Visão Anglicana
VISÃO ANGLICANA - JAMES GRIFFISS.
CAPÍTULO 5 - FÉ E PRÁTICA
O homem de Portage já tenha ouvido até aqui alguma coisa a respeito da história da Igreja Episcopal e até mesmo como ela chegou àquela cidade. Talvez, porém, tenha continuada a conversação entre ele e o jovem diácono e tenha perguntado uma questão um pouco mais perspicaz e difícil: está bem a história da Igreja, mas “no que os anglicanos acreditam sobre Deus?” Com efeito, ele poderia ter dito, “creio em Deus, mas isso não significa que devo pertencer a uma Igreja. As Igrejas são excelentes para gente que gosta dessa espécie de bens, mas não tem muito a ver com fé em Deus."
Naturalmente, quanto a isso, seria perfeitamente possível pensar na Igreja Episcopal ou em qualquer Igreja simplesmente como uma outra instituição na sociedade ou como aquele edifício bem conhecido na esquina. Afinal, as Igrejas possuem seus edifícios, fazem funcionar como um negócio, recebem e gastam dinheiro, empregam gente, pagam seguros e, às vezes, não parecem nada diferente de outras reuniões sociais de gente que pensa do mesmo modo. Todavia, a Igreja é mais do que uma outra instituição ou empreendimento de negócio. Tão interessante possa ser como a história do anglicanismo a coisa importante é que somos uma Igreja porque cremos em Deus. É a nossa fé em Deus - não a nossa história ou o nosso edifício - que é a razão de nossa existência.
Os cristãos crêem que o Deus em quem cremos foi revelado de modo único na pessoa e na vida de Jesus. Bem no início da história da Igreja cristã tal fé em Jesus foi expressa nos credos e formulada pelos teólogos como doutrina da Encarnação. Que Jesus foi encarnado como um ser humano e que ele compartilha a nossa história e nossa humanidade permanece como uma crença central de todas as Igrejas cristãs porque ela expressa o que é essencial para a nossa fé: Pois Deus amou o mundo de tal maneira que Ele deu o unigênito Filho, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna"(Jo 3.16).
Por outro lado, a doutrina da encarnação veio a ter importância particular no desenvolvimento do anglicanismo, influindo no modo como pensamos, oramos, e adoramos até certo ponto singular dentro da comunidade cristã em escala mundial. Para nós a doutrina da Encarnação nos proporcionou uma ligação ente Deus em quem cremos e a Igreja com a qual cremos. Assim, é importante perceber donde a doutrina da Encarnação procede, como se desenvolveu como uma expressão da fé cristã e como tem sido central para maneira anglicana de crer.
CRER EM DEUS - UM COMPROMISSO COM ELE
Quando dizemos nos credos, “cremos em Deus, tentamos dar expressão ao que mais nos interessa e nos preocupa mais profundamente a respeito de nós e de nosso mundo: crenças e esperanças e experiências que estruturam e moldam as nossas vidas como povo cristão. Sem a nossa crença em Deus toda a história da Igreja e da teologia seriam simplesmente um exercício acadêmico, um estudo, talvez, na sociologia da religião e sua influência cultural. É a nossa crença em Deus que nos torna Igreja, comunidade reunida, portanto, qualquer relance da visão anglicana deve começar com uma compreensão do que os anglicanos querem dizer por “cremos em Deus".
"Deus" é uma palavra complexa que expressa muitos níveis de significado. Como quaisquer outras palavras profundas como por exemplo, amor, morte, vida, esperança, justiça, alegria é uma palavra difícil de definir e fácil de usar. Dizemos que cremos em Deus, adoramos Deus, oramos a Deus. Também, dizemos que acreditamos que Deus está, de algum modo, envolvido com que acontece em nosso mundo e em nossas vidas. Alimentamos os famintos, cuidamos dos enfermos e moribundos em nome de Deus, mas em tempos de guerra, também, matamos em nome de Deus. E isso fazemos para a causa de Deus, assim pensamos.
"Crer" é, por outro lado, uma palavra com sentidos complexos e diversificados. Por exemplo, posso dizer que creio que alguma coisa está acontecendo quando, realmente, não estou seguro do que aconteceu. “Creio que o carro ultrapassou o sinal vermelho, mas não desejaria de jurar, no tribunal, que isso aconteceu” ou “creio no que os astrônomos me dizem a respeito do universo porque eles têm mais conhecimento do universo do que eu. “Crer” pode indicar incerteza sobre se alguma coisa é verdadeira ou não, ou aceitar alguma coisa como verdadeira porque alguém em quem confio me disse. Podemos crer em muita coisa no que um político diz num ano eleitoral ou no que um pregador diz num domingo, mas em muitos casos cremos como costumamos dizer com um grão de sal.
Também, podemos falar a respeito do “crer” num sentido mais forte. Por exemplo dizer que cremos em alguma coisa ou em alguém expressa um compromisso fundamental. Pode ser um ato que determina minha vida e estrutura as minhas ações futuras. Por outro lado, se uma pessoa em quem confio me diz alguma coisa importante, estou mais inclinado a aceita-la. Creio no que ela ou ele me diz porque tenho um compromisso básico com essa pessoa. Naturalmente, o compromisso pode ser bom e mau. Numa época muitos acreditava na versão estalinista do comunismo na União soviética, mas eventualmente, perderam a fé em estalinismo quando perceberam suas conseqüências desastrosas.
Crer em alguém ou em alguma idéia tem conseqüências mais profundas para a vida das pessoas do que simplesmente crer que alguma coisa pode ser verdadeira ou não. “Crer em “ envolve compromisso. “Crer que" está aberto à modificação quando mais informação vier ao nosso alcance. Naturalmente, crer numa pessoa ou numa idéia pode estar, também aberto à alteração, se a pessoa vem a ser não mais a pessoa em quem pensávamos ou a idéia se torna destrutiva. Todos nós podemos ser ingênuos de quando em quando, mas perder a nossa confiança em alguém ou em alguma idéia é muito mais uma guinada forçada do que simplesmente chegar a acreditar que alguma coisa mais esteja no caso - afinal, o carro ultrapassou o sinal vermelho.
Quando recitamos os credos cristãos, começamos dizendo que cremos em Deus, e que não acreditamos simplesmente em alguma coisa a respeito de Deus. Mesmo quando afirmamos que cremos em Deus é Criador do céu e da terra, por exemplo, o compromisso fundamental é com Deus. O que dizemos por Criador está amarrado à crença mais fundamental em Deus. Bem que poderíamos significar diferentes coisas quando dizemos que cremos que Deus é "Criador" como se demonstra pelo contínuo conflito entre os “criacionistas” que acreditam que Deus o mundo literalmente em seis dias e o cientistas que adotam uma escala de tempo para as origens e evolução do universo mas a nossa crença de que Deus é o criador do céu e da terra não depende nem das especulações cosmológicas dos ovos antigos nem das descobertas da astrofísica de nossos dias. A nossa competência para dizer que cremos em Deus como Criador surge de nossa fé mais fundamental e anterior em Deus como fonte e centro de tudo que é, a crença à qual a estória bíblica de Gênesis dá testemunho profundo.
Tais distinções tão óbvias como possam ser são importantes para a religião, em geral, mas, em especial, para a fé cristã. Pelos séculos os cristão têm acreditado em muitas coisas sobre Deus ou Jesus Cristo ou Espírito Santo. Uma grande quantidade de estórias e ensinos se desenvolveram na tradição cristã, algumas das quais não consideramos, hoje em dia, críveis ou edificantes. Considerem Deus raivoso e zangado de muitas pregações de “fogo e enxofre" que refletem muitas estórias da Escritura Hebraica a respeito da vingança de Deus ou estórias mais encantadoras e igualmente mais perturbadoras em alguns dos evangelhos apócrifos (escritos no início da história cristã rejeitados pela comunidade cristã) a respeito do menino Jesus que amaldiçoou seus companheiros porque o bateram num jogo. A história cristã tem aninhado aqueles cujas crenças a respeito de Deus os têm levado a matar ou torturar a si mesmo ou outros "em nome de Deus."
Na história cristã, os cristãos inteligentes e devotos têm, às vezes, discordado muito legitimamente com a forma com que eles falariam sobre Deus e sua relação com eles. No século XIII, Tomás de Aquino falou a respeito de Deus em termos diferentes de Martim Lutero no século XVI. Hoje em dia, há controvérsia considerável entre os cristãos sobre Deus como “Pai", porque alguns acreditam que o “Pai “ é um nome da auto-revelação de Deus e, por isso, é insubstituível, enquanto que outros igualmente devotos e sérios consideram-no um nome que não deve ser mais usado ou usado com bastante reserva porque o "Pai” parece implicar que Deus é masculino.
Naturalmente, em última instância, todo o discurso sobre Deus é uma tentativa, é um gaguejar como um teólogo antigo o expressou. Tomás de Aquino, que escreveu volumes sobre Deus, disse após uma visão de Deus em oração que tudo que ele havia escrito era “palha" e se retirou para o silêncio. Como um dos teólogos contemporâneos, Karl Rahner, havia dito: Deus é Mistério absoluto e os místicos cristãos sempre nos lembraram de que Deus é conhecido no silêncio na “noite escura da alma”. Esta é a razão porque necessitamos de poetas, contadores de estórias e outros com tais dons de imaginação bem como teólogos, pregadores, pois crer em Deus é um ato compromisso, de maravilha e coragem que nos chama para além de nós para uma realidade maior que as nossas palavras podem exprimir.
Todavia, nós, anglicanos juntamente com outros cristãos, ousamos fazer a confissão da fé em Deus todos os domingos quando dizemos um dos credos que usamos em nossa liturgia: o Credo dos apóstolos, na Oração Matutina ou Vespertina e o Credo Niceno, na eucaristia. Batizamos, também, as pessoas com a confissão da fé em Deus Pai Onipotente, em Jesus Cristo, e em Espírito Santo. Seja qual for o conflito que tenhamos a respeito de como falar sobre Deus, ainda estaríamos confessando que “cremos em” em algum tipo de Deus. Quem é esse Deus de Jesus em que cremos?
DESENVOLVIMENTO DA CONFISSÃO SOBRE JESUS
Os primeiros seguidores de Jesus, conforme os primeiros escritos da comunidade cristã, vieram crer que o "filho do carpinteiro”, a quem eles seguiram era mais do quem mestre itinerante e obreiro de maravilhas. Ele tinha alguma coisa a ver com Deus. Como judeus o Deus que eles conheciam era Deus presente na história do seu povo e a quem oravam na comunidade de Israel. Deus com quem Jesus tinha a ver era Deus que eles conheceram de sua própria experiência como bons judeus. O mestre foi crucificado e morreu, todavia, como os primeiros discípulos creram estava ainda presente numa nova e surpreendente, o que eles denominaram de ressurreição.
Várias comunidades se configuraram em torno desta pessoa. Lembraram-no e continuaram no seu ensino e creram que em sua presença com eles naquelas comunidades formadas em seu nome pelo seu Espírito. As estórias sobre Ele e seu ensino vieram, eventualmente, a ser escritos e formam o que chamamos de Novo Testamento - narrativas evangélicas, cartas de Paulo e de outros que escreveram às Igrejas que eles fundaram pelo Império romano.
Também, logo que essas pequenas comunidades, cada qual com suas séries de crenças e estórias lembradas, uniram-se e se organizaram. Elas desenvolveram liturgias para a iniciação de novos membros nas suas comunidades - batismo - e formas de adoração que centrasse em torno de Jesus Cristo por meio de celebração de sua morte e ressurreição - a Eucaristia. Elas reuniram vários escritos a respeito de Jesus e decidiram que eram inspirados pelo Espírito Santo e eram apresentações autênticas Dele o Cânon da Escritura. Natural, no devido curso, também algumas pessoas em cada comunidade foram separadas para ministrar a comunidade - presbíteros e diáconos - ou ter a supervisão( episcope) de várias comunidades o que chamamos hoje de bispos ou pastores principais.
Gradualmente e com grande esforço de conseguir o objetivo através de modo um tanto desorganizado, todos esses escritos, doutrinas e estruturas tomaram forma definida e desenvolveram-se em tradições, costumes, sendo alguns deles de importância central como os ensinos sobre Jesus, e outros de importância menor como o debate de Paulo sobre se a mulher deve cobrir a cabeça ou o homem não deve ter cabelos compridos. A ironia da história cristã está em que, as vezes, costumes menores se tornam fonte de maior conflito do que tradições principais da fé!
Também, no devido curso, depois de pensar, orar, argumentar, debater, crer e adorar muito, as comunidades começaram dar nomes aos eventos da vida histórica de Jesus e de sua contínua presença com elas na comunidade e desenvolver ensinos definidos a respeito desses eventos e a respeito do próprio Jesus. Nomes e ensinos chegaram a nós como doutrinas o que cremos sobre Deus a quem Jesus chamou de Pai, e sobre o próprio Jesus e sobre o Espírito Santo que Ele prometeu a enviar: o Espírito Santo, a Encarnação, a morada do Espírito Santo, graça e salvação.
Catalogadas simplesmente deste modo, as doutrinas sobre Deus podem parecer uma coisa que confunde a gente: construções intelectuais que obscurecem uma fé simples em Jesus. Com efeito, essas doutrinas eram parte da tentativa da Igreja primitiva de explicar e preservar da distorção a estória do que Deus fez e continua fazer em Jesus. O desenvolvimento da doutrina era parte integral da missão da Igreja - contar a estória de Jesus a outros. Devido ao fato de que os discípulos antigos proclamaram o Seu Evangelho num mundo cheio de deuses e divindades, onde até o imperador era um deus, era importante que eles colocassem a estória sob perspectiva certa, isto é, que no "filho do carpinteiro" começou uma nova era e foi revelada a palavra da verdade a respeito de Deus e seres humanos.
Em nenhum lugar essa fé foi mais vigorosamente expressa que no prólogo do Evangelho de João.
No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez...
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
E todos nós recebemos também da sua plenitude, com graça sobre graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. (1.1-3,14,16-17)
Quando você acredita em tais coisas sobre alguém, é importante colocar a Sua estória sob perspectiva certa.
A fim de focalizar certo a estória a Igreja primitiva produziu dois credos, duas profissões de fé. A mais antiga, o Credo Apostólico, que se desenvolveu das afirmações antigas usadas no Batismo. Quando os candidatos em sua incorporação na Igreja eram levados diante da assembléia, confessavam sua fé em Deus, Pai e Criador, em Jesus, o Filho de Deus e Senhor que nasceu da Virgem Maria, que morreu na Cruz e ressurgiu, o qual virá novamente em glória para julgar tudo que é, e em Espírito Santo. O credo batismal é uma expressão simples e direta da fé e é ainda usado, hoje em dia, na Liturgia batismal e nos Ofícios diários da Manhã e da Tarde.
O Credo Niceno foi composto no IV século durante dois Concílios da Igreja primitiva que foram convocados para reconciliar interpretações conflitantes a respeito da natureza de Jesus e sua relação com o Deus Pai. O partido ariano acreditava que Jesus, em sua natureza divina, não poderia ser identificado completamente com Deus eterno e imutável. Argumentar que a divindade de Jesus é una com a divindade de Deus faria Deus, por assim dizer, menos que Deus - tão confundido com a história humana e com o mundo material. Portanto, os arianos concluíram que considerar Jesus o “Filho de Deus" deve significar menos do que verdadeira e completamente divino, alguma coisa mais parecida como um mediador entre a natureza eterna de Deus e a natureza criada dos seres humanos.
O partido oponente, liderado por Atanásio sustentou que, se Jesus fosse alguma coisa menos que a verdadeira natureza do Deus eterno, tal crença teria consequências desastrosas para a nossa salvação em Cristo. Só se Jesus for verdadeiramente Deus, argumentaram eles, os seres humanos podem receber o dom da salvação e vida eterna por meio da obra redentora. Para ser o nosso Salvador, Jesus deve ser “consubstancia” com Deus Pai.
O termo grego que eles usaram era homoousion, termo difícil de se traduzir para o vernáculo, ser ou substância é a tradução mais aproximada. A questão básica, no entanto, consistia em que este ser humano que compartilha completamente a nossa natureza humana, também, compartilha completamente a natureza divina e que pode ser verdadeiramente considerado Deus. Ele não é um semideus ou menos divino (há muitos deles nas religiões greco-romanas.), mas Ele é um com o mesmo deus conhecido ao povo de Israel, o qual criou e governa toda a criação.
A reflexão teológica adicional levou o Concílio de Constantinopla em 381 incluir no Credo Niceno uma confissão similar na divindade do Espírito Santo, “Senhor, doador da vida, que procede do Pai [ e do Filho]"¹. A versão final do Credo de Nicéia tornou-se confissão básica da fé cristã e hoje em dia é dito cada domingo na Eucaristia da Igreja Episcopal como uma declaração teológica de nossa crença em Deus.
O conflito a respeito da natureza de Jesus não terminou ali. O Concílio de Nicéia deixou questões significativas para serem exploradas pelas futuras gerações de cristãos. Agora que confessamos que Jesus é verdadeiramente Deus, verdadeiramente um com a natureza divina, que isso diz acerca de sua vida humana? Ele é verdadeiramente humano, um ser humano como nos tentado como nós, sofre como qualquer um de nós ou Ele apenas parece ser um ser humano de modo que sua vida entre nós e sua morte era somente um disfarce? Se não foi tentado como nós Ele pode nos salvar realmente? Se Ele realmente não sofreu e não morreu na cruz como uma verdadeira pessoa humana, pode, então, sua ressurreição ter algum sentido para nós?
Os escritos do Novo Testamento deixaram claro que Jesus era um ser humano, homem com todas as características normais de nossa humanidade. Ele nasceu de uma mãe humana, cresceu, perambulou, conversou com seus discípulos, comeu, dormiu, ficou zangado, cansou, chorou, e, finalmente, foi morto. Porém o Novo Testamento deixou muito claro, também, que Ele era muito mais que um ser humano comum, um camarada médio, por assim dizer. Seu nascimento, conforme algumas narrativas, foi milagroso. Ele fez milagres de cura e muito para o espanto de seus seguidores, perdoou os pecados do povo, ensinou a sabedoria de Deus. No Evangelho de João Ele é lembrado como tendo-se identificado com Deus e tendo dito que Ele enviaria o Espírito de Deus para estar com seus discípulos. Ele foi ressuscitado dentre os mortos e elevado à glória de seu Pai nos céus.
E ainda mais importante, os cristãos primitivos vieram por meio de oração e adoração crer Nele como o Messias da esperança judaica, o Salvador, o Filho de Deus, o qual foi eternamente gerado de Deus, e que continuou estar presente com a comunidade dos crentes que se reuniam para lembrá-lo na Santa Eucaristia. Quem era Ele? Certamente, mais do que alguém pretendendo ser Deus, certamente, mais do que Deu pretendendo ser humano. Ele não era, com certeza, como disse um pregador confuso “metade Deus e metade humano". Mais importante do que isso é: quem ele é hoje? Em Sua glória, “à direita do Pai" ainda compartilha a nossa humanidade, de modo que possamos continuar confessando-o como verdadeiramente Deus e Verdadeiramente humano?
¹ A frase e do Filho, filioque, não fazia parte do credo original. Foi aditada pelo Igreja do Ocidente durante controvérsias posteriores sobre o arianismo e é rejeitada pelas Igrejas Ortodoxas do Oriente tanto pelas razões teológica quanto históricas. É ainda é um pomo de discórdia entre os dois grandes ramos da Igreja Cristã. Há algum movimento dentro das Igrejas da Comunhão Anglicana para remove-la da versão do credo no Livro de Oração Comum, ou, pelo menos, coloca-la entre colchetes, para que o credo mais verdadeiramente ecumênico. Todavia há problemas maiores ao proceder sua remoção, visto que a frase e a doutrina que ela representa têm sido parte da teologia e espiritualidade ocidentais por muitos séculos.
Para debater essas questões um outro concílio foi convocado na cidade de Calcedônia em 451. As respostas não vieram facilmente e só depois de muito debate que os bispos e os teólogos decidiram sobre a linguagem que os cristãos devem usar na conversa sobre sua fé em Jesus como Deus e ser humano. Todavia, tentaram expressar inadequadamente o mistério cristão fundamental da fé em Jesus Cristo, pessoa que vive no tempo e no espaço, o qual é a presença do Deus Santo e eterno conosco.
Na sua definição de Calcedônia, ( o texto pode ser encontrado na seção sobre o documentos históricos, no Livro de Oração Comum Americano) os bispos e teólogos declaram que quando se fala em Jesus devemos dizer que Ele é completamente Deus e completamente humano (anthropos no grego) consistindo de alma e de corpo e consubstancial (homoousios) com o Pai e, ao mesmo tempo, uma substância conosco, como nós de toda forma, à parte do pecado, . Jesus foi gerado do Pai antes de todos os tempos e nascido de Virgem Maria (theotokos, aquela que deu nascimento a Deus, o Filho) para a nossa salvação. Por conseguinte, devemos confessa-lo como “um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito em “duas naturezas que forma uma pessoa".
O mistério que essas palavras procuram esclarecer é que Jesus é uma pessoa, um indivíduo. Ele não é alguém dividido em duas partes - “meio Deus e meio humano”. Ao invés disso, Ele é a unidade de tudo que é Deus e tudo que é humano. A nossa esperança da salvação deve ser encontrada precisamente em sua unidade como pessoa, divina e humana. Por meio Dele como ser humano, nós, seres humanos somos unidos com Deus. Jesus Cristo é a presença de Deus conosco numa vida inteiramente humana.
Que toda essa linguagem teológica significa par nós cristãos? Deixem-me tentar explicar isso em termos de minha própria experiência de viver no Cristo encarnado. Através dos anos aprendi que só na oferenda de tudo que somos - nosso pecados, nossas falhas, bem como todas as coisas boas a respeito de nós mesmos - podemos encontrar a união última com Deus, o que denominamos de salvação ou vida eterna. Posso oferecer a mim mesmo, por mais que tenha, hesitação quase sempre, só porque por meio da fé em Jesus compartilho a vida daquele que era como eu, um ser completamente humano com todas as nossas limitações de nossa humanidade, mas que, também, demonstrou nessa vida humana o que significa ser um com Deus.
Por outro lado, quase todo o tempo estou dividido, fazendo guinadas para muitas direções diferentes, incerto a respeito do que quero e preciso, rasgado entre meu desejo por Deus e pela idolatria de mim mesmo. A minha esperança e é a esperança de todos os seres humanos, acredito - ser uma pessoa, em união de amor com a Fonte de tudo quanto é e com os seres humanos companheiros. Só então posso ser verdadeiramente eu mesmo.
Naturalmente, não posso ler a mente dos que compuseram a Definição de Calcedônia, mas acredito que na linguagem deles altamente técnica podemos ouvir a mesma esperança. A nossa esperança da salvação e da vida eterna deve ser encontrada na pessoa Jesus, que é um com Deus e um conosco não alguém cortado ao meio entre a chamada divina e a existência humana, mas alguém que nos mostrou como é a vida com Deus e que agora mesmo nos possibilita compartilhar essa vida. Seja qual for a linguagem que usamos, seja de Calcedônia seja outra, para descrever tal esperança, esta é a fé cristã na Encarnação de Deus em Cristo.
FÉ - EXPERIÊNCIA MUITO LIGADA COM A COMUNIDADE DE FÉ
Que espécie de Deus em quem cremos - as palavras e figuras que usamos para descrever Deus - têm sérias conseqüências para o modo como vivemos as nossas vidas. A nossa imagem de Deus influirá no modo como oramos e como experimentamos a presença de Deus, no que os nossos princípios morais são e na forma como as nossas crenças influem as nossas decisões cotidianas de votar, comer, beber, práticas sexuais, e todo o resto. Todos nós temos convicções e preconceitos que, na superfície, podem parecer que pouco tem a ver com crer em Deus. Porém quando examinamos as nossas convicções e preconceitos mais profundamente descobrimos freqüentemente que eles são conseqüências de um crença mais profunda ou de um tipo de descrença num certo tipo de Deus.
O passo intelectual e emocional do crer em Deus dum modo geral para crer numa espécie de Deus envolve muitos fatores. Como muitos outros passos desse gênero na vida de pessoa - apaixonar-se, e fazer compromisso de vida com outra pessoa, por exemplo, - podem ser resultado da educação da pessoa, origem étnica, formação cultural, a linguagem que fala, orientação sexual, gênero, status de família e de multidão de outros fatores psicológico, econômico e político. Como acreditamos não é uma questão de uma boa ou má teologia. Uma pessoa que cresceu com os pais zangados e ofensivos podem ter muita dificuldade em crer que Deus ama e perdoa. Uma pessoa que viveu numa sociedade onde o poder e autoridade são exercidos apenas por um grupo bem pode crer que Deus é sua exclusiva propriedade. E pode haver muitas outras variações.
Em outras palavras, há muitas razões diferentes para o por que e como cremos da forma como cremos. Já faz tempo quando alguém se tornava cristão por falta de alternativas religiosas viáveis. Certamente, ser anglicano é jamais conseqüência de cultura ou de classe em que se encaixa por acidente de nascimento. Hoje em dia, a maioria das pessoas fazem alguma espécie de escolha - decisão de crer ou não, decisão de crer deste jeito ao invés daquele jeito. A escolha que fazemos tem importância, porque ela tem conseqüência para aquilo que somos e para aquilo para o qual nos tornamos.
Como disse no primeiro capítulo deste livro, quando u narrava alguma coisa de minha própria história com a Igreja Episcopal, realmente, não tinha que fazer escolha para crer no Deus cristão - tal crença era parte do mundo em que cresci - mais ou menos caí dentro da Igreja Episcopal por acidente, ou como gostaria acreditar, pela direção de deu. Não fiz uma escolha muito consciente. Porém, à medida que continuei ser anglicano através dos anos, tornei-me mais e mais consciente do porque permaneço com ela. Permaneço esta comunidade não porque é agradável ou conveniente, mas porque eu creio que, nesta comunidade particular de fé, um certo tipo de Deus me fez conhecer.
Crer em certa espécie de Deus é o que quero dizer quando eu digo que sou cristão e não uma outra espécie de crente - budista ou muçulmano ou crente de uma das outras grandes traições religiosas. Mas nem sempre é fácil de crer de tal maneira, crer em tal Deus. Nas condições concretas diárias de minha vida e da vida de outros, surgem problemas e tensões quando procuro entender que significa tal crença. Como devo relacionar a fé em Deus com as decisões que devo tomar e com espécie de vida que devo levar? Em que espécie de pessoa a minha fé exige que me torne? Que fazer com os problemas e tensões que surgem de minha própria dúvida e desespero ou da dúvida e desespero de outros? Como continuar crendo em Deus que está presente em Jesus Cristo e Espírito Santo, Naquele que vai renovar todas as coisas, quando somos confrontados pela dor do parto deste mundo triste: ódio, guerra, violência, injustiça, pobreza e todo o resto que lemos nos jornais, vemos nas ruas e nas televisões? O mundo está cheio de dor e é, muitas vezes, difícil de crer em Deus. Todos os cristãos devem lidar com tais questões, pois elas surgem da tensão entre a nossa fé em certa espécie de Deus e as condições de nossa humanidade. O mundo em que vivemos está longe de ser o Reino prometido a nós.
Muitos de nós encontram no anglicanismo uma comunidade de fé que, cremos, nos proporciona um jeito de crer sem negar que essa tensão de fé é real e presente. Talvez não sejamos sempre capazes de dar respostas claras e definidas e a respostas que damos podem sem sempre ser as melhores. Mas cremos que a nossa maneira de tratar os problemas e questões nos capacitam a continuar crendo m Deus que está presente em Jesus Cristo e no Espírito Santo. É o que denomino de crer com a comunidade da fé, sendo sustentado na fé por aqueles com os quais compartilho a fé e luta - a Igreja. A Igreja, cremos, com toda a sua história de fracasso, é ainda a comunidade de pessoas separadas para Deus. Somos separados para ser a presença pessoal e testemunho de Deus no mundo, o corpo de Cristo, comunidade de adoração e lugar de juízo, graça e esperança da glória.
Aqueles, para os quais a Igreja é parte profundamente importante de suas vidas, estão conscientes da disparidade entre o que cremos sobre Deus e a Igreja como ela realmente existe na história. Talvez estejamos mais conscientes da discrepância do que os que não estão na Igreja. Tentamos entender essa questão dirigindo a nossa para Jesus Cristo, isto é, considerando o que a fé em Jesus Cristo como Salvador nos diz a respeito de Deus e dos caminhos de Deus conosco. Quando dirigimos a nossa atenção para Jesus como a verdade a respeito de Deus e a respeito de nossas vidas, cremos que temos a revelação de que o Deus Santo e transcendente vem a nós em todas as coisas pelas quais temos de passar. Deus vem a nós e fica conosco não como uma presença fugaz, um estranho que faz uma visita ligeira, e casual, mas alguém que permanece conosco em tudo que realmente importa na vida humana: alegria, amor, desejo da justiça, coragem, perdão bem como fracasso, dor, sofrimento, e morte. Como cristãos cremos que Deus é conosco na comunidade que denominamos de Igreja, comunidade que crê que o Deus que transcende toda a história está, na vida do ser humano de Jesus, presente conosco e nossa história nossa história como indivíduos e nossa história como Igreja.
Às vezes. Gostaria eu de pensar que o Deus feito conhecido em Jesus Cristo não é realmente o que Deus é. Por vezes, penso que teria preferência por um Deus está sentado tranqüilamente num trono celestial bem distante da agonia e dor humanos. É mais fácil crer num Deus que vem do céu, de quando em quando e arranca a mim e aos outros dos apuros em que nos envolvemos - deus ex-machina dos dramas antigos em que deus desce numa carruagem de guerra, resolve todos os problemas e sobe de novo para o céu para o aplauso de todos. Posso até mesmo me encontrar orando dessa maneira: Deus, por favor, resolve todos os meus problemas, faze limpeza no mundo, torna tudo belo, afinal, tens o poder de fazer desaparecer tudo que é ruim. Porém crer em Jesus Cristo não me permite crer e orar dessa forma, pelo menos por muito tempo. Crer em Jesus sempre me leva a dirigir a minha atenção para Deus, que está comigo nos apuros, ajudando-me a tratar da situação e transforma-la e a mim no processo e não me arrancando dos apuros.
Também, às vezes, penso que gostaria de pertencer a uma Igreja que é pura, santa sem mancha, sem pecadores, sem políticos, sem a necessidade de pagar os seguros ou ter consultas jurídicas, e, certamente, sem gente que sofre e que tenha de fazer duras decisões acerca das drogas, sexo, aborto, suicídio assistido e questões sombrias financeiras. A vida paroquial seria muito mais fácil sem todos esses problemas. Quando lecionava no Seminários teológicos descobria que os estudantes chegavam cada no cheios de sonhos a respeito de como seria passar três anos em oração e estudo, cercados pelos santos e distante das tentações do mundo, da carne e do demônio: a Igreja do modo como deve ser. Ai deles! Os sonhos não duravam muito. Com efeito, os estudantes aprendiam ligeiro que eles e seus colegas levam vidas tão confusas e pecaminosas quanto as daqueles que “vivem no mundo."
Naturalmente, há diferença entre lutar com a confusão e pecado de nossas vidas enquanto vive numa comunidade que crê num Deus presente conosco em Jesus Cristo e lutar de acordo com o mundo que crê num Deus ausente e alheio aos problemas. Para o cristão o que torna diferente é a nossa fé em Jesus Cristo. A fé em Jesus nos chama a crer que Deus, o Eterno e Santo, está conosco na morte como na vida, na tristeza, na alegria. É isso que queremos dizer quando dizemos que Deus está conosco em Jesus Cristo. Em sua vida, morte e ressurreição e na sua exaltação e no envio do Espírito Santo no Pentecostes, Jesus nos mostra quem Deus é. E, pelo seu espírito nos capacita ter fé em Deus que governa este mundo triste e o levará para a sua glória.
Os Credos e a Definição de Calcedônia têm sido modos formais de declarar essa crença em Jesus Cristo por muitas gerações. São declarações acerca do que a comunidade cristã tem crido para colocar a estória sob perspectiva certa. Ser capaz de contar a estória de Jesus de modo certo envolveu, naturalmente, muitos fatores: escritos teológicos, sermões, catequese dos neófitos para o batismo, o modo como os cristãos primitivos tratar do mundo em que viviam e adoraram. Os primeiros cristãos creram que, na adoração, não só contavam a estória de Jesus vida, sua morte e sua ressurreição e exaltação - também entraram na estória. Na adoração tomaram parte no mistério da redenção feita possível pela vida de Jesus. Assim a encarnação não era simplesmente uma fórmula verbal que alguém projetou, Era primeiramente uma doutrina que expressou em palavras a nova vida que eles receberam em Cristo.
No anglicanismo, como se desenvolveu historicamente muito disso tem sido verdade. A encarnação de Deus em Cristo veio a ser mais do que uma verdade ou doutrina sobre Jesus. Tornou-se para nós uma expressão de nosso jeito de crer - nossa maneira de crer em Deus e o que nossa fé em Deus diz a respeito de nós. A fé na encarnação é uma questão de identidade para os anglicanos e importante para o modo como entendemos a Igreja e o modo como interpretamos a Bíblia. Por essa razão os anglicanos sempre dirigiram a sua atenção para as decisões dos Concílios ecumênicos e para as difíceis declarações doutrinais que eles desenvolveram para o auxílio na interpretação da Bíblia e na manutenção das doutrinas da Trindade e da Encarnação.
Porém, para os anglicanos a encarnação é, também é um modo de crer por meio do que fazemos na adoração. A adoração de Deus, à medida que se orna vida profunda de coração e mente, deve estar em Cristo: em sua humanidade, em sua unidade conosco como seres humanos oferecemos a nós mesmos a Deus com quem Jesus é um na sua divindade. Assim como por meio de sua adoração a Igreja dos primeiros séculos veio a crer em “Deus-conosco", isto e, Deus presente em Jesus Cristo, assim, também