Uma Teologia Aturdida? A Teoria e a Prática da Eclesialidade Evangélica

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Uma Teologia Aturdida? A Teoria e a Prática da Eclesialidade Evangélica

J. I. Packer2003

Uma Teologia Aturdida?

A Teoria e a Prática da Eclesialidade Evangélica

J. I. Packer

J. I. Packer, atualmente aposentado, é um dos mais conhecidos e respeitados teólogos evangélicos anglicanos, que se autodefine: “cristão por conversão e calvinista por convicção, falo como um evangélico que encontra o seu lar na família anglicana mundial, precisamente porque o Anglicanismo histórico, em sua essência representa muito bem a eclesialidade evangélica".

No texto, ele inicia se referindo há algo que se desenvolveu nos últimos cinqüenta anos: o uso do termo Igreja evangélica, significando “a comunhão mundial de congregações e indivíduos cristãos que professam as crenças evangélicas e mantém um estilo evangélico de piedade, cuidado pastoral, centrado na conversão, na leitura da Bíblia, no evangelismo, na comunhão com Deus em sua segurança e verdade, e na comunhão com outros crentes que compartilham a alegria do novo nascimento".

É uma nova auto-imagem. Antes os evangélicos se viam como um remanescente fiel marginalizado em denominações protestantes lideradas por liberais. Houve, então, uma notável recuperação da autoconfiança e, também, de uma eclesialidade.

A partir da Segunda Guerra Mundial o evangelicalismo tornou-se uma rede de pulsante energia, capaz de se ajustar a formas culturais. É algo multinacional e pluriforme, e não é fácil se falar em nome desse imenso e diverso segmento de cristãos. “As estatísticas dizem que há algo em torno de meio bilhão de evangélicos no mundo, o que equivale ao dobro dos Ortodoxos e a metade dos Católicos Romanos...".

Quando os evangélicos falam em “Igreja evangélica" não estão usando uma categoria sociológica, mas, à semelhança dos Católicos Romanos e dos Ortodoxos, se referem a si mesmo como pertencentes à Igreja (maiúscula), como parcela dela (igreja com i minúsculo). Não são três vertentes paralelas, mas o Corpo de Cristo na terra, ao qual todos os crentes estão integrados. O movimento ecumênico concorreu para a recuperação dessa eclesiologia que está no coração da Reforma do século XVI.

O evangelicalismo é um guarda-chuva que cabe e conecta crenças, espiritualidades, propósitos e ações, mas que Packer crê que, na sua diversidade, tenha em comum seis princípios, a saber:

  1. "A centralidade das Escrituras Sagradas como a Palavra escrita de Deus, e a autoridade suprema e decisiva que guia em todos as matérias de fé e prática;
  2. O foco na glória, majestade, reino e amor de Jesus Cristo, o Deus-Homem, que morreu como um sacrifício por nossos pecados, e que ressuscitou, reina e retornará para julgar a humanidade, aperfeiçoar a Igreja e renovar o cosmo;
  3. O reconhecimento do senhorio do Espírito Santo sobre a inteira vida da graça, que é a vida de salvação expressa em adoração, trabalho e testemunho;
  4. A insistência na necessidade de conversão (não de uma experiência de conversão particular, mas de conversão discernível: condição, regeneração, arrependimento e gozo);
  5. A prioridade do evangelismo e da expansão da igreja como um projeto de vida para todos os tempos e sob todas as circunstâncias;
  6. O cultivo de fraternidade cristã, sobre a base de que a igreja de Deus é essencialmente uma comunidade viva de crentes que deve se ajudar mutuamente para crescer em Cristo."

Packer faz uma advertência e um esclarecimento: a ênfase nas Sagradas Escrituras pelos evangélicos não deve ser confundida com o método restauracionista de fazer teologia, que coloca a Tradição como uma antítese às Escrituras "e que coloca a herança da igreja, em pensamento e devoção sob permanente suspeita, reduzindo seu significado a zero e encorajando a todos que buscam verdade e sabedoria das Escrituras a desqualificar a Tradição como mera patologia mórbida e uma cabeça de hidra de erros destrutivos".

Há de se reconhecer que indivíduos evangélicos íntegros, mas de entendimento limitado, têm seguido esse método, mas os autênticos evangélicos vêm a Tradição como a vida da igreja desde o Pentecostes, com a Bíblia e o Espírito Santo. O centro evangélico tem uma visão altamente positiva da Tradição, tirando exemplo e inspiração do passado, em líderes, pensadores, músicas e formas litúrgicas clássicas como o Livro de Oração Comum (LOC) e a literatura da espiritualidade celta. Esse centro evangélico concorda com Jaroslav Pelikan quando este diferencia a Tradição como “a fé viva dos mortos" do tradicionalismo como “a fé morta dos ainda vivos". Por saber que, apesar dos erros humanos, a Igreja foi guiada pelo Espírito Santo, os evangélicos descobrem na Tradição algo cheio de "verdade e sabedoria", e dela retiram recursos valorosos para o seu trabalho teológico e exegético.

Essa tradição, assim, histórica e universal, nos ajuda a transpor as limitações e relatividades das culturas. O contrário se dá quando, de uma variedade de épocas, lugares e culturas se dá uma convergência. “Assim, os evangélicos valorizam o trinitarismo do Credo Niceno, a cristologia de Calcedônia, a análise do pecado e da graça em Agostinho... a soteriologia, a bibliologia e a eclesiologia cristocêntrica dos reformadores".

Por um lado a eclesiologia dos evangélicos se deriva, em linha reta, daquelas igrejas que se separaram de Roma quando da Reforma Protestante, mas o que se constata, em muitos círculos evangélicos, é uma dissonância cognitiva, com uma teoria correta e uma prática incorreta no que diz respeito à eclesiologia. Com Calvino e Hooker, os documentos evangélicos entendem a Igreja como “o Povo de Deus, o Corpo e a noiva de Cristo, o templo do Espírito Santo. A Igreja é una e universal, transnacional, transcultural e transdenominacional e multiétnica. Em seu sentido mais amplo a Igreja inclui todos os redimidos de todas as épocas, sendo o Corpo de Cristo estendido através do tempo e do espaço".

Na prática observamos que o justo lugar da individualidade tem dado espaço para um individualismo que não valoriza a dimensão corporativa da Igreja. Quais, então, seriam as fontes principais para essa dissonância cognitiva?

  1. O anticatolicismo romano (essencialmente sacramentalista) leva os evangélicos ("jogando o bebê junto com a água da bacia") a desvalorizar a eclesialidade;
  2. O pietismo, em sua reação à frieza institucional, valorizou os pequenos grupos vivos de comunhão, sem se aperceber de seu caráter sectário;
  3. As lideranças individualistas do século XX, que se afastaram dos princípios evangélicos, sem refletirem a plenitude da Igreja.

Temos que reconhecer que há elementos válidos no evangelicalismo que podem resvalar para uma eclesiologia inadequada. Packer destaca:

a) A centralidade evangélica na salvação. É claro que Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. "Mas isso tem levado a um hábito de fazer uma teologia centrada no homem, que coloca o ser humano necessitado no centro do palco, como se o papel do Pai, do Filho e do Espírito Santo se reduzisse a sua dimensão salvífica, falhando na ênfase doxológica (adoração), como a exposição do Evangelho por Paulo nos conduz a fazer". A Trindade parece ficar confinada a um compartimento da mente dos evangélicos, somente para ser acionada quando é negada. “A Igreja, então, vem a ser pensada como uma organização para o apoio à vida espiritual, no lugar de um organismo para o perpétuo louvor; a doxologia é subordinada ao ministério, no lugar de o ministério se configurar e se expressar na doxologia; a vida da igreja é elaborada em termos de promover a salvação das pessoas, antes do que a adoração e a glorificação a Deus".

b) A centralidade evangélica na Palavra. Há um valor na ênfase evangélica na Bíblia e no seu ensino, para o conhecimento da fé histórica. “Mas nossa ênfase no texto e na fala tem marginalizado e desvalorizado os sacramentos, de modo que a mensagem acerca do Senhor crucificado e vivo é enfatizada, e a Eucaristia se torna em um extra, agregada a um culto de pregação, no lugar de ser o ato central da adoração da congregação, como Calvino, Lutero e Crammer ensinaram que deveria ser". Essa falsa antítese Palavra vs. Sacramento é um fato que concorre para distorcer a nossa eclesialidade.

c) A centralidade evangélica na vida. Aqui se refere à "vida espiritual", segundo a tradição pietista, de comunhão com Deus como fruto da regeneração. O que, em si, é positivo, especialmente em congregações moribundas. Os pioneiros pensadores do evangelicalismo inglês ensinavam a necessidade da comunhão em pequenos grupos, ecclesiola in ecclesia (as pequenas igrejas dentro da igreja), para se manter a vitalidade espiritual. Os puritanos e pietistas fizeram o mesmo. O problema é que se vai longe demais com a valorização e vivência nos pequenos grupos, perdendo-se o interesse na igreja como um todo. Packer denomina essa prática de “estreitamento do cuidado" e “a semente plantada do sectarismo", que nunca deveria ocorrer, mas é um fato, e que concorre para a distorção da nossa eclesialidade.

d) A síndrome das igrejas independentes e da centralidade em organizações para-eclesiásticas. É valoroso o plantar igrejas, mas igrejas independentes reduzem os elos de conexão, “como Sínodos, Concílios, ministérios de Superintendência, bispos e tribunais eclesiásticos providos pelo sistema". O abuso dessas instâncias não pode justificar a sua abolição, mas se deve constitucionalizá-las, de forma mais sábia, e elegermos os seus ocupantes com mais discernimento. “Não deve haver antítese entre as estruturas de conexão e as responsabilidades congregacionais para se seguir a vontade de Cristo...".

Os ministérios para-eclesiásticos, por sua vez, têm o seu valor como ministérios especializados a serviço da igreja, mas não devem canalizar nosso interesse, entusiasmo e dinheiro, mesmo quando a vida institucional da igreja seja menos glamourosa. O congregacionalismo e o para-eclesialismo podem se constituir em ameaça de sectarismo. Devemos insistir na igreja credal como sinal orgânico, espaço de continuidade do Corpo de Cristo na terra, e a igreja católica se torna visível em cada congregação como microcosmo.

E, assim, J. I. Packer conclui o seu ensaio:

"Minha esperança para esse novo século é que a eclesialidade do evangelicalismo se torne evidente. Como minha análise procurou demonstrar, as dificuldades assinaladas são mais práticas do que teóricas. A eclesiologia evangélica não é distorcida, mas a eclesialidade evangélica como um sistema e um ethos está, e sem se repensar e se ajustar continuará a ser, de modo que a credibilidade da afirmação dos evangélicos como tendo um status no centro da igreja permanecerá sob suspeita e será prejudicado. Poderão os evangélicos ganhar credibilidade por meio de mudanças nesses pontos chaves? Ou continuarão, ao menos parcialmente, a negar o seu nome? Esperemos para ver".

Tradução e Resenha: Dom Robinson Cavalcanti, ose Divulgação: Diocese Anglicana do Recife Secretaria Diocesana de Educação Ordem Evangélica de Santo Estevão Mártir (Fonte: Página Virtuosity, dez.2002) Janeiro de 2003.

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