Síndrome do Exclusivismo
REFLEXÕES
Síndrome do Exclusivismo
Por Gecionny Rodrigo
Como sabemos o exclusivismo é uma atitude sectária onde somente quem pertence a um determinado grupo ou instituição é detentor da verdade absoluta e nisso o exclusivismo rima com fundamentalismo.
Ao contrário do que muitos pensam o exclusivismo e o fundamentalismo está presente não somente no islamismo, judaísmo e protestantismo, ele está presente também entre os Católicos Romanos e Ortodoxos.
O exclusivismo está presente na Bíblia e na História da Humanidade, mas graças à Deus o inclusivismo também está presente na Bíblia e na História da humanidade.
O exclusivismo começa a fazer-se presente na Bíblia quando os hebreus passam a considerar-se um povo superior aos demais, concordo que os Hebreus foram escolhidos por Deus, porém o amor de Deus não exclui, mas inclui mesmo aqueles que estão distantes da casa do Pai.
Essa percepção do povo de Deus se torna clara quando quando vemos uma acepção em relação aos publicanos, samaritanos, galileus e prostitutas. Porém demos graças à Deus que Jesus Cristo apesar de seus condicionamentos históricos foi inclusivista.
Ele não fazia acepção de pessoas, nem de religião, nem de classe social, nem de status eclesiástico, talvez tenha sido por isso que ele foi excluído de sua sociedade, pois numa sociedade exclusivista aqueles que são inclusivistas tendem a ser excluídos, marginalizados e calados porque sabemos que sua voz profética incomoda os doutores da Lei do nosso tempo que são senhores absolutos da verdade de Deus utilizando à Bíblia, à Tradição ou até mesmo a Razão.
A Igreja Cristã no seu início Apostólico era inclusivista, no dia de sua fundação em Pentecostes, estavam presentes pessoas das mais diversas nações, línguas e tribos que viram e testificaram a ação do Espírito Santo na Igreja Nascente.
Apesar de em algumas passagens os apóstolos terem se mostrado exclusivistas, deve ser dado o desconto duplo: em primeiro lugar o Cristianismo precisava se afirmar como religião que nem era uma mera seita do Judaísmo, nem muito menos mais uma religião pagã e politeísta. Em segundo lugar a Igreja não tinha sofrido às várias divisões que ocorreram ao longo da História.
Alguns são Exclusivistas porque dizem ter a única Sucessão Apostólica válida, outros são Exclusivistas porque dizem crer na mais pura Doutrina Apostólica.
O primeiro cisma ou separação teve lugar nos séculos quinto e sexto, em virtude principalmente do entendimento a respeito da pessoa de Cristo. Determinadas Igrejas Orientais são completamente semelhante à Igreja Ortodoxa em caráter, culto e costumes. São de dois tipos, um chamado a Igreja Nestoriana ou Assíria do Oriente, e outro grupo muito maior, intitulado Pré-Calcedoniano, por causa da não aceitação do Concílio de Calcedônia em 451d.C.
As Igrejas pré-calcedonianas incluem a Igreja Copta do Egito, a Igreja Etíope, a Igreja Apostólica Armênia, a Igreja de São Tomé na Índia, e a Igreja Siriana Jacobita de Antioquia. Ao todo contam com aproximadamente 22 milhões de fiéis.
Após o Sétimo Concílio Ecumênico em 787 d.C., a unidade básica da fé e vida eclesiástica entre Oriente e Ocidente começou a desfazer-se, devido a uma variedade de diferenças teológicas, jurisdicionais, culturais e políticas. Isto finalmente produziu o Grande Cisma em 1054 d.C. Esta divisão infelizmente foi agravada devido ao Exclusivismo de ambas as partes, ao ponto de uma completa ruptura de comunicação entre a Igreja Ortodoxa e a Católica Romana.
Nesse imenso período à Igreja foi exclusivista, por acreditar ser essa a melhor forma de defende-la dos movimentos heréticos.
Já pelo Ocidente, o Catolicismo Romano continuava a sua caminhada exclusivista que levou à aberrações como as Cruzadas e a Inquisição.
No século XVI ocorre a Reforma Protestante, que já começa exclusivista, visto que depois de expor as suas teses Lutero é excomungado da Igreja Romana e o mesmo exclui a Igreja Romana ao queimar em praça pública à Bula Exsurge Domini, que excomungou Lutero.
Na Confissão de Augsburgo surge uma esperança ao inclusivismo, ao ser afirmado que a Igreja visível seria todo lugar onde a Palavra de Deus é pregada e os Sacramentos são administrados, visto que isso ocorria tanto nas Igrejas Católicas quanto nas Igrejas Reformadas.
Apesar da Reforma Calvinista ter sido mais radical do que a Luterana, Calvino quando convidado pelo Arcebispo de Cantuária, Thomas Cranmer em 1552, diz-se disposto a atravessar dez mares se fosse necessário para promover a Unidade da Igreja (Biéler, Pág. 83).
Como Anglicano, gostaria de chamar a atenção para esta parte da Igreja Católica de Cristo, chamada Igreja Anglicana. Apesar de ao longo dos séculos ter abrigado no seu seio tanto exclusivistas como inclusivistas, conseguiu transpor os obstáculos e conservar um ethos inclusivista, já que a Igreja Anglicana é a inclusão de várias tradições do Cristianismo: Celta, Católica e Reformada. E por causa desse inclusivismo muitos fugiram para Genebra, outros para Roma, mas os que ficaram com a Sé de Cantuária foram os precursores do Ecumenismo entre os cristãos.
O Anglicanismo ainda hoje é eclético e plural, pois dentro de uma mesma Igreja ou Comunhão, convivem Anglo-Católicos, Protestantes, Carismáticos e Liberais. Os desafios da Inclusividade são muitos. Um deles é saber ouvir e apreciar a alteridade, o diferente e aprender com ele. Outro desafio a inclusividade Anglicana está no fato ignoramos a riqueza de cada uma das correntes do Anglicanismo ou fazermos julgamentos preconceituosos pelos estereótipos que temos para com palavras como Católico, Evangélico, Carismático ou Liberal. Para maiores aprofundamentos sobre a inclusividade Anglicana recomendo o Livro do Rev. Jorge Aquino, Introdução ao Anglicanismo, e o seu artigo sobre os Desafios da Inclusividade. Saber que no essencial devemos ter Unidade, no acessório liberdade e em todas as coisas amor, como nos ensinou Santo Agostinho de Hipona.
Não poderia encerrar esse artigo sem lembrar um dos últimos sintomas dessa Síndrome do Exclusivismo que foi a Declaração Dominus Iesus que traz a assinatura do Prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé, Cardeal Ratzinger. Documento, diga-se de passagem, lamentável pois gerou um profundo mal estar entre aqueles que lutam pelo Inclusivismo/Ecumenismo, já que afirmava a superioridade da Igreja Católica Romana e considerava as demais Igrejas do Ocidente (inclusive a Anglicana, que teve uma certa dignidade com o Documento Unitatis Redintegratio) como comunidades eclesiais destituídas de qualquer status divino.
Os evangélicos ou evangelicais por sua vez não podem reclamar muito, segundo o Rev. Carlos Eduardo (Coordenador do CEA - Centro de Estudos Anglicanos), pois em um dos encontros realizados pelo Comitê do Pacto de Lausanne em 1980, na cidade de Pattaya (Tailândia). Ao citar os Católicos-Romanos o documento “Chama-se Cristãos", só abre uma esperança de Salvação para os católicos carismáticos, pois nesse caso alguns são verdadeiramente nascidos de novo. (Chamam-se cristãos II b.1).
Como vimos católicos e evangélicos são bastantes iguais na presunção como interpretam a si mesmos e como interpretam uns aos outros. Os católicos depositam sua segurança na objetividade da Igreja enquanto instituição. Já os evangélicos na subjetividade da conversão.
Que o Espírito Santo, único capaz de promover a Unidade entre os Cristãos (Católicos, Ortodoxos, Anglicanos e Protestantes), nos convença do Pecado, da Justiça e do Juízo e nos faça compreender a ordem do Mestre que disse : "Se vos amardes uns aos outros como eu vos amei, saberão que sois meus discípulos", Amém.
*Catequista da IEAB na Paróquia da Natividade (Natal - RN) Contato: gecionny@bol.com.br