Teólogo Evangélico Analisa Pensamento do Novo Arcebispo de Cantuária

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Teólogo Evangélico Analisa Pensamento do Novo Arcebispo de Cantuária

Alister McGrath2002

Teólogo Evangélico Analisa Pensamento do Novo Arcebispo de Cantuária

Alister McGrath, Ph.D., professor de Teologia Histórica na Universidade de Oxford, reitor do Seminário Wycliffe Hall e professor-visitante no Regente College, Canadá, é considerado o mais importante pensador evangélico da geração pós-Stott. No "Anglican Digest", do Advento de 2002, publicou o texto que se segue:

ALLISTER MCGRATH SOBRE ROWAN WILLIAMS

"O anúncio de que Rowan Williams sucederia a George Carey como Arcebispo de Cantuária causou muito interesse e discussão tanto dentro quanto fora da Igreja. É claro que ele é portador de imensos dons intelectuais e na quase intangível santidade pessoal, que ele traz para o seu papel de Arcebispo - Rowan – todos o chamam por seu primeiro nome, e eu, com satisfação também o faço – é um autor extensivamente publicado e amplamente lido, que claramente crê que pode expressar suas verdadeiras crenças e opiniões na palavra escrita. Um dos comentários mais significativos feitos por Rowan Williams nas semanas recentes tem sido que a mídia tem atribuído a ele pontos de vista que ele simplesmente não defende. Creio que uma olhada mais de perto em seus livros poderia nos ajudar a entendê-lo um pouco melhor, e nos prepararmos para os desafios e oportunidades advindas do seu primado.

Os trabalhos de Rowan, no geral, se enquadram em três categorias:

  1. Trabalhos de teologia acadêmica, incluindo a recente coleção de ensaios Sobre a Teologia Cristã. O melhor trabalho acadêmico de Rowan, em minha opinião, é Ário, um levantamento excepcionalmente bem escrito sobre as origens e características de um dos mais significativos hereges da tradição cristã. Permanece como uma referência de pesquisa na área;
  2. Trabalhos que tratam da espiritualidade cristã, incluindo A Ferida do Saber (seu primeiro livro), e, particularmente, seu excelente estudo sobre umas das principais místicas espanholas, Tereza d'Avila, e seus escritos. Ele também escreveu alguns trabalhos muito bons sobre espiritualidade, inclusive o difícil e premiado Cristo em Julgamento;
  3. Trabalhos propondo um engajamento teológico com a nossa cultura. Em anos recentes, Rowan tem usado o seu profundo conhecimento da tradição cristã para se dirigir a temas que dizem respeito ao espaço público. Alguns dos seus livros mais recentes - especialmente Escrevendo na Areia e Ícones Perdidos – demonstram ser ele um pensador cristão que está profundamente comprometido em se manifestar sobre temas levantados por nossa cultura e oferecer perspectivas e reflexões cristãs.

Ler Rowan demanda tempo e paciência - tempo e paciência que serão invariavelmente recompensados, embora não sejam bens disponíveis em nosso mundo ocupado e estressado. Minha preocupação neste artigo não é oferecer um panorama detalhado sobre seus trabalhos publicados, mas focalizar, em especial, algumas questões (e respostas) que deles emergem, ajudando a obtermos uma melhor compreensão de ambos, o calibre intelectual e a agenda teológica do próximo Arcebispo de Cantuária.

O ponto mais óbvio é que Rowan é um pensador e escritor imensamente hábil e competente, que está claramente determinado a liderar a Igreja da Inglaterra em um novo engajamento com a sociedade e a cultura. Sob os Arcebispos Coggan, Runcie e Carey, a Igreja não presenciou um engajamento teológico com os temas culturais e sociais, mesmo que fossem de premente importância. Tomando como base os ricos recursos teológicos apreciados por escritores políticos russos, tais como Sergii Bulgacov, Rowan dará uma liderança estratégica à nossa missão, à nossa nação e à nossa cultura, em uma época quando muitos têm sentido que a Igreja tem perdido sua proposta e sua confiança. Rowan possui uma visão do Evangelho como uma verdade pública, que pode e deve ser trazida aos debates acerca dos tópicos sociais e éticos na vida da nação e da Comunhão Anglicana.

Isso resultará em um novo desafio para os evangélicos dentro da Igreja da Inglaterra, que têm tendido a encarar a fé como algo relacionado primeiramente a matérias de espiritualidade e de evangelismo. Poderemos nós emergir para esse novo desafio de encorajamento para o engajamento do Evangelho com a nossa cultura? Não há dúvida que muito dos recursos já são disponíveis - por exemplo a útil idéia de John Stott de uma "dupla escuta" (à Escritura e à Cultura, a fim de relacioná-las). O Instituto de Londres para um Cristianismo Contemporâneo tem, também, feito muito para encorajar essa agenda de engajamento cultural. Esse pode ser um momento de oportunidade para os evangélicos recuperarem os temas e as paixões de sua história primeira - por exemplo, a profunda preocupação de um William Williforce com a justiça social. Poderá Rowan prover um estímulo para que recuperemos as preocupações bíblicas para com a justiça social e a ética, sem perdermos a nossa tradicional ênfase na fiel pregação do Evangelho?

A segunda coisa que emerge claramente de um estudo ousado dos escritos de Rowan é que ele desafia a apressada classificação adorada por nossos jornalistas. A etiqueta de "ortodoxo em teologia e liberal em atitudes sociais" tem sido amplamente usada na mídia para sintetizar a complexidade dos seus pensamentos. Útil que possa ser, essa classificação não é adequada, nem faz justiça aos pontos de vista de Rowan. É um pouco inadequado se referir aos pontos de vista sociais de Rowan como sendo "liberais", com o conteúdo que esse termo é normalmente entendido. "Radical" seria um meio melhor de dar sentido à abordagem de Rowan, que apela para a Bíblia e para a Tradição cristã em elaborar julgamentos sobre o social. Não há dúvida de que Rowan é, de fato, ortodoxo na sua maneira de fazer teologia - especialmente sua compreensão da pessoa de Cristo e da doutrina da Trindade. Embora em seu antigo trabalho Ressurreição pareça, a alguns críticos, ser vago em alguns aspectos do evento, é bem claro que Rowan sustenta firmemente a compreensão física da ressurreição (veja, por exemplo, sua mensagem de Páscoa de 2001, com sua assertiva enfática que "Deus trouxe Jesus de volta à vida no seu corpo").

Esse ponto é de particular importância para aqueles evangélicos que temem que Rowan possa ser um outro Richard Holloway. Poderia a ortodoxia dar lugar a algum tipo de agnosticismo de auto-ajuda, muito frouxamente conectado tanto com a Igreja quanto com as realidades vivas da fé? Embora compreenda as razões para essa ansiedade, não vejo sinais disso se desenvolvendo nos trabalhos recentes de Rowan. Alguns apontam para o íntimo relacionamento que duramente existiu entre Rowan e Holloway no passado como se constituindo um motivo para preocupação - por exemplo, na época da formação do movimento “Afirmando o Catolicismo". Ainda que a visão de Rowan desse tipo de catolicismo que ele espera afirmar seja bastante diferente da religiosidade litúrgica secularizada de Holloway.

Eu encontro isso confirmado em um sermão pregado por Rowan na Catedral de Glancester no sábado, 3 de julho de 1993, no qual ele sublinha a importância de se engajar com a tradição da Reforma como meio de enriquecer o Catolicismo. "No seu melhor, a tradição católica pode reivindicar que tem suficiente satisfação e gratidão, e confiança, na sua compreensão de que não vai trazer danos ou menosprezar outras perspectivas, antes deve ser enriquecida e iluminada por elas". Ο Evangelicalismo é, pois, para ser afirmado, antes que percebido como uma ameaça ou um inimigo, antes oferece estímulo e discernimento à “plenitude" ou "completude" da fé católica.

A essa altura chegamos a uma preocupação que é de maior importância para os evangélicos dentro da Igreja da Inglaterra - a saber, a questão da ordenança de homossexuais, um ponto no qual Rowan está claramente em desacordo com a maioria dos evangélicos, bem como com a maioria dentro da Comunhão Anglicana. Uma consulta recente que teve lugar no Wicliffe Hall, em Oxford, trouxe-nos juntamente líderes e teólogos anglicanos de todo o mundo, e se constituiu em uma poderosa lembrança para nós no Ocidente de nossas necessidades nas próximas décadas, para tomar a sério a agenda e a ortodoxia dinâmica dos anglicanos do global sul e leste. Então, como Rowan irá perceber a autoridade do seu cargo ao lidar com essas questões, e a maneira na qual se espera uma resposta da Igreja? Tenho lido os trabalhos de Rowan com cuidado, e, precisamente, tendo essa questão em mente, e creio que o que se segue é uma leitura realista do seu pensamento.

Rowan tem escrito extensivamente sobre temas relacionados com a sexualidade humana, e está firmemente comprometido com a plena inclusão das pessoas homossexuais na vida da Igreja. Não se constituiu em surpresa que a sua indicação tenha sido saudada pelos vários grupos de gays e lésbicas no Reino Unido e na América do Norte. Como comentou Michael Hopkins, presidente do “Integrity": "verdadeiramente não posso imaginar uma melhor escolha para esse posto, do nosso ponto de vista". As posições de Rowan sobre essa matéria, contudo, não resultam de uma absorção acrítica das visões da Cultura Ocidental, mas se baseiam em suas leituras das Escrituras, e, especialmente, sua compreensão da inclusão de Deus dos homossexuais na missão e comunhão da Igreja.

O fato de que Rowan deriva essa visão de suas leituras das Escrituras claramente indica as discussões sérias e potencialmente difíceis que nos esperam. Os evangélicos se acharão perplexos, serão perturbados, que tais posições sejam tiradas a partir das Escrituras, quando eles encontram uma abordagem e ensinos completamente diferentes a partir de suas páginas. Será necessário muita paciência e generosidade de todos os lados à medida que nós explorarmos quão diferentes posições podem emanar de leituras das Escrituras, e possamos dialogar, não tanto para determinar quem está certo ou quem está errado, mas tentarmos navegar uma rota fiel e obediente para a Igreja Cristã nas águas turbulentas que estarão adiante de nós. Eu não posso tratar desse assunto no limitado espaço deste artigo, mas, sem dúvida, se constituirá em um que demandará profunda discussão.

E, ainda, tentará Rowan impor o seu ponto de vista pessoal sobre a Igreja da Inglaterra? Ou sobre a Comunhão Anglicana como um todo? Aqui seu livro provê uma resposta clara: Não.

Em um artigo, altamente significativo, de 1982, sobre a “A Autoridade e o Bispo na Igreja", Rowan falou - talvez profeticamente? - da “figura conectadora e construtora de pontes, que é o Bispo". A autoridade do bispo é “uma autoridade para unificar", como explica, assim, Rowan: “O bispo não toma decisões doutrinárias ou sozinho: a Igreja decide, e o único papel do bispo é garantir tudo o que a Igreja decide".

Em seu sermão do Dia da Ascensão de 2000, Rowan sugere que a história da Igreja pode ser vista como “um conflito entre duas idéias de poder - entre o desejo do reinado e o chamado ao testemunho". O primeiro é acerca do poder, da coersão e da imposição de valores e de agendas; o último é acerca do “poder do testemunho" a criação de uma alternativa que compele por sua atração. Essa última é a verdadeira opção cristã.

A base dos seus livros publicados, eu julgaria que Rowan se percebe como livre para expressar seus próprios pontos de vista e recomendá-los à Igreja, mas de uma forma pessoal, antes que a partir de uma capacidade institucional (como doctor privatus antes que doctor communis, para usar uma antiga diferença). Ele vai encarar o seu papel como aquele que levanta questionamentos desconfortáveis, e os mantém em aberto, catalizando a cristalização da “mente da Igreja". Mas, no final, é a Igreja que deve decidir sua própria mente, e o bispo que deve manter a unidade durante e depois da decisão, antes que lutar pelo triunfo dos seus pontos de vista pessoais.

Os trabalhos publicados por Rowan são inequívocos: um bispo deve respeitar e seguir pelo que a Igreja concordou. O ensaio de Rowan de 1982 sugere que ele não está inteiramente persuadido da racionalidade teológica do governo sinodal; não obstante, o Sínodo Geral é o fórum no qual tais discussões terão lugar, e tais decisões serão alcançadas.

Os evangélicos, devem, pois, se assegurarem de que estarão plenamente articulados, e intercessoriamente representados nessas deliberações e discussões, de modo que a “mente da Igreja" possa ser fielmente discernida. O isolamento, o desengajamento, simplesmente não é uma opção responsável aqui.

Eu chego a esse detalhado estudo dos escritos de Rowan muito mais encorajado e positivo do que eu próprio esperaria. A conclusão inescupável que eu tiro dos trabalhos publicados por Rowan é que os evangélicos encontrarão nele alguém que compreende suas posições e preocupações, e estará pronto para encorajá-los em sua missão e ministério.

Eu estou, portanto, com uma atitude positiva para com a indicação de Rowan, e as oportunidades e desafios que ela traz. Concordo plenamente que algumas questões difíceis permanecem por serem exploradas, e espero que algumas conversações plenas, francas e esperançosas possam vir a acontecer - de fato, estou muito feliz em ver se eu próprio posso incorporá-las. Rowan, creio, desejará trabalhar com os evangélicos nas tarefas da missão, do evangelismo, e do engajamento cultural que estarão diante de nós. Essa é uma possibilidade que deveremos tomar com a máxima seriedade".

(Originalmente publicado no "The Church of England News Paper)

N.T. A expressão "radical" em inglês não corresponde a "extremista", como se entende em português, mas a "autentico", "profundo", "que vai à raiz da questão (do original radice=raiz)".

Tradução: Dom Robinson Cavalcanti, ose Divulgação: Diocese Anglicana do Recife Secretaria Diocesana de Educação Ordem Evangélica de Santo Estevão Mártir Janeiro de 2003.

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