os espiritos de hoje pre- ferem áquellas palavras maciças da Biblia as citações arrogantes e quichotescas da demagogia materialista e positiva. E no entanto as palavras de Christo, reprodu- zidas por Matheus, Marcos, Lucas e João teem produzido no mundo maiores actos do altruismo, de abnegação e de coragem do que todos os aphorismos de Aristoteles, Lucrecio, Voltaire, Diderot, Augusto Comte, Darwin e Luiz Büchner. Quando o Chri- stianismo appareceu o materialismo já ha- via apparecido nos ensinos de lang Choo (300 A. C.) na China, de Charvaka na India, Demokrito na Grecia (500 A. C.), e o positivismo era ensinado em seus principios essenciaes por Protagoras e ou- tros na Grecia mais de quatro centos an- nos antes da era Christā¹).

  1. Robert Flint, A. T. Theories. Pg. 177. Onde foi martyr o bispo Hannington em 1885. Onde pereceram Allen Gardiner e seus com- panheiros em 1851. O reverendissimo bispo da Virginia, um Onde foram devorados Williams e Harris em 888 Onde soffreu o martyrio João Coleridge Pat- teson, bispo das ilhas Melanesianas.
  2. Matheas, cap. 11, vers. 11-13. Qual era o costume apostolico? No dia de Pencostes e depois, influia o Espirito Santo aos recem-convertidos fazerem col- lectas. Desenvolviam-se estas com mais esplendidos resultados do que em qualquer outra epocha do Christianismo. Logo ti- nham os Apostolos de ordenar o officio dos diaconos para não occuparem-se a si mes- mos com as mesas da renda ecclesiastica. A feição proeminente da egreja primitiva foi o zelo e generosidade que que patentearam os membros nas suas offertas. S. Paulo tambem aconselhou todas as congregações que estabeleceu na Asia e Europa (muito mais pobres do que as con- gregações evangelicas do Brazil) que não deixassem de adiantar o progresso do evangelho pelas collectas entre os fieis. Em quasi todas as suas epistolas acham- se exhortações para este fim. No capitulo 16º da primeira epistola aos Corinthios escreve o Apostolo aos Gentios: <<Quanto porém ás collectas que se fazem a benefi- cio dos Santos, fazei tambem vós o mesmo que eu ordenei ás Egrejas da Galicia. Ao primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte alguma somma, dando assim o que bem lhe parecer:» Igualmente, ex- hortou o Apostolo que os membros da egreja em Roma fizessem a mesma cousa, a saber, concorressem com seus donativos. «Na oração perseverantes soccorrei as ne- cessidades dos santos (aos Romanos 12°, 12, 13) i. é, as necessidades d'aquelles com mungantes que soffriam faltas. Aqui liga S. Paulo juntos estes dois deveres, a ora- ção e o dar, que juntou Christo no ser- mão do monte. Em vista dos ensinos do Salvador, do costume primitivo, das inspiradas exhota- ções de S. Paulo, quem é capaz de negar o dever sagradissimo de sustentar com nossas contribuições a proclamação do evan- gelho? Mas algum pobre dirá posso orar, cantar louvores perante Deus, adoral-o em espirito e em verdade (S. João 4°, 23), em quanto me acho inhabilitado para contribuir por falta de dinheiro. E' verdade, mas não se esqueça tal pessoa da mulher empobre- cida que fez uma offerta de dois ceitis em Jerusalem e que aproveitaria ao homem se ganhasse todo o mundo e perdesse a sua alma? louvou Jesus Chri- sto ao acto n'um encomio que não merece o millionario. Não é a quantia de nossas contribuições que agrada a Deus, antes o espirito de humildade e gratidão que nos constrange dar ao Senhor uma parte de nossos bens quer sejam poucos ou muitos. O romanista está ensinado a dar para comprar a salvação: nós os filhos da liber- dade, que temos o espirito de adopção em nossos corações, somos instruidos a dar para o bom estado da casa de nosso Pae, para honrar seu santissimo nome por nos- sos dons, nosso motivo sendo um desejo de extender seu reino entre homens, bem sabendo que Jesus Christo e Elle só com- prou a nossa salvação. Não podemos ac- crescentar nada aquella obra meritoria; mas é nosso privilegio patentear por nos- sas offertas nossa obrigação ao Salvador, nossa appreciação d'Elle nos ter redimido, nossa gratidão a Deus Pae pelo dom do sen preciosissimo Filho. O reverendissimo bispo da Virginia, um ancião pleno de annos, experiencia e sabe- doria costumava dizer que o evangelho, que não inculca o dever de fazer collec- tas, é um evangelho mutilado, fraco e in- completo que afinal perecerá infallivelmen- te da face da terra por ter a e poder espiritual que nasce do sacrificio, ==End of OCR for page 1== 2 Inculquemos este dever mais zelosamen- te do que no passado, lembrando-nos de que a condição de muitos de nosso seculo e de milhares dos vindouros depende sobre nossa fidelidade em adiantar a egreja militante por nossas contribuições. Um texto do gran- de Legislador serviu durante seculos como uma regra das egrejas judaica e christã: «Não apparecereis diante do Senhor com mãos vasias: cada um offerecerá á propor- ção do que tiver, segundo a benção que o Senhor, sen Deus, lhe tiver dado» (Deute- ronomio XVI. 16, 17).

A grande causa O Brazil, essa grande nação situada no continente sul-americano, parece encaminhar se a largos passos pela senda do progres- so, e um movimento civilisador opera-se na patria brazileira. Tudo prospera; tudo attinge ao mais elevado grão de adianta- mento. Só uma cousa parece não ter me- recido a attenção dos meus compatriotas; parece jazer n'un profundo esquecimento. Quero referir-me ao progresso da santa causa de Christo. O povo brazileiro acha- se n'este ponto n'um completo estado le- thargico. Eis porém que surgiram, qual raio de benefica luz, os arautos do Evangelho, empregando, todos os esforços para fazel-o despertar d'aquelle estado anti-salutar. Despertai! abri vossos olhos, e quão santa, quão pura, e quão recta è a causa do Redemptor. <<Examinai porém tudo abraçai o que é bom».

Palavras sublimes do Apostolo S. Paulo em sua primeira epistola aos Thessaloni- censes. Se examinarmos attentamente a causa Christa, não podemos deixar de abraçal-a. Ella impõe-se, não só pela sub- limidade e rectidão de seus principios, como pela moral incomparavel que ella consequentemente vieram a considerar como párias a grande maioria do genero huma- no que se achava fóra do recinto da obri- gação. Verdade é que na mais recente philosophia stoica, suhsequente ao tempo de Jesus Christo, acha-se alguma pallida concepção da irmandade universal do ge- nero humano; porém essa não tem uma alicerce era o pan- theismo; e essa concepção nunca impelliu nenhum dos discipulos do stoicismo a de- votar uma vida inteira ás abnegações de quem tudo deixa para ir practicar o bem. Resumindo, os antigos philosophos e mora- listas divorciaram a moralidade da religião, como tem sido feito por algumas escolas do pensamento moderno; e portanto des- piram os preceitos de todo o poder moral e espiritual. Jesus Christo, ao contrario, uniu os dous, e assim fazendo fortalescu o principio moral com a sancção que a religião póde dar. Qual é o dever que se impõe a todo o bom patriota? Pelejar em pról da sua patria. Pois bem, nós que somos Chri- stãos, soldados de Christo, devemos tor- nar-nos defensores accerrimos de sua grande causa e pelejarmos por ella com todo o ardor. A nossa fé não deve arrefecer quando encontrarmos obstaculos a vencer ou fadi- gas a supportar. Pelo contrario, ella deve robustecer tanto mais, quantos forem as privações que soffrermos por amor a Chri- sto, lembrando-nos que elle soffreu em nosso lugar derramando o seu precioso sangue na cruenta cruz do Calvario. Unamo-nos concidadãos! empreguemos todos os nossos esforços e toda a nossa dedicação para o progresso da santa causa de Christo, lembrando-nos que só o trium- pho d'essa grande causa póde tra- zer ao nosso querido torrão natal, um pe- riodo de perenne felicidade e uma paz que nunca terá fim. Frederico G. Schmidt. Rio Grande, 1894.

A Evidencia Moral do Cristianismo ou O Ensino Moral de Jesus Christo

  1. Em vigor e alvo. A primeira cousa que a todo o leitor deve forçosamente surprehender é o inten- so vigor e realidade dos ensinos Christãos. A gente sente-se em contacto com uma classe de mestres, cujo fim não é enunciar uma serie de regras para a vida, porem conduzir os homens á sujeição da lei moral. Em patente contraste com isto acha-se o ensino dos antigos moralistas. O alvo d'estes ultimos foi essencialmente intellec- tual, como, por exemplo, investigar os prin- cipios sobre que repousa o dever moral, e sobre elles edificar um corpo de preceitos para guia da vida. O ensino d'elles era consequentemente frio, e necessariamente esteril em seus resultados. Instinctivamente sentimos ao ler um trabalho de algum moralista antigo, após um estudo do Novo Testamento, que havemos passado de uma região onde ha vida, calor, vehemencia, a outra região do pensamento cujo cha- racteristico não é o vigor moral, porem a especulação.

O Credo CAPITULO VII. O Sexto Artigo. Subiu ao Céo, e está sentado á mão di- reita de Deus, Pae Todo Poderoso.

  1. Os Quarenta Dias. O Salvador ficou na terra quarenta dias (Actos 1: 3), depois da Sua gloriosa Resurreição. Durante este tempo convenceu aos Seus Apostolos quan- to a Sua morte e ás prophecias que a predisseram, e os instruiu nas cousas per- tencentes ao Seu reino (Actos 1:3), e lhes deu Sua ultima commissão, dizendo: «Ide, ensinae todas as gentes, baptizando-as em Nome do Pae, e do Filho, e do Espirito Santo (S. Matt. 28:19).
  2. 0 Caminho para o Monte das Olivei- ras. Afinal terminou este periodo solemne, Avisados, talvez, pelo proprio Salvador, ou attrahidos pela proxima celebração da festa de Pentecoste, os Apostolos partiram da Galilea e voltaram para Jerusalem. Mais uma vez viram lá o Senhor resur- gido, e receberam seu mandamento de que ficassem em Jerusalem, até que fossem bap- tizados com o Espirito Santo, e do alto revestidos de potencia (Actos 1:5; S. Luc. 24:49). Elle mandou-os que o accompanhas- sem pelo caminho para Bethania e o mon- te das Oliveiras (S. Luc. 24: 50; Act. 1:12). Convencidos de que alguma cousa myste- riosa estava para dar-se, e pensando que pretendeu começar o Seu reino, de ha muito, esperado, principiaram a perguntar: «Senhor, restaurarás tu n'este tempo o reino a Israel?» (Actos 1:6). Porém fel-os ca- lar. Não lhes pertenceu saber os tempos ou as sazões que o Pae tinha posto em seu proprio poder; mas foi seu dever e privi- legio «ser testemunhos ao Senhor em Je- rusalem, como em toda a Judea e Sama- ria, e até os confins da terra» (Act. 1:6-8).
  3. Subiu ao Céo. Assim conversando os Apostolos seguiram a Jesus até os limi- tes do districto da Bethania, até o monte das Oliveiras. Lá receberam Sua ultima solemne e permanente benção, e aconteceu que, abençoando-os elle, deu-se uma mu- dança maravilhosa (S. Luc. 24:50, 51). Pelo poder de Sua divindade «apartou-se d'elles, e vendo-o elles, foi elevado ás altu- ras, e uma nuvem o tirou de seus olhos.>> (S. Luc. 24:51; Actos 1:9). «E standingo no céu, emquanto que elle ia subindo, eis-que junto d'elles se pu- zeram dois varões vestidos de branco, os quaes disseram: Varões Galileos, que estaes olhando para o céo? Esse Jesus, que d'entre vos foi recebido acima no céo, ha de vir assim, como para o céo o vistes ir?» (Actos 1:10, 11).
  4. A differença entre a Resurreição e a Ascensão é digna de notar-se. Justamente quando o Senhor resurgiu dos mortos, e como pareceu quando resurgiu, ninguem sabe, porque ninguem o viu. Porém quando subiu ao céo, quando foi de summa impor- tancia que os homens ficassem convenci- dos de que realmente tinha voltado para a mesma bemdita mansão, onde estava com o Pae, «antes que o mundo existisse (S. João 17:5), então, na presença de muitos testemunhos, apartou-se dos Seus Aposto- los, e isto não de repente e imperceptivel- mente, como Henoch que «não estava mais, porquanto Deus para si o tomous (Gen. 5:24), nem «em um carro de fogo, com cavallos de fogo» (4 Reis 2:11), como no caso de Elias, mas gradual e silenciosa- mente, sem pompa nem ostentação, como se fosse a terminação natural de Sua vida divina sobre a terra.
  5. Está sentado á mão direita de Deus. Assim conforme a prophecia de David o Santo «subiu ao alto, levou captivo o cap- tiveiro, e recebeu dons para os homens» (Ps. 68:18; Efes. 4:8). Elle entrou na sua gloria, levando comsigo a humanidade redimida acima de todos os céos, para a presença de Deus, para aquelle logar de todos os logares no universo em situação o mais eminente, em qualidade o mais santo, em dignidade o mais excelente, em gloria o mais illustre, mesmo para o mais intimo santuario de templo de Deus». O Credo affirma que está sentado á mão di- reita de Deus Pae Todo Poderoso. Agora Deus é espirito (S. João 4:24), e não tem mãos como um homem. Por consequinte temos de entender por esta sessão á mão direita de Deus, que no céo nosso Senhor occupa o logar da maior honra, da mais alta majestade, e da mais perfeita felici- dade, e que Deus lhe tem dado toda a preeminencia em dignidade, poder e feli- cidade.
  6. Como nosso Sacerdote. Porém não de- vemos pensar na sessão de nosso Senhor, como se estivesse um estado da inactivi- dade. Nos mais altos céos exercita as duplas funcções, typificadas por Melchise- dec, de Sacerdote e de Rei (Heb. 3:1; 7:21). Como o sacerdote judaico entrou uma só vez todos os annos no santuario, com o sangue de differentes victimas, o qual espargiu perante propiciatorio (Levit. 16: 15), mesmo assim nosso Summo Sacerdote Christo já entrou no verdadeiro santuario por seu proprio sangue (Heb. 9: 12), e pleiteia face a face com Deus os meritos do Seu sacrificio (Rom. 8:34). Porque n'aquelle mundo glorioso, ainda retem uma perfeita appreciação das nossas enfermidades, e do mysterio dos padeci- mentos humanos, que aprendeu quando estava no mundo, e do Seu perfeito amor, conhecimento, e sympathia Elle, como nosso Advogado, intercede por nós, e pelas suas intercessões as nossas orações sobem e são acceitas tas ao Throno da Graça (Heb. 4:14; 7:25; 1 João 2:1, 2; Арос. 8:3, 4).
  7. Como nosso Rei. E não sómente sua função de Sacerdote (Heb. 4:14), mas tambem como o Rei dos reis e o Se- nhor dos senhores está sentado á mão di- reita de Deus (Heb. 1:8, 9). Lá com in- finito poder, sabedoria e providencia está dirigindo os destinos do Universo, e espe- cialmente da familia humana que redimiu. Elle está conduzindo todas as cousas para o sen fim destinado, e empregando a agen- cia do céo e da terra para o governo e defeza do seu povo. Porém agora ainda não vimos que todas as cousas lhe este- jam sujeitas (Heb. 2:8), mas como tem poder, as im sujeitará a si todas as cou- sas (Phil. 3:21), e o ultimo inimigo, morte, será aniquilado (I Cor. 15: 26), e a Victo- ria, para a qual espera toda a creação, será completamente e para sempre alcan- çada. (Continua.)

Uma Razão porque devemos pensar antes de fallar. A palavra fallada é de todas as cousas de ira, mesmo concorre em accelerar a fuga, ou de malicia ou profanidade, já foi-se como uma setta do arco na sua missão de mal, e o diabo mesmo concorre em accelerar a fuga, Pausemos antes de fallar, para que nossas palavras sejam boas e sympathicas para com todos. A seguinte historia é contada por um trabalhador entre os Indios da America do Norte: Não ha muito tempo uma sociedade missionaria no estado de Pennsylvania estava enchendo uma caixa para mandar aos professores e alumnos de uma escola de India. Uma velha senhora trouxe um tra- vesseiro estofado com pennas, dizendo que não tinha outra cousa para dar, mas esperava que um missionario ou enfermo o achasse util. O Secretario o poz no fundo da caixa, e mandou com elle um bilhete explicando o desejo da dona, e accrescentando que foi carregado com orações. Antes que chegasse a caixa ao seu destino, a escola foi destruida por um incendio e os missionarios e os seus beneficiados ficaram em falta de todas as cousas. A caixa suppriu muitas das suas necessidades, e quando todo o seu conteúdo fora distribuido e só restava o travesseiro, uma das professoras levou este a um indiosinho que estava de cama com febre. Ella tirou o travesseiro duro que já tinha, e poz no seu logar o outro, e logo o pobresinho sentiu a differença e deixou de mover inquietamente sua cabeça. Ella disse-lhe que uma amiga bondosa the mandára o travesseiro, porque amava a Jesus e a todos os amigos d'elle. Elle perguntou, E' o mesmo Jesus de quem a senhora me fallou?« »Sim. responden a professora, é o unico Jesus, o mesmo Jesus.<< O menino nada mais disse, mas depois de ficar são elle com outros con- fessaram publicamente a sua fé em Jesus, e é muito provavel que aquelle mensageiro de conforto, «carregado com orações em que a cabeça do enfermo achou descanço, fosse para elle uma das melhores provas do amor de Jesus.

O ESTANDARTE CHRISTÃO 2 Esta lei é baseada nos trez grandes riosa estava para dar-se, e pensando que cialmente da familia humana que redimiu. princípios seguintes: pretendeu começar o Seu reino, de ha Elle está conduzindo todas as cousas para (1) O dever de homem para com ho- muito, esperado, principiaram a perguntar: o sen fim destinado, e empregando a agen- mem, fundado e originado na relação em «Senhor, restaurarás tu n'este tempo o reino cia do céo e da terra para o governo e que o homem está para com Deus.

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