União da Juventude
Olá Inácio! Estou enviando a apostila do Rev. Oswaldo Kickhofel para que vc inclua na página do IAET. Abraços, Valéria
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL
Proposta de trabalho: Palestra sobre a história da IEAB Objetivo: aprofundar a importância da história no contexto da missão da igreja. Desafios: Quais são os principais acontecimentos que influenciaram nossa caminhada como igreja no Brasil? Quem são as personagens que trilharam o caminho antes de nós? Participação: 20 a 25 pessoas Local: Instituto Anglicano de Estudos Teológicos, São Paulo Data: 12 e 13 de julho de 2003 Promoção: Centro de Estudos Teológicos Duração: um dia em dois turnos Momentos: - Apresentação dos participantes
- Apresentação do trabalho a ser desenvolvido
- Exposição dos principais eventos da história da IEAB
QUESTÕES PARA DEBATE
Por que os missionários vieram? Que visão teológica eles tinham? Qual era o núcleo central da mensagem que traziam? Por que vieram fazer missão em terras papistas?
O estudo da história da Igreja mostra que a mensagem do evangelho transformador não se destina somente ao pecado pessoal, mas também ao pecado estrutural. Salvação não significa somente salvar almas, mas salvar a pessoa inteira. De que maneira o estudo da história pode ajudar a expansão missionária?
O que significa para a missão da igreja hoje o conceito de “religião na vida prática", que norteou o trabalho dos primeiros missionários?
A divisão do distrito missionário em 1950 e a autonomia em 1965 foram dois momentos de transição distintos pelos quais passou a IEAB. Isso nos faz pensar em sua identidade e seu futuro. Que futuro, ainda que imaginário, seria esse?
Por que devemos estudar a história de nossa igreja e preservar a memória de nossas comunidades paroquiais? Como isso pode ser feito?
"O ato de contar historias e organizar nossa memória em forma descritiva é, por definição, um ato sagrado. Contamos histórias porque elas preenchem o silêncio imposto pela morte. Contamos histórias porque elas nos salvam” (James Caroll),
I. IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA
Seja em nossa paróquia, seja em nossa família, seja na sociedade, a vida nos desafia a embarcar numa fascinante jornada de descobrimentos, que é o estudo da história. Quais são os principais acontecimentos que influenciaram nossa caminhada? Quem são as pessoas que trilharam o caminho antes de nós? Qual a importância que isso tinha para eles? Como isso influenciou a história que vivemos hoje? No estudo destas questões, começamos a perceber que a história não é um objeto finito para ser perpetuado em monumentos ou guardado e esquecido em poeirentas prateleiras. Estudar história é uma forma de procurar compreender aquilo que nunca termina. Novas informações, mudanças de perspectivas e o acúmulo de fatos significam que o panorama histórico está sempre em constante transformação. E uma matéria viva e como tal capaz de nos alimentar em nossa presente jornada.
A história da igreja e das paróquias geralmente focaliza as realizações de seus líderes e as ações de sua organização e estrutura. A maior parte dos membros da igreja ou de uma comunidade paroquial tem pouca relação com os bispos, sínodos ou reuniões oficiais. Essas pessoas simplesmente vivem sua fé na comunidade que freqüentam. Seja como for, nossa experiência como membros da Igreja acontece primeiro na comunidade local. Por isso, é importante escrever a história da paróquia, porque ela nos ajuda a perceber quem somos, como nos vemos e como somos vistos pelos outros. Saber de onde viemos nos ajuda a perceber onde estamos hoje e para onde desejamos ir no futuro.
Escrever a história da igreja ou de uma paróquia local ajuda a descobrir e conhecer suas raízes, os diferentes eventos e as pessoas que formaram a vida daquela comunidade ao longo dos anos. Sem dúvida, será uma história de realizações e lutas, de celebrações e desafios. Ao registrar os eventos do passado,
- Somos lembrados das semelhanças e das diferenças entre a história da paróquia local e a história da comunidade maior do povo de Deus.
- Começamos a descobrir os vínculos entre as nossas experiências e as experiências daqueles que vieram antes de nós.
- Fazemos parte da história viva da igreja.
- Recolhemos a memória coletiva da comunidade paroquial.
- Registramos as ações, os episódios e os eventos que formaram o padrão distintivo da vida da comunidade.
- Examinamos as relações da paróquia com a sociedade a que pertencemos e com o mundo, as diferentes atitudes, opiniões, crenças, realizações e convicções que a paróquia abraçou ao longo dos diferentes períodos de sua história.
- Descobrimos nesse processo um passado de grande complexidade e diversidade, mas também um passado do qual podemos aprender muita coisa sobre quem
somos e como conseguimos chegar até aqui. (“Escrevendo a História de Nossas Paróquias", Projeto Memória, 2001, pp.10-11).
II. HISTÓRIA DA SALVAÇÃO
Como membros da Igreja de Cristo, fazemos parte daquilo que os teólogos chamam de História da Salvação, ou a Heilsgeschichte, como dizem os alemães.
Como essa história começou? Como ela chegou até nós? Começou primeiro com Abraão. Passou pelo povo de Israel e recomeçou com Jesus. Continuou com os doze apóstolos. Depois outros 70 foram enviados dois a dois a todas as cidades e lugares. A aparente derrota da cruz e os dias que se seguiram ao domingo da Páscoa haviam produzido incertezas e temores. O Pentecostes, porém, foi o poder transformador dos apóstolos, passando a experimentar um novo vigor: "Todos os dias acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo convertidos”.
Mas o início não foi fácil. Estevão foi o primeiro mártir. As perseguições se sucedem, mas os seguidores de Jesus não abjuram. Ao contrário, por onde passaram deixaram a semente do evangelho. Não só na Judéia e Samaria, mas também na Ásia Menor, organizam as primeiras comunidades, sem esquecer a estrada de Damasco, em que Saulo perseguidor se transformou em Paulo defensor. É dessa época o início do Cristianismo em Roma, onde Paulo encontrou uma comunidade que, 300 anos depois, vai influenciar o império romano. Na história das missões mundiais, ninguém sobrepujou Paulo, sendo ele, de fato, o apóstolo dos gentios. Suas viagens missionárias são ricas em lances de heroísmo e de fé. Onde quer que anunciasse o evangelho, ali deixava organizada uma igreja. Já no segundo século, tinham sido organizadas mais de 90 comunidades. Data também dessa época a implantação da fé cristã na Inglaterra.
O cristianismo se espalha no Ocidente. 314. Concílio de Arles, no sul da França 596. Santo Agostinho, em Cantuária 1534. Henrique VIII 1607. Robert Hunt celebra a primeira comunhão na América 1620. Chegam os peregrinos no Mayflower ; fundam um novo estado 1776. Independência dos Estados Unidos. A igreja se organiza 1784. Sagração de Samuel Seabury 1823. Criado o Seminário de Virginia
BRASIL PERÍODO COLONIAL (308 anos)
- Descobrimento por Pedro Álvares Cabral.
- Portugal decide tomar posse da terra, nomeando Martin Afonso de Souza como primeiro governador geral.
- O Brasil é dividido em capitanias hereditárias.
- Primeira presença protestante no Brasil: huguenotes franceses no Rio de Janeiro com a malograda expedição do vice-almirante Nicolau Durant de Villegaigon.
- Primeira investida holandesa na costa brasileira, permanecendo na Bahia durante um ano, sendo expulsos pelos portugueses.
- Calvinistas holandeses tomam Recife e Olinda. Ficam lá por 24 anos sob o governo de Maurício de Nassau.
- Henry Martin. Um contato. Foi o primeiro anglicano a pisar o solo brasileiro. Em viagem para a Índia, seu navio aportou durante 15 dias em Salvador, Bahia, onde manteve contato com padres, falando em francês e latim. Encantado com as belezas naturais do país, escreveu em seu diário: "Quem será o ditoso missionário que irá trazer o nome de Cristo a esta região ocidental? Quando será este país libertado da idolatria e do Cristianismo espúrio? Cruzes há em abundância, mas quando será aqui anunciada a doutrina da Cruz?”
PERÍODO IMPERIAL (81 anos)
- Chega ao Brasil Dom João VI e toda a corte real portuguesa.
- Tratado comercial entre Portugal e Inglaterra. Foi o início das capelanias inglesas.
- Os ingleses constróem a primeira igreja, a Christ Church, no Rio.
- Independência do Brasil.
- Chegam ao Brasil os primeiros imigrantes alemães.
- William Cooper, primeiro missionário enviado pela igreja americana. Um episcopaliano residente no Rio de Janeiro, provavelmente membro da colônia americana, pediu que a Igreja Episcopal dos Estados Unidos enviasse um missionário para o Brasil. O pedido foi atendido pela Sociedade Missionária da Igreja Episcopal, que enviou em 1853 o rev. William Cooper, que foi o primeiro missionário oficialmente enviado ao Brasil. Tendo naufragado o navio em que viajava no mar das Caraíbas, Cooper desistiu da missão e voltou para os Estados Unidos.
- Chega o missionário inglês Robert Kalley, funda a primeira igreja protestante no Brasil, no Rio de Janeiro, não obstante a forte oposição da hierarquia romana local.
- Os presbiterianos inauguram sua primeira missão, mas só três décadas depois conseguem organizar a igreja em definitivo. Os batistas tentam se estabelecer no Rio de Janeiro, mas sem sucesso.
- Richard Holden em Belém do Pará, onde permaneceu até 1872. Foi a menos fracassada das missões. Entretanto, seu temperamento forte e polêmico e o contexto de oposição que encontrou no Brasil inviabilizaram sua pretensão de estabelecer a Igreja Episcopal no Brasil. Iniciou seu trabalho em Belém do Pará. Era escocês, de pais anglicanos, mas só se converteu aos 21 anos, quando uma experiência mística e enfermidade o trouxeram de volta à igreja. Estudou teologia e português
nos Estados Unidos. Traduziu o LOC para a nossa língua. Foi enviado ao Brasil pelo Departamento de Missão da Igreja Episcopal e pela Sociedade Bíblica Americana.
Duas razões levaram Holden a escolher Belém do Pará. A primeira era que havia um posto de distribuição de Bíblias na cidade, que pertencia a um capitão de navio americano, chamado Robert Nesbitt. Era um importante ponto de contato para iniciar seu trabalho. A segunda era que havia uma expectativa de que o Rio Amazonas fosse aberto à navegação internacional. Holden encontrou em Belém intensa hostilidade para pregar o evangelho. Tentou criar uma comunidade permanente, mas não teve sucesso. Usou a imprensa para difundir suas idéias, escrevendo artigos polêmicos que provocavam a ira romana, especialmente do bispo de Belém, Dom Antônio de Macedo Costa. Viajava pelos afluentes do Rio Amazonas, vendendo bíblias e panfletos evangélicos nas vilas e cidades ribeirinhas. 1862. Richard Holden em Salvador, Bahia, onde também usou a imprensa para polemizar. Essa liberdade durou pouco, porque a oposição, como ele mesmo escreveu, “estava tentando de qualquer maneira arranjar uma acusação pela qual eu pudesse ser posto na cadeia”. Escapou de três tentativas de morte. Devido a sua forte personalidade de pregador polêmico, aos poucos começou a encontrar dificuldades no próprio Departamento de Missão da Igreja Episcopal, que havia patrocinado sua vinda ao Brasil. 1864. Richard Holden no Rio de Janeiro. Aceitou um convite do Dr. Robert Kalley para trabalhar no Rio de Janeiro como pastor da Igreja Congregacional Fluminense, por quatro anos. Como poeta, escreveu mais de uma dezena de hinos. Dois deles (164 e 165) constam em nosso hinário de 1962. Mais tarde tornou-se darbista ¹. Faleceu em Lisboa, em 1886. Tinha 58 anos. Com ele encerram-se duas mal sucedidas tentativas de implantar a igreja anglicana no Brasil. O sucesso só vai chegar duas décadas e meia depois, em 1890, com a chegada de James W. Morris e Lucien L. Kinsolving. 1876. Chegam os metodistas americanos. 1882. Os batistas se estabelecem definitivamente na Bahia. 1888. Igreja Evangélica Amazonense Marcus E. Carver, um missionário americano metodista independente, se estabelece em Manaus e funda a Igreja Evangélica Amazonense. Não foi um empreendimento propriamente anglicano. Carver era pastor metodista enviado por sua igreja nos Estados Unidos como missionário. Mas abandonado logo no início por sua própria igreja, começou a trabalhar em Manaus de forma não denominacional, seguindo inicialmente uma forma metodista ou presbiteriana de ministério, o que resultou numa igreja independente, sem vínculos denominacionais. ¹ Darbismo – movimento religioso fundado em 1830, na Inglaterra, por John Nelson Darby, em oposição à fraca espiritualidade da Igreja Estabelecida. Darby e seus seguidores acreditavam que todos os crentes são sacerdotes, não havendo necessidade do ministério ordenado. Rejeitavam qualquer tipo de denominação eclesiástica. O único vínculo entre os crentes era a fé, o amor cristão e o Espírito Santo. Eram
também conhecidos como “Os Irmãos Livres” ou “Os Irmãos de Plymouth", onde o movimento havia começado. No Brasil, as atividades do movimento começaram em 1878, no Rio de Janeiro, sob a liderança de Richard Holden. Os darbista chamavam os seus templos de Casas de Oração. Segundo a revista Ultimato (setembro-outubro de 2000, n° 266, p. 10) o movimento darbista conta atualmente com 700 casas de oração e 200 missionários no país.
PERÍODO REPUBLICANO
- Proclamação da República.
Termina o período imperial e com ele desaparece o sistema do padroado ² ea doutrina do regalismo ³. Separado da Igreja, o Estado proporciona ampla liberdade religiosa. Essa nova situação foi providencial para o início do trabalho dos missionários. O início da história da Igreja Episcopal sinalizava a presença divina que, embora invisível, de algum modo interferiu no curso de sua história, ajudando a concretizar sonhos e esperanças. O Brasil passava por um processo revolucionário civil tão profundo que resultou em mudanças igualmente profundas na vida política, social e religiosa do país. A passagem do regime imperial para o regime republicano foi um fato político que teve decisiva importância para o estabelecimento de nossa igreja no Brasil. Durante o império, a Igreja Católica Romana detinha o monopólio da vida religiosa no país. Por exemplo, não era permitido realizar cultos não católicos romanos e, quando isso era possível, havia severas restrições, como foi o caso das capelanias inglesas. Somente os casamentos realizados pela Igreja de Roma eram reconhecidos. Era tão grande o domínio romano que um dos principais fatores que contribuiu para a eclosão da revolução republicana foi o desejo de separar a Igreja do Estado. Não estaria Deus preparando o caminho para os missionários? Seja como for, esta pergunta nos induz a fazer outras perguntas: Por que os missionários vieram? Que visão teológica eles tinham? Qual era o núcleo central da mensagem que traziam? Por que vieram fazer missão em terras papistas?
O Brasil era um país católico romano. Os brasileiros já possuíam uma forma de Cristianismo. Haveria necessidade de fazer missão num país já cristianizado? Para os missionários a resposta era afirmativa, porque a igreja dominante não havia conseguido cristianizar o Brasil durante quase 400 anos de dominação religiosa. Na visão dos missionários, as classes letradas estavam tomadas pelo ceticismo e pela indiferença. As massas populares, iletradas e subalternas, estavam absorvidas num sistema de supersticiosa idolatria, aproximando-as mais do antigo paganismo do que da verdadeira religião de Jesus Cristo.
² Padroado - direito de proteção adquirido por quem fundou ou doou uma igreja; direito de conferir benefícios eclesiásticos; direito de criar e prover cargos eclesiásticos. O padroado favorecia amplamente o governo no sentido de influenciar os membros do clero. Havia evidente diminuição da autoridade da Igreja: ministros de Estado davam ordens a bispos; bispos eram impedidos de se afastarem de suas dioceses sem autorização; livros de teologia eram submetidos a exame; emendas de estatutos dos cabidos religiosos, regulamentos da jurisdições dos vigários capitulares, autorizações ou proibições de noviciados e outras questões eclesiásticas só adquiriam validade depois de submetidas ao beneplácito do poder civil.
³ Regalismo - doutrina segundo a qual era lícito ao Estado interferir em assuntos religiosos (Constituição de 1824). Essa relação gerou sério conflito entre os dois poderes, que ficou conhecido como A Questão Religiosa. Ao considerar oficial a religião católica romana e manter pecuniariamente o clero, o Estado se atribuiu o direito do padroado, colocando a Igreja em posição de dependência e fortalecendo a doutrina do regalismo.
Havia também uma razão teologia: o progresso material não era elemento indicativo seguro da presença do reino de Deus. A sociedade e o mundo são maus, porque os indivíduos não são bons. Os indivíduos sãos pecadores. Sendo assim, era preciso regenerar os indivíduos, para que a sociedade fosse transformada.
Essa teologia era bastante influenciada pelo individualismo protestante, fruto dos famosos reavivamentos espirituais americanos. As formas sociais e políticas que o povo americano havia implantado em seu país eram produtos do puritanismo inglês e americano, uma espécie de teologia do progresso material; hoje diríamos uma teologia da prosperidade. As instituições americanas refletiam os ideais puritanos de “povo escolhido de Deus”.
E esse modelo devia ser compartilhado com outros povos, para que o reino de Deus se estabelecesse no mundo todo. As vias escolhidas para essa gigantesca tarefa era a pregação do puro evangelho e a educação do povo. Daí a razão por que as igrejas evangélicas fundaram tantas escolas no país. Em resumo, o núcleo central da mensagem dos missionários pode ser resumido em cinco grandes temas: o amor de Deus, o pecado universal, a expiação universal, o livre arbítrio e a possibilidade infinita do perfeicionismo humano.
Divergências
No Brasil, o trabalho começou com missionários americanos de tendência evangélica. Os anglo-católicos argumentavam que a igreja não devia fazer missão em países onde os católicos romanos eram bastante ativos. Foi necessário fundar sociedades missionárias independentes para conseguir apoio principalmente financeiro. As divergências entre os dois grupos eram tão acentuadas que, no início do século XX, não era permitido que um bispo anglo- católico pregasse em igrejas e dioceses mantidas por sociedades missionárias de tendência evangélica. Mais tarde, um acordo entre os dois grupos permitiu que os evangélicos ficassem com as missões estrangeiras e os anglo-católicos com as missões domésticas. Hoje essas divergências desapareceram e a tarefa evangelizadora é preocupação da igreja toda.
O imperativo missionário estava baseado em três pontos:
- salvar os pagãos do inferno
- combater as religiões não cristãs
- fazer da fé cristã o único caminho para escapar da condenação eterna.
O trabalho começou com os estudantes do Seminário de Virginia, fundado em 1823. O Seminário de Virginia sempre demonstrou grande zelo pela expansão missionária. De suas salas de aula saíram os missionários que foram enviados a
Grécia em 1830, a África em 1836, ao Japão em 1853 e ao Brasil em 1889. Havia uma sociedade missionária fundada pelos próprios estudantes em 1824.
III. IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL
A história da IEAB ainda carece de sistematização. Pouco se fez nesse sentido até hoje. George Upton Krischke (1949) e Nataniel Duval da Silva (1951, 1960 e 1966). O interesse maior por nossa memória surgiu em 1985, com vistas às comemorações do centenário. Criação do Projeto Memória em 1991.
Período não episcopal
01 de junho, Domingo da Trindade. Morris e Kinsolving realizam o primeiro culto em Porto Alegre. O lugar do culto ficou conhecido como a Casa da Missão. Ali teve início a Capela da Trindade. Dois meses depois, em agosto do mesmo ano, fundaram a segunda missão, na rua Riachuelo 126 (antiga rua da Ponte, esquina Beco do Poço), que veio a ser mais tarde a Capela do Bom Pastor. Porto Alegre tinha na época 60 mil habitantes aproximadamente. Nome provisório: Igreja Protestante Episcopal no Sul dos Estados Unidos do Brasil. Nesse mesmo ano, o Brasil realiza um recenseamento geral. Mas o resultado só foi divulgado sete anos depois.
Chegam os missionários William Cabell Brown, John Gaw Meem e Mary Packard. James Watson Morris e Vicente Brande iniciam o trabalho em Rio Grande. Capela de São João (ex-comunidade presbiteriana). James Watson Morris inicia o trabalho em Santa Rita: Capela do Calvário. Escola Americana Kinsolving e Morris inauguram a Escola Americana, na Casa da Missão, resultado da fusão da escola mista dirigida por Vicente Brande. Esta escola funcionou até 1898, sob a direção da missionária Mary Packard. Constituição republicana. Promulgada a primeira Constituição Republicana que separa a Igreja do Estado, institui o casamento civil e acaba com o privilégio da subvenção oficial. Primeira eucaristia privada. Kinsolving celebra a primeira eucaristia privada na sala de cultos da Casa da Missão, em Porto Alegre, no dia 3 de maio, às 7 horas da manhã. Comungaram Morris, Brande e a esposa Adelaide e Boaventura e a esposa Inês.
Meem e Fraga iniciam o trabalho em Pelotas e Brande em São José do Norte. Primeira eucaristia pública Em 10 de janeiro, às 5 horas da tarde, Morris e Meem celebram a primeira eucaristia pública, na sala de cultos da Casa da Missão, em Porto Alegre. Comungaram 20 pessoas: 14 brasileiros, 2 ingleses, 1 escocês, 2 luteranos e 1 metodista. Participaram também da histórica cerimônia, embora não tenham comungado, representantes das Igrejas Batista e Católica Roma, um maometano e alguns indiferentes. O missionário John Gaw Meem, que havia chegado
ao Brasil no ano anterior, participou dessa celebração e descreveu o importante evento
Convocação não autorizada, sem leigos. Data: 23 a 26 de maio de 1892 Local: Casa da Missão, em Porto Alegre. Presentes: reverendos Morris, Brown, Meem e Kinsolving, e catequistas Boaventura, Brande e Cabral. Presidida por Kinsolving e secretariada por Cabral. Assuntos: Brande relata sobre o trabalho em Rio Grande, Ilha dos Marinheiros e São José do Norte. Boaventura relata sobre o trabalho em Santa Rita. Cabral faz um relatório sobre suas viagens. Em todos os lugares, havia boa aceitação do evangelho. A convocação fez designações: Boaventura em Santa Rita, Morris e Cabral em Porto Alegre, Kinsolving e Brande em Rio Grande.
- Morris e Brown fundam o Estandarte Cristão que trazia como dístico a expressão “órgão da Igreja Protestante Episcopal no Estado do Rio Grande do Sul", com o único objetivo de anunciar a mensagem do evangelho. No primeiro número, que apareceu em janeiro, o editorialista definiu a linha de trabalho que o jornal iria adotar:
“Deixando de lado tradições inventadas e procurando escutar única e simplesmente a voz de Cristo, arvoramos a bandeira de todo o progresso religioso, e começamos já a peleja contra toda a falsidade e superstição. Seguiremos no modesto desempenho desse grande trabalho a seguinte ordem: explicações de passagens da Bíblica, para que nossos leitores sejam instruídos e exortados pelas próprias palavras de inspiração, e assim sejam aparelhados para responder a qualquer pessoa que pedir explicações sobre a fé que elas têm (I Pedro 3:15); traduções de trechos escolhidos de autores ilustrados do mundo cristão, para oferecer material para alimentar os espíritos devotos; e noticias religiosas cuidadosamente selecionadas e coordenadas para salientar a influência e o progresso do evangelho no mundo”.
Primeira visita episcopal: George William Peterkin.
Inexistência de bispo Nos primeiros nove anos, não havia bispo. Éramos uma igreja episcopal sem bispo e sem concílios. Em lugar dos concílios, sempre presididos por um bispo, eram realizadas as chamadas convocações. O vocábulo era uma tradução da palavra inglesa convocation, que tinha o significado de reunião oficial. A missão brasileira começou e se desenvolveu sob a supervisão eclesiástica da Diocese de Virginia e com o apoio da Sociedade Missionária da Igreja Americana. Situação semelhante tinha enfrentado a igreja americana no período colonial. Os membros da igreja eram admitidos sem Confirmação. Não havia também ordenações pela falta de bispo. Tecnicamente, nossa história começa com a primeira visita episcopal em 1893. Esta visita foi importante em função dos atos oficiais praticados pelo bispo George William Peterkin, que foram os seguintes:
Nomeações
Comissão Permanente
Comissão de Missão
Comissão de Publicações
Comissão de Instrução Religiosa
Comissão de Indicação do Tesoureiro
Comissão de Indicação do local e Data da Convocação
Capelães Examinadores
Registrador
Designações
- Trindade e Calvário: James Watson Morris e Boaventura de S. Oliveira
- Salvador e Ressurreição: Lucien Lee Kinsolving e Vicente Brande
- Bom Pastor: William Cabell Brown e Américo Vespúcio Cabral
- Redentor: John Gaw Meem e Antônio Machado Fraga Tradução da OM e OV, Litania e SC por Brown e Cabral. Confirmação de 142 pessoas Ordenação de quatro diáconos: Vicente Brande, Américo Vespúcio Cabral, Antônio Machado Fraga e Boaventura de Souza Oliveira. Adotada uma Declaração de Princípios
No final de seu relatório de viagem, o bispo Peterkin registrou que as condições eram as mais favoráveis possíveis para o desenvolvimento da obra, iniciada de maneira tão auspiciosa. Havia o consenso de que o Rio Grande do Sul, por seu clima, seus recursos naturais e sua crescente população, era o mais promissor dos estados brasileiros. Com exceção de um ou outro missionário independente, o campo estava desocupado. Entre os vários fatores que contribuíram para o sucesso da missão brasileira, o relatório do bispo menciona a) a época em que começou era propícia b) patrocínio americano e não inglês c) os missionários enviados eram homens de caráter íntegro, bem treinados, experimentados, piedosos e consagrados d) acerto na escolha de três centros estratégicos: POA, Pelotas e Rio Grande e) a escolha de quatro catequistas brasileiros e sua posterior ordenação f) a missão não fazia distinção de classes sociais g) adaptação da liturgia para adoração pública h) uso da hinologia para o serviço da igreja.
O trabalho de organização da igreja continuou com a segunda visita episcopal em 1897, quando foram ordenados os três primeiros presbíteros nacionais e confirmados mais 159 novos membros. O processo se completou em 1899 com a sagração de Kinsolving ao episcopado.
1894 - Primeira convocação autorizada, ainda sem leigos.
Data: 3 a 8 de março de 1894 Local: Capela do Salvador, Rio Grande. Presentes: todos os presbíteros e diáconos que formavam o clero, menos Brown, que estava nos Estados Unidos. Assuntos: a relação com a igreja alemã em São Leopoldo, a contribuição para os diáconos e a instrução do clero.
1895 - Segunda convocação.
Data: 22 a 27 de abril, em Porto Alegre. Presentes: todos os presbíteros e diáconos, inclusive Brown. Foi a primeira que teve representação leiga. Participaram cinco leigos: Joaquim Alberto Fróes (Pelotas), Ernesto Gomes Pereira Bastos (Santa Rita), Bruno Mareco (Trindade,
POA) e José Pereira Santos Norte (Bom Pastor, POA). Assuntos tratados: primeiro nome oficial: “Igreja Protestante Episcopal no Sul dos Estados Unidos do Brasil”. Esta prolixa denominação foi o primeiro nome adotado oficialmente pela missão brasileira; primeira constituição e primeiros cânones aprovados. A missão brasileira adotava a constituição e os cânones da igreja americana, “enquanto forem aplicáveis às nossas circunstâncias e necessidades” (Atas da 2º Convocação, abril de 1895, p. 38); eleição de um bispo. Pela primeira vez, uma comissão formada por todos os presbíteros e diáconos foi autorizada para “abrir negociações com a Câmara dos Bispos da Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América, relativamente à consagração de um bispo para a Igreja Protestante no Sul dos Estados Unidos do Brasil" (Atas da 2º Convocação, abril de 1895, p. 32).
Primeira destituição.
O diácono Boaventura de Souza Oliveira é destituído do ministério ordenado. Dois pontos ficaram bem claros no triste episódio: a igreja não permitia que os seus ministros pregassem uma coisa e praticassem outra; e a união dos ministros em torno do episódio pela importância atribuída a ele.
Lançamento da pedra fundamental da Capela do Calvário, na Fazenda do Contrato, em Santa Rita do Rio dos Sinos, hoje município de Nova Santa Rita.
Necessidade de templos.
Logo no início, os missionários sentiram a necessidade de construir templos, não só para acomodar melhor as congregações que cresciam em todos os lugares, mas também para preservar a dignidade e a beleza dos cultos. Um templo próprio ajudaria muito o trabalho missionário. Nos primeiros anos, a igreja se reunia em casas ou salas alugadas, que eram adaptadas para servir de templo. Claro que todo o início de um trabalho missionário passa por uma fase provisória ou transitória para ver se tem futuro. Seria arriscado logo no início construir templos em lugares que não tivessem sido testados primeiro pelas capelas alugadas. Alguns lugares, como Pelotas, Porto Alegre, Rio Grande, Santa Rita e Viamão, já tinham passado por esse período experimental, mostrando que o trabalho da igreja já era aceitável pela população, mesmo com a desvantagem das pequenas salas alugadas. A desvantagem estava no fato de que as outras instituições seculares, como os partidos políticos, os clubes sociais, as ligas e associações, também não possuíam prédios próprios, mas alugados, funcionando em caráter permanente. Por isso, havia uma tendência da população, especialmente entre as camadas mais conservadoras, de classificar a igreja em salas alugadas como clubes sociais ou agremiações cívico-religiosas. "Era difícil para as classes mais conservadoras relacionar nossas crescentes congregações reunidas em pequenas salas alugadas com a afirmação de que éramos um ramo integrante da Igreja una, santa, católica e apostólica de Cristo. Se tivéssemos templos próprios, em vez de salas alugadas, nosso sucesso seria maior. Seria um grande investimento missionário construir templos rapidamente" (John Gaw Meem, in The Echo, December 1898, p. 7). Nos primeiros dez anos, apenas uma igreja foi construída: a Igreja do Calvário, em Santa Rita do Rio dos Sinos, construída em 1896. Os demais templos foram construídos já no período episcopal, que começa em 1899, com a sagração de Kinsolving.
Calvário, Santa Rita do Rio dos Sinos, RS
Salvador, Rio Grande, RS
Trindade, Porto Alegre, RS
Mediador, Santa Maria, RS
Redentor, Pelotas, RS
Terceira convocação. Data: 15 a 18 de janeiro. Local: Capela do Redentor, em Pelotas. Assuntos: discutiu novamente a questão da instrução do clero, a necessidade de nova visita episcopal e os limites paroquiais