Anglicanismo Comparado
DIOCESE DO RECIFE – COMUNHÃO ANGLICANA
Recife (PE), 11 de fevereiro de 2008. Bispo Robinson Cavalcanti
INTRODUÇÃO
A origem da Igreja está na pessoa histórica de Jesus Cristo, o Messias prometido a Israel para as nações. A base fundacional da Igreja está na “pedra” (afirmativa): “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16), expressada por Pedro, representando o pensamento coletivo do Colégio Apostólico. Sobre essa “pedra” (afirmativa) Ele edificaria a Sua Igreja: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” (Mt 16:18).
Após a sua vitoriosa ressurreição, Ele soprou sobre os discípulos, dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20:22). Esse Consolador prometido – Terceira Pessoa da Santíssima Trindade – seria derramado sobre os discípulos atemorizados no Dia do Pentecostes, dando início à Igreja. Cristo é o fundamento, e os Apóstolos os seus instrumentos de expansão, desde Jerusalém até “os confins da terra” (At 1:8). Os Apóstolos conviveram com o Senhor por três anos, foram testemunhas da Ressurreição (Lc 24:48; At 2:32), e receberam a tarefa de dar continuidade à obra do Senhor (Mt 10:5-14; Mt 28:18-20; Lc 9:1-6).
Os Apóstolos se espalharam por diversas regiões, estabeleceram centros de irradiação do Evangelho em cidades-chaves, as Sés, ou sedes, lugar das cátedras, do ensino: as Catedrais. São Marcos, por exemplo, inicia a Igreja de Alexandria, no Egito, de onde descende hoje a Igreja Copta, e as Igrejas da Etiópia e da Eritréia, no Leste da África. São Tomé evangeliza em Antioquia, e, segundo a tradição, chega à Índia. Dele descende hoje as Igrejas Ortodoxas Antioquinas, Sirianas e Mar Thoma. A primeira fase de expansão foi no Oriente. As Igrejas Orientais são as primeiras, as mais antigas. Não havia uma autoridade central, mas a instituição se baseava na colegialidade dos bispos, metropolitas ou arcebispos (cidades principais) e patriarcas, reunidos em Concílio, os chamados “Concílios da Igreja Indivisa”.
Os discípulos dos Apóstolos foram chamados de Pais Apostólicos, e os discípulos destes de Pais da Igreja. Muitos foram Mestres e muitos foram Mártires. Essa Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica estabeleceu o Cânon (lista oficial) do Novo Testamento, as doutrinas nucleares, nos Credos Apostólico e Niceno, o reconhecimento dos dois Sacramentos instituídos pelo próprio Cristo: o Batismo e a Eucaristia, os primeiros ritos e o estabelecimento universal do Episcopado como forma de governo eclesiástico, com os Bispos sucedendo os apóstolos, ao lado das ordens dos Presbíteros e dos Diáconos.
Os Bispos ou eram missionários pioneiros ou eram superintendentes de uma região (Diocese). Os Presbíteros pastoreavam as comunidades locais (Paróquias), sob a autoridade do Bispo, e auxiliados pelos Diáconos (estes voltados prioritariamente para o serviço).
Diferenças culturais, e de aspectos secundários da doutrina, dividiram os cristãos do Oriente em: a) Bizantinos (a maioria) sob a liderança espiritual do Patriarca de Constantinopla (hoje Istambul, na Turquia); b) Os Pré-Efesianos, ou Nestorianos, que chegaram junto até o Concílio de Éfeso (431): Igreja Assíria do Leste, que, em seu apogeu, teve 400 Dioceses;
c) Os Pré-Calcedônicos, que não incorporaram as decisões do Concílio de Calcedônia (realizado entre 8 de Outubro e 1 de Novembro de 451): Igrejas Siriana, Armênia, Copta, Etíope, Mar Thoma (da Índia). Algumas outras Igrejas orientais, como a Maronita, a Melquita e a Caldéia, séculos depois, se uniriam à Igreja de Roma, mantendo a sua autonomia, e são denominadas de “Uniatas”.
Uma rivalidade maior se estabeleceu entre as Igrejas das duas capitais imperiais: Constantinopla (depois chamada de Bizâncio), capital do Império Romano do Oriente, e Roma, capital do Império Romano do Ocidente, a primeira de cultura grega e a segunda de cultura latina. O Império Romano do Ocidente foi destruído pelos povos ditos “bárbaros” no século V, concorrendo para o fortalecimento da Igreja de Roma como força cultural, moral e espiritual re-aglutinadora, do que seria depois (com hegemonia germânica) denominado de Sacro-Império Germânico Romano, dando lugar ao papado como poder político. O Império Romano do Oriente subsistiu por mais mil anos, até o século XV, com os imperadores mais fortes que os patriarcas, em um sistema conhecido como césaro-papismo.
Um conflito entre o Ocidente e o Oriente se deu em razão da “cláusula filioque” no Credo. No Oriente, a versão original dizia que o Espírito Santo procede do Pai. No Ocidente, posteriormente, foi acrescentado “e do Filho” (filioque). O Bispo de Roma nunca foi aceito como chefe pelos bispos e patriarcas de todas as Igrejas orientais por muitos séculos, mas recebia honorificamente um “primado de honra”, por ser o Bispo da antiga capital. Seu papel não era maior do que o do Arcebispo de Cantuária hoje, entre os Anglicanos.
A história difundida no Ocidente até os nossos dias, de que a Igreja de Roma é a Igreja Original, fundada por Cristo em Pedro, e que todas as outras se separaram dela, não se sustenta pelas evidências históricas científicas, e nunca foi aceita pelas Igrejas do Oriente.
Para os historiadores das Igrejas orientais, o Bispo de Roma, Patriarca do Ocidente, é que se separou dos seus irmãos, não apenas por razões culturais ou doutrinárias menores, mas por sua pretensão de ser “a” Igreja e ele “o” “Vigário de Cristo”. Lamentamos que a História da Igreja sob uma perspectiva dos seus ramos orientais tão antigos seja, em geral, desconhecida no Ocidente, e que seminários reformados continuem ensinando a mais do que questionável versão romana.
Em resumo: a Igreja é fundada por Jesus Cristo, sobre o seu messiado, pelo poder do Espírito Santo, sob a autoridade dos Apóstolos, e dos seus sucessores, os Bispos, com a doutrina definida nos Credos deliberados pelos Concílios da Igreja Indivisa.
OS ANGLICANOS
Os Anglicanos formam o ramo do Cristianismo Histórico que têm suas raízes na Grã-Bretanha, onde se situa a Inglaterra, cuja região central é denominada de Anglia, a terra dos anglos. A Grã-Bretanha também inclui a Escócia, Gales, Irlanda e a Ilha de Man. A Inglaterra (terra dos anglos) foi conquistada pelo imperador Júlio César no ano 55 a.C., mas Roma levou um século para dominar toda a Grã Bretanha, com suas colônias, estabelecimentos militares e entrepostos militares, em uma era de prosperidade, que durou três séculos. A Irlanda, a Escócia, Gales, a Ilha de Man e o norte da Inglaterra passaram a ser habitados, permanentemente, pelo povo Celta, originário da Bulgária, no leste, e que se expandiu por toda a Europa, fincando raízes nas Gálias (França), Península Ibérica e Ilhas Britânicas. O sul da Inglaterra conheceu sucessivas levas de invasores.
Podemos dividir a História da Igreja na Ilhas Britânicas em três fases:
- A Fase Celta;
- A Fase Católico-Romana;
- A Fase Reformada.
A FASE CELTA (Séculos I ao VII)
Não houve nenhum esforço missionário formal, nem das Igrejas do Oriente, nem da Igreja do Ocidente, para evangelizar as Ilhas Britânicas. Ela foi o resultado do esforço dos leigos. Soldados, funcionários civis e comerciantes cristãos romanos levaram o Evangelho para aquelas ilhas. Também, no ano 70 d.C., dentre os escravos perseguidos nas Gálias (França) que fugiram para o litoral inglês, estavam grupos de cristãos. Uma tradição atribui à presença de José de Arimatéia, no primeiro século. Há sítos arqueológicos desse período, como uma Capela em Kent, uma Igreja em Silchester e a presença, em vários lugares, de símbolos cristãos, como o XP. Tertuliano afirma a existência da comunidade cristã britânica no ano 200. Três bispos ingleses estiveram presentes ao Concílio de Arles, no sul da França, em 314. Não se sabe se estiveram no Concílio de Nicéia (325), mas Atanásio informa que a Igreja inglesa se submeteu às suas deliberações.
A realidade é que o povo Celta se converteu ao Cristianismo, e teve o seu primeiro mártir na pessoa de Santo Albano, sacerdote morto durante a perseguição do imperador Diocleciano (305). A Irlanda foi marcada pelo ministério de Patrício e Paládio, a Escócia pelo ministério de Nínian e Columba, e Gales pelo ministério de Davi.
A Igreja Celta tinha um forte acento místico, ascético e missionário, sendo influenciado pela contemplação da Igreja Oriental, inclusive pela adoção da sua versão do Credo. Essa contemplação litúrgica, esse sentir da fé, essa valorização da natureza, a diferenciava da visão jurídica, filosófica e institucional da Cristandade euro-ocidental sob Roma. Sua unidade básica era o mosteiro, com uma área de influência, sob a autoridade de um Abade. Alguns abades eram bispos, mas a maioria dos bispos era missionária. Com essas regiões abaciais, eles não conheceram a figura da Diocese, no modelo romano.
A Igreja Celta funcionou até o século VII como um ramo autônomo do Cristianismo, se comportando como parte da Igreja Católica (universal), mas sem vínculos formais ou subordinação à Igreja de Roma. A partir do século V as regiões sul e centro da Inglaterra foram invadidas por anglos, saxões e jutos, que a descristianizaram ou re-paganizaram. Foi por isso que o Papa Gregório Magno, decidiu enviar uma força missionária para aquelas regiões, formada por 40 monges beneditinos, sob a liderança de Agostinho, que se estabeleceram na cidade de Cantuária (Canterbury) perto do litoral. Além do objetivo de re-cristanizar a Inglaterra, aqueles monges deveriam tentar levar a Igreja Celta a se vincular a Roma, respeitando, tanto quanto o possível, os seus costumes.
Agostinho foi feito Bispo, bem como o seu companheiro Paulinus, responsável pelo batismo do rei Dewin, da Nortúmbria, e pela “conversão” da nação. Nessa época é estabelecido um importante centro monástico na ilha de Iona, sob a liderança de Santo Aidan.
O período da Igreja Celta autônoma chegou ao fim com a convocação, pelo rei Oswy, da Nortúmbria, de delegados celtas e romanos, para um Concílio na cidade de Whitby, em 664, quando os celtas aceitaram a data da Páscoa romana e se submeteram à autoridade papal, apesar de resistências de vários líderes, como São Cutberto, Bispo de Lindisfarne (uma histórica Sé celta). O Papa cria o Arcebispado de York, segundo em honra ao Arcebispado de Cantuária, e símbolo da herança celta. Não houve uma continuidade de sucessão apostólica dos bispos celtas. O Episcopado Histórico Anglicano tem início com Agostinho.
A FASE CATÓLICO-ROMANA (Séculos VII a XVI)
Nos primeiros séculos, após a vinculação com a Igreja de Roma, prosseguiu a vida tradicional da Igreja Celta, mas a criação das Dioceses e a designação de bispos, com a evangelização das áreas mais remotas, e uma maior disciplina para o clero, sendo percebido como líder de toda a Igreja inglesa, foi obra de Teodoro de Tarso, titular de Cantuária por 21 anos. Os papas canalizaram o fervor missionário dos celtas para a evangelização da Alemanha e da Escandinávia. Politicamente, a Inglaterra não era um país unificado, mas um conjunto de reinos e feudos, aos quais se ligavam os párocos de aldeia. Enquanto isso, o monasticismo celta ia adotando a regra beneditina. Os séculos VII e VIII produziram intelectuais de expressão, como Adelmo, Alcuino e o Venerável Beda, autor da “História Eclesiástica do Povo Inglês”.
No século IX a Inglaterra foi invadida pelos vikings, que destruíram quase tudo o que tinha sido construído pela Igreja, saquearam Cantuária e incendiaram a Catedral. Alguns desses invasores se fixaram na terra concorrendo para o sincretismo com o cristianismo popular, particularmente a prática de magias. Ironicamente, enquanto os vikings escandinavos estavam destruindo o cristianismo inglês, os missionários ingleses estavam evangelizando a Escandinávia. A resistência aos invasores se fez, principalmente, a partir do reino cristão de Wessex, liderado pelo rei Alfredo, cujas leis se constituíram na base do Direito inglês, e que foi denominado de “o protetor dos pobres”. Outro foco de resistência foi um movimento de reavivamento monástico, liderado por Dunstan, Abade de Glastombury, e, depois Arcebispo de Cantuária. No século X a Inglaterra caminhava para uma maior união política, e a Igreja contava com 18 Dioceses, com todos os cargos paroquiais preenchidos.
Em 1016 a Inglaterra sofreu nova invasão normanda, mas, dessa vez, tendo à frente um cristão convertido, dinamarquês de nascimento, Cnut, que foi proclamado rei do país, aprofundou os vínculos dos cristãos ingleses com a Igreja de Roma, e quebrou o monopólio dos beneditinos, abrindo as portas para outras ordens e congregações.
Já se afirmou que: “A conquista normanda deu fim a uma era de sete séculos de um cristianismo inglês, que tinha nascido na Britânia romana e tinha passado, sucessivamente, pelas etapas celta, anglo-saxônica e escandinava. Do tempo de Agostinho em diante, por quatro séculos, a Igreja Inglesa tinha estado na órbita papal. Na era normanda, a autoridade papal passaria a ser fortalecida grandemente...”.
Outro autor, comentando esse período, afirmou: “...sempre houve uma certa insatisfação na Igreja Inglesa, por ter que se submeter a uma Igreja estrangeira (romana). Esta animosidade se intensifica a partir do décimo segundo século, e dá início a tensões que são inegáveis. No século XII, por exemplo, o rei Henrique II limitou o poder do clero inglês, quando lhe proibiu a possibilidade de apelar a Roma, quando limitou a autoridade da Igreja em imprimir censuras, e quando subordinou a permissão ao rei as viagens dos bispos para o exterior. Em 1164, ficou estabelecido, na Dieta de Cheredon, que a eleição dos prelados só se faria com a aprovação do rei, a quem os eleitos antes da sagração deveriam prestar juramento de vassalagem e fidelidade. O Ato de Provisão (1351) e o Estatuto Praemunire (1353) proíbem, respectivamente, a entrada em território britânico de qualquer bula ou sentença papais, e impedem a apelação a tribunais eclesiásticos estrangeiros, declarando ilegítimas todas as nomeações feitas pelos papas”.
As tensões entre os monarcas e os papas eram uma marca da Europa daquela época, com o início das consciências nacionais (que resultariam na criação dos Estados Nacionais) e os sentimentos nacionalistas. Um caso dramático foi, primeiro, o exílio, e, posteriormente, o assassinato do Arcebispo de Cantuária Thomas Becket, no reinado de Henrique II.
No século XIII, com a ida para as cruzadas do rei Ricardo, “Coração de Leão”, assumiu o trono inglês o seu irmão, João, o “Sem Terra”, a que os nobres, reunidos em Parlamento, forçaram a assinar o
histórico documento de direitos, a “Magna Carta” (1215), onde aparece pela primeira vez a expressão “Igreja Anglicana”, na cláusula que diz “a Igreja Anglicana será livre”.
O século XIV significou um momento de inflexão na história medieval, com o início da decadência do poder papal, com o chamado “Cativeiro Babilônico”, com os papas, de 1309 a 1377, prisioneiros dos reis franceses em Avignon (todos os papas desse período foram franceses...), e o desgaste para a instituição com um papa em Roma excomungando o Papa de Avignon e vice-versa. A eleição de um terceiro papa “desempatador” não foi aceita, e somente com a eleição de um quarto papa, com suficiente respaldo dos poderes temporais, houve o regresso a um papado unificado, mas desgastado e fragilizado.
É nesse contexto que a Inglaterra vai ser o lugar para o mais importante episódio da Pré-Reforma, com John Wycliffe (1328-1384), professor da Universidade de Oxford, denominado de “a estrela matutina da Reforma”. Wycliffe teceu fortes críticas à instituição do papado, condenou a simonia (compra de cargos eclesiásticos) e as indulgências (anistia de pecados mediante pagamento), negou a doutrina da transubstanciação, defendeu o confisco dos bens da Igreja pelo Estado, e a necessidade do povo conhecer as Sagradas Escrituras em sua própria língua, sendo as mesmas o único fundamento da fé. Suas ideias correram a Europa, e influenciaram Jerônimo, professor da Universidade de Praga (na Boêmia, província Tcheca) e seu jovem discípulo Jan Huss, que, apesar de ter conseguido um Salvo Conduto do Concílio de Constança, foi queimado vivo.
Wycliffe fundou, dentre os jovens alunos de Oxford, oriundos da aristocracia, uma ordem mendicante, conhecida como os “Lolardos”, que iam pelas aldeias pregando e distribuindo porções bíblicas, e que foi condenada pelo estatuto “De Heretico Comburendo”, que autorizava a execução dos que não abjurassem. O movimento, mesmo perseguido, permaneceu clandestino por cerca de um século e meio, até a Reforma.
A FASE REFORMADA (Século XVI aos Nossos Dias)
O Sacro-Império Germânico Romano, como unidade política sob a hegemonia papal, estava se desintegrando sob a força do emergente nacionalismo. O feudalismo também iniciava o seu declínio. Dentre as forças políticas medievais, declinavam o Papa, o Imperador e os Barões, e se fortaleciam os Reis e a nobreza. O próximo passo seria a independência dos países, mas romper com o Sacro-Império era, também, romper com o papado. A situação da Inglaterra não era diferente, com a diferença que sua Igreja fora independente no passado, que sempre tinha mantido uma relativa autonomia, e que recebera a influência da Pré-Reforma de John Wycliffe.
Ao contrário de Wycliffe, Lutero e os reformadores tiveram a seu favor a descoberta da imprensa e a conversão do seu inventor, Gutemberg, o que possibilitaria uma rápida disseminação de suas ideias. As 95 Teses foram afixadas por Lutero, em Wittemberg, em 31 de outubro de 1517. Já em 1520 as ideias protestantes eram estudadas pelo clero inglês e por professores e alunos das Universidades de Oxford e Cambridge. Cambridge se tornou, desde cedo, o epicentro da Reforma Inglesa, com as reuniões de debate se dando todas as tardes na Taverna do Cavalo Branco.
Por um lado, temos que desmistificar a versão de que “a Igreja Anglicana foi fundada pelo rei Henrique VIII”, pois, como já se disse: “A Reforma Inglesa viria com Henrique VIII, sem ele ou contra ele”.
Henrique VIII, a partir de 1509, teve uma gestão positiva como rei, fundando a primeira escola secundária pública do reino, em um anexo à Catedral de Cantuária (o “King’s School”), que funciona até hoje. A questão da sucessão dinástica não era, então, um assunto privado, mas uma questão de
segurança nacional. Anulações de casamentos, por interesse político, já conheciam precedentes por parte do papado. O que não acontece em seu caso, em razão da sua primeira esposa ser sobrinha do Imperador. O rei era, originalmente, um devoto católico romano, chegando a escrever um texto para refutar as posições de Lutero sobre os Sacramentos, recebendo do papa o título de Defensor da Fé (Defensor Fidei), usado pelos reis ingleses ainda hoje.
O cenário começa a mudar com a posse de Thomas Cranmer como Arcebispo de Cantuária, em 1533. Cranmer, professor em Cambridge, já tinha aderido ao Protestantismo, e era um dos componentes do grupo da Taverna do Cavalo Branco. Ele anula o primeiro casamento do rei, e celebra o novo casamento. O Parlamento – cheio de nacionalistas – aprova essas medidas. O Parlamento agora tratando o papa de “o Bispo de Roma, também chamado de Papa”, foi aprovando uma sucessão de leis de afirmação da autonomia da Igreja Inglesa. Os mosteiros foram dissolvidos. As terras da Igreja sofreram uma reforma agrária. Suspendeu-se o envio de impostos para o papa e para o imperador. O rei recebeu, em 1534, o título de “Governador e Suprema Cabeça da Igreja”. O Arcebispo de Cantuária é estabelecido como titular da hierarquia. Surgia a Igreja da Inglaterra como Igreja Nacional.
A Reforma Inglesa se deu por Atos do Parlamento sancionados pelo rei, com o apoio dos intelectuais e da liderança do clero. Embora a Bíblia (secretamente) já fosse distribuída desde Wycliffe, no século XIV, agora o povo a demandava abertamente, o que foi feito com a nova tradução para o vernáculo, liderada por William Tyndale.
De seus casamentos, o rei Henrique VIII, ao falecer, deixara três filhos, de três esposas diferentes, que seguiam a religião de suas mães: Eduardo, o mais velho e Elizabeth, a mais nova, eram protestantes; e Maria, a do meio, era católica romana.
De 1547 a 1553 reinou Eduardo VI, que, por ser menor de idade, foi assessorado por regentes, igualmente protestantes, que aprofundaram a Reforma, com a aprovação pelo Parlamento, em 1549, do Livro de Oração Comum (LOC) compilado pelo Arcebispo Cranmer. Os altares de pedra foram substituídos por mesas de madeira, o celibato clerical foi revogado, o povo passou a receber a Ceia nas duas espécies, foram retradas as imagens dos altares, a Eucaristia deixou de ter um caráter sacrificial, foi abolida as orações pelos mortos e simplificadas as vestes clericais. São decretados os “Quarenta e Dois Artigos”, de forte inspiração calvinista.
De 1553 a 1558 reinou Maria, que se reconcilia com Roma, impõe de volta a religião católica romana, recebendo o epíteto de “a sanguinária”, por ter sido responsável pela execução de mais de 300 clérigos, dentre eles o Arcebispo de Cantuária Thomas Cranmer (o pensador principal da Reforma Inglesa) e os Bispos Latimer e Ridley, queimados vivos na estaca no centro de Oxford. Na execução, já queimando, o Bispo Latmar gritou para o seu companheiro de infortúnio: “Conforte-se, mestre Ridley, e seja homem; devemos encarar esse dia com sendo candelabros da Graça de Deus sobre a Inglaterra, e essa chama jamais será apagada”.
Segue-se o longo reinado de Elizabeth I, de 1558 a 1603, que rompe, outra vez, com a Igreja de Roma, edita, em 1559, uma nova versão do Livro de Oração Comum (LOC), como única liturgia oficial, reduzindo para 39 “Os Artigos de Religião”. Elizabeth sofre pressão; de um lado, do remanescente dos restauracionistas pró-Roma, e, do outro, dos “puritanos”, que voltavam do exílio sob forte influência de expressões mais extremadas da Reforma. Ela se mantém fiel ao espírito da Primeira Reforma, fazendo o Parlamento aprovar duas leis fundamentais: O Ato de Supremacia e o Ato de Uniformidade, o que significaria não voltar para Roma e não ceder às pressões de Genebra. Esse “estabelecimento elizabethano” forjou a face do Anglicanismo, como Igreja Católica e Protestante. O principal pensador
dessa época, e defensor da “via média” Anglicana, foi Richard Hooker, autor da obra clássica “Das Leis da Política Eclesiástica”, 1594.
Com a morte de Elizabeth, em 1603, assume o trono o rei Jaime I, da Escócia, que autoriza a edição da famosa “Bíblia King James”, sendo sucedido, em 1625, por seu filho Carlos I, tentando manobrar no meio do conflito entre romanistas, elizabethanos e puritanos, todos insatisfeitos, e com seus próprios projetos.
Uma Guerra Civil tem início em 1642, vencida pelo exército de hegemonia puritana, que prende o rei Carlos I e o executa, em 1649. A partir de 1643, todo poder permanece com o Parlamento, que estabelece o presbiterianismo como religião oficial, e convoca a Assembléia dos teólogos calvinistas para, reunidos na Abadia de Westminster, redigirem um Guia de Culto, uma Confissão de Fé e um Pequeno e um Grande Catecismo. Em 1648, Oliver Cromwell, máximo dirigente militar, dissolve o Parlamento e dá início a uma ditadura de puritanos, se denominando de “Protetor”. Com sua morte, em 1660, o seu filho Richard não consegue segurar o regime. O Parlamento volta a funcionar normalmente, chamando para o trono o filho de Carlos I, Carlos II, restaurando o Episcopado e o Livro de Oração Comum (LOC), retomando a hegemonia Anglicana.
Perto de sua morte, em 1685, Carlos II abraça o catolicismo, e é substituído por seu irmão Jaime II, um católico, que pretendia nova vinculação à Igreja de Roma, o que põe a nação inglesa em ebulição. A aristocracia, respaldada pela maioria do exército, da burguesia e do povo, entra em contato com a princesa Maria, filha de Jaime II, casada com o príncipe holandês, Guilherme de Orange, ambos protestantes, que concordam em derrubar o pai/sogro. Em 18 de dezembro de 1688, o rei Jaime II foge de Londres, e Guilherme e Maria entram, triunfalmente, no que viria a ser denominada de “A Revolução Gloriosa”, pelo não derramamento de sangue e pelo alto consenso.
No final do século XVII, 154 anos desde a separação de Roma com Henrique VIII, após avanços e recuos em várias direções, surge uma nova nação inglesa com uma Monarquia Parlamentarista e uma Igreja Nacional, que, com pequenos ajustes, restaura o estabelecimento elizabethano. A Igreja na Inglaterra se torna a Igreja da Inglaterra. O Anglicanismo – católico e reformado – se torna um ramo específico na Igreja de Cristo.
BIBLIOGRAFIA
A História da Igreja da Inglaterra, apostla, Série “Partilha Teológica nº.1”, IEAB. Aquino, Jorge L. F. Anglicanismo: Uma Introdução. DAR, Recife, 2000. Durval, Silva N. A Igreja Militante. IEB. Gonzalez, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. Edições Vida Nova, São Paulo, 1989. Kung, Hans. Christianity: Essence, History and Future. Continuum Publishing, New York, 1998. Moore, Peter. A Church to Believe in. Latmer Press, Solon, 1994. Neil, Stephen. El Anglicanismo. M.E.C, Barcelona, sd. Silva, N. Durval. A Igreja Militante. Tipografia Rotermund & Co., São Leopoldo, 1951.
2ª Aula
DIOCESE DO RECIFE – COMUNHÃO ANGLICANA Recife (PE), 18 de fevereiro de 2008.
INTRODUÇÃO
Terminamos o século XVII com a Reforma Inglesa consolidada, juntamente com um país independente e a monarquia parlamentarista. A velha Igreja dos Celtas, que passara por Roma, se reformara, era outra, e era a mesma, pois não houve uma ruptura ou uma refundação, mas uma Reforma. Ficaria essa experiência restrita apenas à Inglaterra?
Acontece que a Inglaterra iniciava uma caminhada na direção de se transformar no maior império da História, em termos de território e de população, atingindo o seu apogeu em meados do século XIX com a rainha Vitória. Fiéis Anglicanos – funcionários civis e militares, comerciantes – iriam se fazer presente em todo o Império e em países fora do Império, onde a presença inglesa seria marcante. E Capelanias Anglicanas iriam se estabelecer nos quatro cantos do mundo, com o envio de clérigos, de início somente para atender os expatriados.
Dois episódios, contudo, seriam ainda mais marcantes para transformar uma experiência localizada em um ramo mundial do Cristianismo: a Igreja Escocesa e as Sociedades Missionárias.
ANGLICANISMO NÃO-INGLÊS
Com a independência do Reino Unido do Sacro-Império Germânico Romano, e do poder temporal do Papa, o novo país incluía a Inglaterra, Escócia, Irlanda, Gales, a Ilha de Man e as Ilhas do Canal, também chamadas de Ilhas Normandas: Jersey e Guernesey. Mas, a Igreja da Inglaterra era apenas a Igreja da Inglaterra e não a Igreja da Grã-Bretanha, porque a Igreja da Escócia (sob a influência de John Knox), como Igreja oficial, tinha optado pelo Presbiterianismo, formando com a Holanda e a Suíça, o trio de países calvinistas. Algumas Paróquias de ingleses na Escócia foram formadas sob a autoridade da Igreja da Inglaterra, mas os escoceses de origem Celta, que apoiaram a reforma inglesa, organizaram o que viria a ser a primeira Província Anglicana fora da Inglaterra: a Igreja Episcopal da Escócia, com sete Dioceses, cerca de 5% da população, com seus próprios Cânones, sob a presidência de um Primus (Arcebispo Primaz) e seu próprio Livro de Oração Comum (LOC).
Os reis ingleses seriam os reis da Escócia, do ponto de vista político, mas não seriam “Governadores e Cabeça” da Igreja Episcopal da Escócia, totalmente Anglicana e totalmente independente, reconhecendo apenas a autoridade histórica e moral do Arcebispo de Cantuária. A segunda Província também surgiria de circunstâncias históricas: os Estados Unidos da América.
O Anglicanismo estava presente naquela região desde o final do século XVI, e era oficial em várias das 13 colônias. Tivemos a Guerra pela Independência, dois séculos depois, com a derrota dos ingleses. Os norte-americanos leais à Coroa (cerca de 50 mil) se mudaram para New Brunswich, no Canadá, para continuarem como súditos britânicos. E agora, o que fazer com os Anglicanos, pois os Bispos e o Clero não mais poderiam, no Rito de suas Ordenações, jurar lealdade ao rei e às leis inglesas? Uma assembléia de Anglicanos na América elegeu o reverendo Samuel Seabury para ser o seu primeiro Bispo, fato recusado pelos bispos ingleses. A solução foi apelar para a Igreja Episcopal da Escócia. Em 14 de novembro de 1784, três bispos escoceses Sagraram Samuel Seabury como primeiro Bispo da nova Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América (PCUSA), como seria denominada a segunda Província Anglicana não-inglesa.
A Coroa inglesa havia imposto o Anglicanismo como Igreja Nacional tanto na Irlanda quanto em Gales. Acontece que na Irlanda os Anglicanos nunca passaram de 10% da população, com um norte de maioria presbiteriana e um sul de maioria católica romana. O sul se tornaria, na primeira metade do século XX, um país independente: a República da Irlanda (Eire) e o norte (Ulster) uma região autônoma do Reino Unido. Isso levou a revogação do Anglicanismo como religião oficial e a criação de uma Província Anglicana única para todo o país: a Igreja da Irlanda, sob a Sé primacial de Armagh. Em Gales,
como a Escócia e Irlanda, culturalmente de origem Celta, com o avivamento Metodista, primeiro, e o secularismo, em seguida, os Anglicanos ficaram com cerca de 4% da população, renunciaram ao status de religião oficial e se organizaram em uma Província: a Igreja de Gales, com seis Dioceses.
A Igreja da Inglaterra seria a religião nacional da Inglaterra, Man, Jersey e Guernesey, e responsável pelos Capelães espalhados pelo mundo, dentro e fora do Império. A Escócia, os Estados Unidos, a Irlanda e Gales seriam Províncias Anglicanas, mas não-inglesas, com sua autonomia.
A Igreja da Inglaterra nunca organizou uma Junta de Missões Estrangeiras, para alcançar os nativos sob império ou sob outras bandeiras, e, muitas vezes, a autoridade imperial proibiu a evangelização de algumas áreas. A expansão missionária foi resultado do esforço voluntário de agências missionárias, organizadas por clérigos e leigos, porém, sob a chancela da Igreja (hoje são 14), principalmente no século XIX, sendo a mais antiga a SPG (Sociedade para a Propagação do Evangelho), depois USPG, anglo-católica, seguida da CMS (Sociedade Missionária da Igreja), e da SIM (Missão ao Interior do Sudão), evangélicas, e tantas outras, que escreveram páginas heróicas na África, Ásia, Oceania e Caribe, inclusive em áreas sob colonização francesa, belga e portuguesa, ou em países independentes, como a China.
CRIANDO UMA COMUNHÃO: A EXPANSÃO MUNDIAL
O Anglicanismo, de forma paradoxal, é antigo e muito novo. É antigo porque é herdeiro de dois mil anos do Cristianismo Celta nas Ilhas Britânicas. É novo porque sua organização internacional tem pouco mais de um século.
Do século XVI ao século XIX havia a – reformada e estatal – Igreja da Inglaterra, a Igreja Episcopal da Escó