Todas as coisas necessárias para a salvação

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Todas as coisas necessárias para a salvação

Frederick Houk BorschData desconhecida

TODAS AS COISAS NECESSÁRIAS PARA A SALVAÇÃO

Frederick Houk Borsch

O estado atual anglicano com referência ao lugar da Bíblia na Igreja desenvolveu-se dentro da história dos latitudinários - teólogos do século XVII, que apelavam à Escritura, Razão e Igreja, e interessados no saber humano. Temos reconhecido as razões políticas e históricas - que remontam, no mínimo ao século XVI - de certo grau de ambivalência e medidas de ampla tolerância na compreensão do caráter da autoridade e inspiração da Bíblia. Na medida em que os anglicanos podiam concordar que a Bíblia tinha papel central e, de certo forma, crucial na fé e na prática (especialmente, na adoração), talvez esse fosse mais o que poderia esperar. “Não existe um dogma exato sobre a inspiração que se espera receber como exigido de um eclesiano” que Charles Gore sustentava com certo orgulho. E dizia, também que “certamente, ninguém tem o direito de impor aos seus seguidores qualquer crença particular sobre a inspiração, sua natureza e seus limites". A necessidade tornou-se, em certo sentido, uma virtude na medida em que a Bíblia veio a ser mais amplamente acessível em inglês e mais gente aprendia ler. A capacidade da maioria dos indivíduos para ouvir e ler a Bíblia e para tomar decisões espiritualmente orientadas por si mesmos com um mínimo de orientação da liderança da Igreja foi considerada, no mínimo, em algumas partes da Comunhão Anglicana, como sendo um sinal de fortalecimento, sinal de maturidade que ela esperava de seus membros. “A dispersão da autoridade no anglicanismo está enraizada na convicção de que os cristãos para os quais as Escrituras são lidas em sua própria língua (especialmente, no contexto da liturgia) são capazes de discernir os essenciais da fé" (S.Sykes)

Há, todavia, os perigos óbvios envolvidos em fazer de uma serie de escritos tão central da vida da comunidade de crentes e deixar suas interpretações tão abertas. A centralidade pode sugerir a muitos uma compreensão de que a Bíblia pode e deve ser usada com tamanha autoridade legalista que outros não estão desejosos de aceitar. Ou algumas partes da Bíblia são usadas dessa forma e outras partes sem muita reflexão prévia e aprofundada e pode-se resultar em confusão de argumentos e falta de integridade. As Escrituras podem tornar-se uma causa de divisão, ao invés de fonte de unidade da comunidade e de comunidades da Igreja.

Um perigo oposto está em que a Bíblia poderá ser altamente honrada, mas não levada a sério, profusamente mencionada, mas não aplicada para a fé e prática com rigor e consistência. Na medida em que as marés do relativismo, o método científico e a crítica histórica tornam mais problemáticas as formas pelas quais a Bíblia é ouvida, então a Bíblia vem a ser mais reverenciada do que lida. As mais variadas traduções aparecem e a encadernação fica mais bela a cada dia, a Bíblia fica nos estantes. As passagens das Escrituras são mais veneradas nos ofícios litúrgicos da Igreja do que ouvidas e expostas. Como, então, a bíblia pode ter o lugar de autoridade na vida da Igreja e de seus membros outra que bajulação.?

Não há dúvida que as Igrejas da Comunhão Anglicana vivem hoje com a maioria desses perigos e, com freqüência, passam por eles, às vezes, severamente. Há horas em que os perigos se juntam e as pessoas sentem-se dogmaticamente espancadas com a Bíblia que não se lê. A Escritura pode ser usada para atacar ou apoiar quase qualquer idéia por aqueles que conhecem os pedacinhos do conteúdo da Bíblia sem dar atenção a qualquer princípio de interpretação.

Não obstante, é o argumento deste capítulo que há muito na abordagem anglicana contemporânea da Bíblia que pode ser reconhecido afirmativamente como sendo corretamente orientada pela própria Escritura, pela experiência de seu uso e pela reflexão com sabedoria e oração sobre a função da Bíblia na fé e vida cristãs. Os perigos que estão envolvidos em aceitar a função central e única na fé cristã, embora ainda se faça sua autoridade relativa a outros aspectos da experiência cristã, são riscos que devem ser assumidos. Se, todavia, a Bíblia deve ter o seu papel próprio, medidas devem ser procuradas para contrabalançar, ou, pelo menos, minimizar os riscos.

Procedamos lembrando-nos de certos aspectos históricos e característicos da Bíblia. Então, consideremos como a Escritura pode melhor ser considerada como uma fonte inspirada de revelação para a Igreja e como pode ser vista sua autoridade. Reflitamos, finalmente, sobre a compreensão e medidas que a Igreja de hoje poderia usar para assegurar a função própria da Bíblia.

NAS COMUNIDADES DA FÉ

A Bíblia surgiu da experiência das comunidades que acreditaram que Deus estava misteriosa e decisivamente presente e ativo entre elas. É de importância crítica lembrar-se de que as comunidades da fé precederam à composição da Bíblia e eram contextos de seu desenvolvimento e redação. Durante os estágios em que foi composta a Bíblia (no período de mil anos), as comunidades interagiam com as partes da Bíblia que já haviam sido escritas e faziam comentários desses textos e aditamentos.

Como a Igreja surgiu após a vida, morte e ressurreição de Jesus, a única Escritura que ela conhecia era a Escritura do judaísmo. Os escritos do Novo Testamento eram, de certa forma, comentários das Escrituras mais antigas à luz do evento de Cristo, mas também trouxeram mudança na interpretação da história de Israel para os cristãos. Então, naturalmente, era ainda um período de vários séculos antes de a Igreja chegar a uma concordância aproximada sobre os quais livros deveriam ser considerados como tendo autoridade para a fé cristã. Através desse período, mais especialmente em seus estágios iniciais permaneceu um senso vigoroso de que o que tornava uma pessoa cristã foi o contacto pessoal com o Cristo ressurrecto por meio da comunidade contínua dos discípulos e o conhecimento das estórias básicas e ensino da fé por meio dessa comunidade. Entre as primeiras gerações de cristãos foi nas palavras ditas e não nas escritas que o Cristo vivo foi encontrado do melhor modo e se ganhava um senso da presença de Deus no mundo. O Deus, que não pode ser encontrado e nem capturado nas formas fixas de declarações escritas, pode misteriosamente ainda ser ouvido na dinâmica das comunidades em contínua pregação e “re-narração” de suas estórias. Só gradualmente as Escrituras vieram ocupar o seu lugar como fonte de inspiração e testemunho da fé que poderia ser dito estar em mesmo nível do contínuo ensino oral da comunidade, as quais poderiam ser usadas não só como guia, mas também corretivo desse ensino oral. Desde esse tempo, no interior da maioria das tradições cristãs, houve, no mínimo, certa consciência de que a Bíblia é o livro da comunidade e deve estar, de alguma forma, em dialética com a contínua comunidade de fé para sua própria compreensão e interpretação. Talvez, deve ser lembrado acima de tudo que o melhor meio da continuidade do cristianismo e sua propagação (pelas razões teológicas e práticas) é o de pessoas para pessoas. É nesse contexto a Bíblia encontra seu papel mais tradicional.

DIVERSIDADE NA BÍBLIA

Observamos que a Bíblia foi composta no decorrer de um período de dezenas de séculos. Ela tem sua procedência nas diversas culturas e várias línguas. Mesmo num período relativamente breve do Novo Testamento, reconhecemos que diversas comunidades e perspectivas influíram fortemente no que foi escrito e na maneira de sua apresentação. Certamente, o grupo que recebeu a Carta aos Hebreus parece muito distinto daquela que recebeu a Carta de Tiago. A comunidade cristã em Corinto deve ter se diferenciado amplamente daquela que, primeiro, ouviu o Evangelho de Mateus. Os quatro Evangelhos são transformação em textos escritos de uma história de várias décadas de ensino, controvérsia, perseguição, do recontar, e da adoção de forma, que resultaram em ênfase muito particulares. Também os diferentes autores do Novo Testamento tiveram sua atitude distinta para com as Escrituras judaicas e aplicaram-lhes métodos diferentes de interpretação.

A consciência dessa diversidade tem causado, às vezes, angústia aos crentes que esperam encontrar na Bíblia um testemunho mais unívoco da forma e caráter da fé. Todavia, essa mesma consciência tem sido iluminação e auxílio para outros que tentam entender construtivamente a diversidade de ênfases existentes no cristianismo, e, em particular, na Comunhão Anglicana. Se o cristianismo tinha, desde o início, alguma coisa dessa natureza, talvez, tal pluralismo pode ser observado como teologicamente e historicamente benéfico um dado que não é um desenvolvimento posterior, mas que é essência da experiência cristã. Independentemente de nossa reação para com a diversidade e pluralismo na bíblia, devem eles ser tratados, todavia, como uma das realidades históricas para a interpretação bíblica.

Por vezes, essa diversidade pode ser acolhida com facilidade: diferentes perspectivas sobre Jesus aprofundam a compreensão de alguém a respeito de tudo que Jesus pode significar para a humanidade. No entanto, noutras vezes, a Escritura parece falar com tais diferentes vozes a ponto de ser ambigua, pelo menos, se não paradoxal ou até contraditória. Deus e suas criaturas humanas têm alguma forma de semelhança e relação. Deus pode ser falado antropomorficamente. Todavia, Deus e seus caminhos são completamente diferentes, virtualmente incognoscíveis à parte da revelação. Deus é um Juiz severo e implacável, mas sua misericórdia é generosa e acima da medida humana. Seres humanos, suas ações e escolhas estão quase inteiramente sob controle divino. Não obstante, os seres humanos são responsáveis pelo que fazem. Já começou o Reinado de Deus, porém está no futuro. Pode-se falar dele como um lugar e como experiência interior. Jesus é plenamente humano e, também, Ele é plenamente de Deus.

Pode-se fazer das aparentes contradições paradoxos e, então, resolve-las, porém, pode-se começar reconhecendo que o próprio caráter dialético de tão grande parte da Bíblia tem esse propósito. Parece afastar a quem deseja ter respostas fáceis e estabelecer soluções para as questões e preocupações religiosas. Talvez, especialmente, no ensino de Jesus aparece, às vezes, resposta ambigua estudada, parábolas e enigmas, que inicialmente interrompem aqueles que buscam resposta direta às suas perguntas: Como é o reinado de Deus? Que devo fazer para herdar o reinado de deus? Quantas vezes o meu irmão pode pecar contra mim e devo perdoar? Por que comes com os pecadores e publicanos?

A resposta de Jesus é palavras e ações que falam nos cegos que vêem, e nos surdos que ouvem, enquanto os que têm aparentemente boa visão e audição não enxergam Jesus e nem o ouve. Os que anteriormente eram considerados inaceitáveis sentam-se agora à Mesa. A calamidade deve ser vista como uma nova oportunidade. Há repentina e misteriosa abundância e maravilhosa graça. Suas parábolas começam freqüentemente em meio às circunstâncias do cotidiano: nas fazendas, nos campos, com dois irmãos, refeição, semeadura e colheita. Mas, na medida em que as estórias progridem elas sofrem voltas e reviravoltas. Na medida em que a estória parece menos plausível na sua superfície, aparecem estalos no que antes se pensava ser uma realidade aparente e o ouvinte é indagado a procurar uma verdade mais profunda. É convidado a ter parte em várias figuras na estória e compartilhar sua experiência. O movimento metafórico no coração da parábola atrai o ouvinte para ver se ele pode perceber novas possibilidades com respeito a presença e atividade misteriosas de Deus no mundo o que Jesus falou como sendo o reinado de Deus. É como se dissesse que se alguém olhasse só a superfície da coisas não tem olhos para ver e ouvido para ouvir como Deus está presente em sua criação. O processo tem sido descrito como o de “reorientação por meio de desorientação” Para alguém se tornar consciente do reinado de Deus é preciso um novo ouvir, uma nova visão e uma nova esperança (o que os Evangelhos denominam de metanoia, arrependimento - mudança de coração e mente).

Mui freqüentemente as parábolas trabalham com a inversão, apontando para a consciência de que a atividade do reinado de Deus é surpreendente e inesperado. O inesperado exige, também, resposta. Novas formas de relacionamento entre senhores e escravos, irmãos, pais e filhos referem-se a uma nova ordem do reinado. O tema repetido das parábolas envolvem ter, perder, e achar, ou esconder e descobrir. Deve-se procurar, embora a descoberta possa vir como dom. Este processo não é apenas um tema, mas também a estrutura de muitos dessas estórias: o ouvinte deve procurar o sentido. As estórias sugerem mais do que isto: as verdades mais essenciais e fundamentais da vida não podem ser facilmente expressas ou prontamente apreendidas. Deve-se fazer a busca.

PARTICIPAÇÃO POR MEIO DA NARRATIVA

É preciso investir-se - participar para entender. Genuíno conhecimento e entendimento vêm só por meio da participação. A narrativa e o uso aliado do símbolo e metáfora convidam continuamente essa participação. É bem possível acreditar que essa é uma entre muitas razões porque muito da Bíblia está na forma de estória e que todas elas estão colocadas na moldura do drama bíblico de um perdido e encontrado, vida perdida e reerguida. Naturalmente, isso é verdade também com o Antigo Testamento e vários comentaristas recentes têm ajudado os leitores a perceber como pequenas fendas nas estórias, ambiguidades envolvidas nos diálogos e na apresentação das personagens, mudança de perspectivas e outros aspectos do contar a estória atraem as pessoas à narrativa e insinuam as verdades e mistérios a respeito da vida que podem ser expressos em nenhuma outra forma.

Os intérpretes estão ajudando os leitores a ouvir modulações da Bíblia que eram mais acessíveis às primeiras gerações. Durante últimos dois séculos vários movimentos culturais e intelectuais levaram os cristãos a crer que havia apenas duas perguntas importantes deve-se perguntar diante das passagens bíblicas: isto aconteceu ? (ou como aconteceu?) e o que significa? Considerando os benefícios potenciais e os desafios dos novos métodos históricos, a primeira pergunta tornou-se o foco predominante os críticos liberais e conservadores. Então, como outras disciplinas e áreas da pesquisa humana tornou-se mais orientadas para produzir respostas às perguntas e apresentar as afirmações em linguagem proposicional, também pareceu importante ser capaz de expor as verdades bíblicas nas formas semelhantes. A narrativa veio a ser considerada secundária. A tarefa do expositor consistia em extrair o sentido da narrativa e depois a estória poderia ser descartada ou usada para fins de ilustração. Isso era alguma coisa como alguém que pudesse exaurir o valor do Rei Lear investigando suas raízes nos antecedentes históricos, então, se extrai a mensagem de que o verdadeiro amor não fará sua propaganda em seu benefício e pode descobrir isso tarde demais. A estória será preservada só para ilustrar esses pontos principais.

Felizmente, houve sempre os movimentos em ação que ajudaram os anglicanos a preservar a consciência da primazia da narrativa na teologia biblicamente fundamentada - reconhecimentos de que as estórias da Bíblia não são ilustrações da Palavra de Deus. Elas são a Palavra. Aqui o conservadorismo geral de muitos estudiosos e eclesianos ingleses não tem sido sem benefícios. Foram menos ligeiros para crer que as novas abordagens de estudo bíblico fossem todo-suficiente - que não houvesse outras formas de conhecimento. Aqui, também, os dons competentes de narrativa e poesia ajudaram na consciência de que a estória e a metáfora proporcionavam meios de compreensão que não poderia ser plenamente compreendida pelas linguagens da lógica, da ciência ou do empenho com a exatidão histórica. A descrição apocalíptica e as estórias da criação, por exemplo, soaram cordas mais ricas de significado o povo havia ouvido suas personagens poéticas e simbólicas mais profundas. A apreciação da capacidade da metáfora dizer o que de outra maneira não poderia ser dito o mesmo pensado ajudaram a preservar a linguagem religiosa de se tornar ou idolátrica ou irrelevante. Deus é pai, mas não deve ser Deus identificado literalmente com idéias humanas de um pai. A atividade e presença de Deus são reinado e banquete, mas de maneira que, ao mesmo tempo, são semelhantes e diferentes que as metáforas conotam. As metáforas só vivem quando há participação em sua criatividade criadora de tensão. A herança ou presença entre os anglicanos de Shakeaspeare, Donne, Herbert, Milton, Carew, Blake, Keble, Trollope, Austen, Eliot, Auden, Lewis e Paton preservam essa consciência aguda.

O máximo valor em relação a isto tenha sido, provavelmente, o papel central da bíblia na liturgia. A leitura regular da Escritura no contexto dramático da adoração comunitária junto com os temas e figuras bíblicos nas palavras da liturgia através do ciclo do ano cristão pode causar uma nova capacidade de ouvir o poder narrativo da Bíblia. Este ato de conhecer pelos participantes da adoração e pela congregação os ajuda a interpretar as oportunidade contemporâneas do serviço, dos sofrimentos e ausência de Deus, no entanto, um senso da proximidade de Deus, tudo à luz do drama bíblico. Os temas, metáforas e tramas das estórias da Escritura (não apenas o seu significado superficial, mas no nível mais profundo de sua leitura e oitiva) são catalisadores para contar novas estórias da fé e graça nas suas vidas. Assim a Escritura forma o caráter da comunidade e dos indivíduos nela, moldando sua compreensão do bem e do mal e informando o caminho que eles vivem e as escolhas que eles fazem.

HISTÓRIA E ESTÓRIA

Esta abordagem da Escritura como narrativa e como formas de parábola e poesia no contexto narrativo não responde a todas as nossas indagações. A maioria das pessoas do século XX tem preocupações a respeito da relação da Bíblia com a história e sua autoridade sobre suas vidas que exige estudo histórico, formas de exegese e análise à luz da experiência e uso da razão. Em alguns casos, tal como a estória de Jó ou a parábola do filho pródigo, qualquer relação da estória com o evento histórico pode não ter importância. Em outros casos, tais como a estória do nascimento virginal de Jesus é possível que os leitores reconheçam junto com William Temple que as questões históricas, embora não sejam irrelevantes, poderiam nos levar a não alcançar o propósito teológico central das narrativas. No entanto, quando se aborda a maneira como Jesus enfrentou a morte, e a ressurreição, a maioria das pessoas sente o aperto das preocupações históricas de modo mais agudo.

Em todas essas instâncias, os discípulos de hoje podem encontrar o grande valor na informação reunida pelos arqueólogos, sociólogos, historiadores da literatura e outros estudantes da Bíblia e suas colocações. A informação pode, acima de tudo, ajudar-nos a reconhecer, às vezes, quão grande distância existe entre as formas contemporâneas de ver o mundo e as do passado. Então, o leitor informado da Bíblia reconhece quão facilmente algumas das preocupações e atitudes originais dos escritores bíblicos podem ser mal interpretados. De muitas maneiras, viviam num mundo, ao passo que os discípulos de hoje vivem num mundo muito diferente. A visão de ambos é limitada dentro de seus horizontes particulares.

Essa consciência pode ajudar-nos em conseguir perspectiva sobre nossas maneiras de ver o mundo - lembrando-nos de que propriamente o nosso ponto de vista é relativo e altamente condicionado por muitos costumes contemporâneos e convenções de educação e cultura. A Bíblia tem a vantagem de pertencer a nenhuma cultura contemporânea e assim desafia todos os povos a não ser prisioneiros da visão da vida de hoje. Esse desafio pode levar aos esforços construtivos de ver como os horizontes do presente e do passado possam tocar, causando alguma participação. Suas vidas podem adquirir maior profundidade e tonalidade de cores, por meio de melhor compreensão do mundo dos primeiros discípulos suas circunstâncias e formas de ver e interpretar as coisas. Considerando a crença de que existem alguns aspectos da natureza humana mais duradouros que são compartilhados por muitas gerações e eras, pode-se chegar a ver, ouvir e sentir alguma coisa do mundo deles.

No entanto, trazemos à memória de que os dados e análises históricos não podem por si mesmos criar essa visão. É também preciso ter o esforço imaginativo e o veículo da imaginação - a máquina do tempo - o qual é a participação na narrativa. Tanto a compreensão histórica e o engajamento direto com o texto são necessários para a leitura plena e equilibrada da Bíblia.

Entretanto, mesmo esta abordagem equilibrada não será uma resposta definitiva a todas as questões difíceis que a mente inquiridora traz à Bíblia a respeito da relação da estória da Bíblia com os eventos históricos. Além dos abismos profundos na compreensão criada pela distância dos séculos, pode-se reconhecer que os escritores bíblicos não estavam pensando em termos das questões indagadas pela mentalidade historicamente treinada de nossos dias. Muitas das estórias poderiam ser melhor denominado de "similares a história" do que a história nos termos atuais. A maioria das narrativas bíblicas poderia ser melhor descrita como estórias que utilizam os elementos históricos ao invés de história na forma de estória. Os eventos que aconteceram na história serviram como catalisadores das estórias que foram transmitidas e, mais tarde, tomaram a sua forma por meio de experiência da fé que a comunidade teve. Qualquer esforço humano de relatar e entender envolve, naturalmente, tal processo de interpretação em maior ou menor grau. Mesmo o que se está vendo e ouvido no presente momento é determinado, em grande parte, pelo que se procura e pela forma com que foi treinado para perceber por meio de memória e intelecto. Neste sentido, compreendemos que todo o conhecimento é resultado de interpretação, porém esse esforço interpretativo parece ter sido importante na formação das intuições e estórias bíblicas. Quando se indaga como a Bíblia pode ser pensada como uma obra inspirada, é possível que seja mais útil focalizar o processo interpretativo.

INSPIRAÇÃO

Tem-se formulado uma variedade de considerações sobre compreensão da inspiração da bíblia. Às vezes, a ênfase recai nas próprias palavras como sendo inspiradas e portadoras em si mesma da revelação. Talvez, noutro extremo do espectro o destaque esteja na presença de Deus nos eventos específicos que o povo de Deus relatava, então, da forma melhor que pudesse. Um ponto de vista anglicano mais comum é uma ênfase intermediária na Escritura como sendo a Palavra de Deus porque “Deus inspirou os autores humanos”. Isto deixa mais abertos os problemas tais como de que modo se pode conhecer que Deus agiu numa circunstância particular e se esse evento deve ser relatada com exatidão para ser fonte de inspiração futura. Também, não se exige uma crença na inerrância verbal da Escritura.

Examinando mais estreitamente, pode-se sugerir que o próprio processo interpretativo é a inspiração - essa capacidade distintamente humana para contar a estória acerca do que aconteceu - que é mais particularmente o domínio da atividade reveladora de Deus. Com efeito, da perspectiva humana, há muitas vias em que a interpretação é o que acontece quando a mente procura propiciar a conectividade e significação à experiência presente, alinhando-a com o passado por meio da memória, com o futuro pela imaginação. Talvez deva-se reconhecer que a inspiração do Espírito de Deus (em cuja imagem somos criados) esteja na capacidade humana de dar forma de estória aos acontecimentos e dos meios afins de interpretação. Talvez mais particularmente, deve-se conceber o Espírito Santo aquela atividade “mediadora" de Deus, que possibilita a interação humana com os eventos do mundo material e criar oportunidade de propiciar a esse mundo o significado.

A ênfase aqui recai, claramente, numa visão mais subjetiva do que objetiva de inspiração, mas, porque ela tende a localizar a atividade de Deus entre o que acontece no mundo material e o mundo humano de interpretação, é, pelo menos, está relacionado com a objetividade e subjetividade. É possível que a vantagem dessa posição esteja nas pistas que ela pode proporcionar aos discípulos de hoje, sugerindo-lhes como eles podem alinhar suas expectativas da inspiração que vem da Bíblia com a atividade de Deus entre aqueles que compuseram a Bíblia. É por meio do processo interpretativo que se realiza a inspiração. Existe interação entre a estória e os eventos que os discípulos procuram, consideração entre a narrativa (e outras formas de interpretação) e o que acontece, sobre tema, propósito e significado. Nesta batalha para usar palavras e estórias para entender que o cristão crêem que ouviram Deus.

Visto desta forma, não só a obra de interpretação é considerada inevitável, mas também é avaliada como a arena principal da ação do Espírito Santo. Aqueles que hoje considerariam a Bíblia como inspirada podem confirmar esse senso de inspiração em sua própria experiência. Com efeito, a única forma de legitimar a inspiração da Bíblia é por meio de tal correspondência na experiência atual da interpretação da Bíblia e da vida.

Mais uma vez, faz-se idéia de como e por que a participação é exigida e a estrutura narrativa é tão importante. Na medida em que se torna parte do processo interpretativo, o que foi mais uma observação pode ser aprofundada ao ponto de adquirir percepção para a sua própria vida. Então, se essa percepção parece ser um dom e ter parte na verdade que é essencial a toda a vida, será denominada de revelação. Porém não há tal revelação só por uma mera leitura e oitiva. Ela não toma o seu assento em cima de uma página impressa. Deve-se entrar e mergulhar. É uma espécie dessa experiência que mais exatamente pode ser chamada oitiva fundamental da Bíblia. É isso que se espera que a Bíblia faça para os cristãos - ajuda-los a descobrir, ver, ouvir e encontrar perspectiva sobre questões de importância fundamental para a vida.

Nem todas as questões a respeito do relacionamento com o evento histórico, interpretação e inspiração são assim respondidas. Ainda podemos desejar uma correlação mais estreita entre a estória semelhante a história da Bíblia e o que podemos considerar como história real. Todavia, demos nos lembrar de que o que os autores bíblicos procuraram relatar é o que pode ser designado de “história efetiva”- isto é, o que eles consideram como o pleno significado dos eventos na inter-relação com o modo como eles creram ser guiados por Deus para interpreta-los e com a forma como seu entendimento dos propósitos divinos os levou a perceber o mundo em torno deles. Qualquer outra forma de narração seria senão deslizamento sobre a superfície dos eventos e passar por cima do seu potencial para se tornar parte do processo de revelação.

Somos lembrados com Bispo Gore de que nenhuma doutrina ou teoria de inspiração se exige dos anglicanos. Provavelmente, nenhum ponto de vista possa ser adequado a tal amplo tópico que trata de como os humanos chegam a conhecer (e pensar sobre o conhecimento) e da possibilidade da presença de Deus no mundo e da interação com a experiência humana. Também é verdade, provavelmente, que a nossa abordagem do problema da inspiração deve mudar, na medida em que a nossa visão mundo passe por alteração - na medida em que, neste caso, vivamos em diferentes mundos. Entretanto, o nosso debate sobre este ponto não nos permite uma atitude ampla para com a inspiração que se focalize sobre a relação entre o processo interpretativo e experiência e Deus em ação nesse encontro vivo. Permite, sim, o escopo de um senso da presença divina em relação com os eventos e entre os que compuseram a Bíblia por meio de suas palavras registrada. O debate, também, tem ressaltado, acreditamos, corretamente o modo com que a participação no processo interpretativo seja necessária para que a revelação aconteça. Por outro lado, a Escritura convida essa participação e pode atrair seus ouvintes por meio das narrativas. Porém, é também essencial que os ouvintes se dediquem, pelo menos, à expectativa de que a revelação pode, então, acontecer. A disposição e o desejo de ouvir Deus são requisitos. Nestes termos a Bíblia fala de fé para fé.


Assim, a dança emaranhada continua - cheia de cortesias e mesuras dentro da comunidade da fé, que só ela pode tomar decisões acerca de sua fé e prática. Conduzida no seu ensino pelos bispos como representantes visíveis da continuidade e unidade tradicionais da Igreja, com o uso da experiência e razão e com a Bíblia como Cânon das estórias-modelos, a comunidade dos discípulos procura conhecer e fazer a vontade de Deus. Embora os cristãos possam ter preferência por outra forma ( queiram receber uma forma mais absoluta de autoridade), este é evidentemente a forma que Deus deseja que a autoridade seja experimentada pelos seus seguidores. Orientada pela Bíblia e guiada pelo Espírito Santo, a autoridade se desenvolve no interior da comunidade.

FACE A FACE COM A DIREÇÃO DE DEUS

Entretanto, as tensões referentes à autoridade e ao uso da Bíblia podem ainda se tornar destrutivas, se a Bíblia for usada erroneamente. No período da Reforma, a bíblia foi ouvida e proclamada como equilíbrio para certos aspectos do que foi considerado de tradição errônea, a inclinação foi infelizmente fortalecida uma tendência de usar a Bíblia como um livro de resposta com textos comprobatórios com referência às questões de vida e prática da Igreja. Muitos herdeiros da Reforma usaram a Escritura para estabelecer os argumentos tanto grandes como pequenos, inconscientes ou ocultando-se dos fatos de que eles tinham, também, de recorrer à razão e à sua própria experiência e compreensão de suas tradições para interpretar a Bíblia. O resultado compreensível foi o processo que dividiu o Cristianismo reformado em centenas de denominações, cada qual afirmando ser mais biblicamente baseada.

No entanto, a Bíblia não é um livro de resposta. Ela pode falar vigorosamente a um bom número de questões e preocupações contemporâneas, mas a sua voz será distorcida quando for solicitada a dar resposta específica às questões que seus autores humanos nem mesmo tinham entendido. Além disso, não é intenção principal da Bíblia ser um livro de resposta em seu tempo. Se fosse, só se poderia imaginar que teria sido escrita de modo diferente. Há, por certo, passagens (especialmente, nas partes mais antigas do Antigo Testamento) que fala especificamente às questões particulares, porém com mais freqüência o ensino tem caráter mais geral. Pode-se ouvir, nos Evangelhos, o esforço deliberado da parte de Jesus esvaziar as preocupações daqueles que desejavam Dele o pronunciamento nova lei ou um novo código ético. Por meio de perguntas e estórias Ele pede dos que Dele aprenderiam a pensar na autoridade e responsabilidade em novas e diferentes formas.

A estória mestra neste respeito é a Parábola do Bom Samaritano, colocada no contexto do diálogo entre Jesus e um mestre da lei, que tipifica um indivíduo que procura usar a lei como árbitro absoluto de sua vida (Lc 10.25-37) Jesus ouve a pergunta inquiridora (Que farei para herdar a vida eterna?) como um convite para um debate sobre a lei e qual delas tem precedência. O mestre da lei sabe que os mandamentos do amor são soberanos, mas ele sente a necessidade de encontrar uma forma de sua aplicação legalista. Jesus pareceu ter ouvido o mestre e sua necessidade com muita atenção. Ele reconhece que o mestre está, na realidade, perguntando o oposto do que ele pense estar indagando. Sua preocupação não consiste em saber que são todos os próximos que ele possa amar. Ao invés disso, ele deseja saber a quem ele deve amar e a quem ele pode desconsiderar como próximo e colocá-lo fora de sua preocupação ética. Ele realmente quer saber “quem não é meu próximo?” Confrontado com todos os que poderiam exigir dele caridade e bondade, o mestre da lei quer uma lei religiosa para poder dizer a quem pode colocar fora de sua preocupação embora ainda se considere como uma pessoa ética.

Jesus responde com a estória de uma pessoa ferida que foi socorrida por alguém que não precisava levantar a questão do mestre da lei. A parábola muda dramaticamente todo o foco da discussão da preocupação negativamente orientada sobre o ser ético para a possibilidade de praticar a bondade de modo genuíno. Os ouvintes tornam-se conscientes de que seu problema não está tanto em não saber o que fazer ou como deve-se portar. A dificuldade deles está na falta do poder de tentar amar seu próximo como a si mesmos.

Evidentemente, Jesus não teve a intenção de apresentar uma nova série de leis ou sistema ético.. Suas estórias não proporcionam tanto as respostas, mas a direção em que a pessoa deve enfrentar a descoberta do verdadeiro caráter da vida eterna - a vida do reinado de Deus. Temos observado que Ele exigiu a metanoia - arrependimento que leva uma nova maneira de ver a vida e o viver, a retidão que exceda a dos escribas e fariseus (Mt 5.29), não mais numa lei escrita, no poder do cuidar de outrem, do perdão, da aceitação e da cura.

"A Bíblia", disse Phillips Brooks, “é como um telescópio. Se alguém olha através telescópio, ele vê o mundo para além do próprio telescópio. Mas se ele olha para o telescópio, ele não verá nada senão o telescópio. A Bíblia é esse através do qual se deve ver o além, mas a maioria olha para ela e vê apenas a letra morta." Com efeito, imaginar e adorar um Deus que poderia, de alguma forma, ser definido pelas palavras humanas seria uma forma de idolatria que não leva ao crescimento e à maturidade humana, mas à estreiteza e morte. Não é intenção da Bíblia ser um código escrito que mata, mas um veículo do Espírito Santo que dá vida.(2Co 3.6). A Bíblia aponta para além de si mesma como a Parábola do Bom Samaritano para a pessoa ferida, para aquele que tem o poder de curar. A pessoa ferida é o Cristo em todos os famintos e sedentos, forasteiros, doentes, prisioneiros, a quem os discípulos devem servir. (Mt 25.35-36) Também Jesus está na Parábola como alguém que estende a mão em compaixão. Não apenas Ele contou as estórias, mas na memória dos discípulos Ele era o Bom Samaritano para o Bartimeu e Zaqueu, e para o paralítico e pessoa endemoninhada, mulher siro-fenícia, Maria Madalena e para muitos outros.

O mesmo da lei é indagado se não desejaria agir como o Bom Samaritano ( a palavra é repetida quatro vezes no diálogo. Não é um debate teórico. A parábola trata do poder de amor.) Então, a lei pode ser guia, mas corretamente interpretada, é também fonte de liberdade e poder para a nova vida. Os discípulos contemporâneos muito bem ouvir a si mesmo como sendo desafiados quanto ao uso da Bíblia.

O RISCO DA LIBERDADE BÍBLICA

Tal liberdade é cheia de riscos. A Bíblia deve ser central e essencial para vida de testemunho cristão e discipulado, mas ela não é absoluta em sua autoridade. A liberdade de ouvir o Espírito que guia toda a Bíblia para ninguém “expor uma parte da Escritura de modo que seja repugnante para a outra parte" possa apresentar desafio tal qual o mestre da lei se sentiu atemorizado quando lhe foi solicitado se ele seria capaz de disputar com o Samaritano. Os discípulos contemporâneos são chamados para serem mais honestos e mais diretos com respeito ao fato de que todas as tradições cristãs, na prática, se não em teoria, “reconhecem que algumas partes da Bíblia têm mais autoridade do que as outras.” É importante aqui, provavelmente, ressaltar, também, o corolário inverso: algumas partes são de menos importância para a vida cristã contemporânea do que outras. Aceitar com fidelidade esse reconhecimento pode levar a uma nova liberdade para a Igreja adorar o Deus vivo e tentar ser o povo de Deus nesta geração, ao invés de travar batalhas ou continuar com os argumentos que pertencem ao passado.

No entanto, isto não significa que essas partes da Bíblia consideradas menos significativas para a vida de hoje

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