As origens do episcopado e ministério episcopal na igreja primitiva
AS ORIGENS DO EPISCOPADO E MINISTÉRIO EPISCOPAL NA IGREJA PRIMITIVA
Rev. Cônego J. Robert Wright
Antecedentes Pré-cristãos : a) judaico b) gentílico
O termo “bispo” vem do grego “epi” (super) e “skopos” (ver) e é, literalmente, supervisor ou superintendente ou ainda inspetor ( no latim medieval, “especulador"). Tentativas foram feitas para encontrar protótipos do “bispo” cristão nos antecedentes judaicos ou gentílico do cristianismo.
Consideremos, primeiro, o antecedente judaico, no ofício do regente da sinagoga, que presidia o culto e selecionava os que tomavam parte em suas liturgias. Na versão LXX, versão grega do Antigo Testamento (Jó 20.29; Sabedoria de Salomão 1.6) como também freqüentemente em Filon, judeu helenizado de Alexandria, o termo episkopos é usado com referência a Deus, mas também em número de exemplos refere-se a “supervisor” comum, todavia, nunca a respeito das pessoas com funções litúrgicas. Filon deu esse título uma só vez a Moisés. No primeiro livro de Macabeus o termo é aplicado aos supervisores colocados sobre os judeus por Antíoco Epifânio para implementar sua política religiosa. Mais recentemente as descobertas dos manuscritos de Qumrã perto do Mar Morto, aventaram novamente a origem judaica de tal ofício conhecido pelo termo hebraico, “mebbaqer”. O Documento de Damasco descreve tal supervisor ou inspetor de campo, que ensinou as obras de Deus aos membros da comunidade da aliança, cuidou deles como um pastor cuida do seu rebanho” e supervisou a admissão de novos membros, a disciplina dos transgressores e todas as transações financeiras. Semelhantemente, no Manual de Disciplina de Qumrã, a mesma espécie de ofício aparece comparável à do “mordomo” da comunidade dos essênios observado por Josefo. Não se pode determinar com certeza se há ou não relação direta entre o supervisor dessas comunidades e o ofício do bispo na Igreja primitiva. Todavia, tudo parece indicar que o “mebaqqer” dos documentos do Mar Morto é muito mais “monárquico” do que o “episkopos” dos textos do Novo Testamento e, por essa razão, e não por outra, a conexão parece remota.
Quaisquer relações possíveis com o antecedente gentílico são ainda mais remotas do que com o judaico. O termo “episkopos” é razoavelmente comum na literatura grega, nos papiros e inscrições, tanto em seu sentido geral - “supervisão” como termo técnico para designar os oficiais civis e religiosos. Nas obras de Homero e outros depois dele o termo é aplicado aos deuses. Os filósofos estóicos fizeram o uso da expressão para descrever sua própria missão como mensageiros e arautos dos deuses. As inscrições sírias registram “episkopoi” como supervisores de edifícios, abastecimentos, cunhagem e associações cúlticas da Grécia. Nas Ilhas do Mar Egeu o termo é registrado com referência aos diretores e caixas.
Deve-se dizer, em conclusão, nesta seção que a evidência pré-cristã tanto judaica quanto gentilica, embora esclarecedora, não é determinante para a compreensão da Igreja primitiva.
2. Evidência do Novo Testamento
- Professor de História Eclesiástica, (Seminário Geral Episcopal em Nova York, NY) e Deão da Catedral de S.João Teólogo, Nova York.
Ao voltar às evidências do Novo Testamento, seguindo a linha de interpretação estabelecida pelo falecido Professor Massey H. Shepherd ¹, encontramos sete referências chaves, que datam geralmente do fim do século I: 1 Timóteo 3.1-7, Tito 1.7-9, 1 Pedro 2.25; Filipenses 1.1; Atos 20.28; Atos 1.20 e 1 Pedro 5.2-4. Examinemos cuidadosamente estes textos, citando as traduções da Versão Revisada.
a) 1 Timóteo 3.1-7: “se alguém aspira ao episcopado, ² deseja uma boa tarefa". Esta passagem é seguida de uma declaração paralela sobre as qualificações e deveres do diácono em 1 Timóteo 3.8-13, que repete algumas qualificações, mas nem todas e trata dos diáconos no plural, embora a referência ao episcopado esteja no singular.
No século V, Santo Agostinho de Hipona, ao comentar sobre o sentido deste texto para autor diz: ele quis explicar o que “significa o episcopado”, é o nome de uma tarefa e não uma honra, Com efeito, uma palavra grega, deduzida do fato de que alguém colocado sobre os outros, com autoridade supervisiona-os ou executa a superintendência, pois o grego "skopos" significa “intenção” (no sentido de direcionar a intenção). Assim, se desejamos, podemos traduzir epi-skopein como superintender. Por isso, o bispo, que coloca o seu coração na posição de eminência ao invés de oportunidade para o serviço deve compreender que ele não é bispo"( Cidade de Deus, 19:19)
b) Tito 1.7-9 - Observamos que essas passagens das Cartas Pastorais são declarações sobre qualificações e deveres de um bispo, em termos doutrinais e morais, sem referência alguma a respeito de deveres sacramentais. O texto anterior supõe que o bispo seja casado. Claramente, o celibato obrigatório é eliminado, embora se possa esticar o sentido da passagem a permitir celibato opcional em algumas circunstâncias.
c) I Pedro 2.25 a expressão “episkopos” é empregada como um título de Cristo: “vós andáveis desgarrados como ovelhas, mas vos voltastes ao pastor e guardião de vossas almas (a Versão King James traduz episkopos por bispo, e a Versão Almeida, idem). Este texto pode ser comparado com a versão LXX de Sabedoria 1.6, onde Deus é denominado de episkopos do coração humano.
d) Filipenses 1.1 - Paulo e Timóteo, servos de Cristo a todos os santos em Cristo Jesus, que estão em Filipo com os bispos e diáconos. Como em 1 Timóteo 3 observamos a associação estreita entre bispos e diáconos.
e) Atos 20. 28 num discurso atribuído a Paulo: “atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual ele comprou com seu próprio sangue."
Observamos que esta passagem é dirigida aos que anteriormente, no discurso, foram designados de “presbyteroi” da Igreja de Éfeso. Portanto, os termos “presbyteros” e “epis-kopos” são permutáveis.³
Há, também, duas instâncias significativas no Novo Testamento, onde se usam formas de palavras outras que substantivo.
f) Atos 1.20 - "Com efeito, está escrito no Livro dos Salmos: fique deserta a sua residência e ninguém a habite; e ainda: um outro tome o seu cargo (episkopen)”. Aqui se refere à "supervisão” confiscada pela traição e suicídio de Judas, depois que este foi substituído como membro dos Doze.
¹ The Interpreter's Dictionary of the Bible, Nashville, Abingdon Press 1962, vol. 1, pp.441-43, bispo ² A nota da Tradução ecumênica diz: “ainda não se trata do cargo de bispo na acepção rigorosa do termo. Os episcopos, ou vigilantes, exerciam funções de dirigentes de comunidade, sendo difícil dizer em que se distinguiam exatamente dos presbíteros ou anciãos” (Cf. Tt 1.5-7; At 20.17-28) ³ Ver as anotações da Tradução Ecumênica. Supervisores, inspetores, essa metáfora define a responsabilidade coletiva dos anciãos perante a Igreja.
g) 1 Pedro 5.2-4 - “pastoreai o rebanho de Deus (a tradução King James traz “supervisionai”, episkopountes, em colchete mas inexistente nos melhores manuscritos).
Como exortação aos anciãos (“presbyteroi") este texto como o de Atos 20.28 é segundo exemplo de permutabilidade entre os termos “episkopos” e “presbyteros” no Novo Testamento. Os dois termos são permutáveis também em I Clemente escrito por volta de 96 A.D., para quem a função presbiteral é supervisão.
Em termos recentes de acordos ecumênicos que se relacionam com as evidências do Novo Testamento, observamos, primeiro, no documento de Lima (BEM, 1982) “um ministério de episkope é necessário para exprimir e salvaguardar a unidade do corpo. Cada Igreja precisa deste ministério de unidade, em uma certa forma"...(Ministério 23)
Segundo, observamos, na Declaração de Cantuária sobre o Ministério e Ordenação do ARCIC (1976), a Igreja Primitiva bem pode ter tido uma considerável diversidade na estrutura do ministério pastoral, embora esteja claro que algumas delas eram chefiadas por ministros que eram chamados episcopoi e presbyteroi. Embora as primeiras igrejas missionárias não tivessem sido uma livre agregação de comunidades autônomas, não há nenhuma evidência de que bispos e presbíteros fossem nomeados em toda parte no período primitivo. Os termos "bispo" e "presbítero” podiam aplicar-se ao mesmo homem ou a homens com funções idênticas ou muito semelhantes. Assim como a formação do cânon do Novo Testamento foi um processo incompleto até a segunda metade do segundo século, também o pleno surgimento do ministério tríplice de bispo, presbítero e diácono demandou um período mais longo do que a era apostólica. Daí por diante, essa estrutura tríplice se tornou universal na Igreja. (Relatório Final, Parágrafo 6, p.45)
Na mesma declaração lemos que “o elemento essencial no ministério ordenado é a sua responsabilidade pela supervisão (episcope). Essa responsabilidade supõe fidelidade à fé apostólica, sua incorporação na vida da Igreja de hoje e sua transmissão à Igreja de amanhã. Os presbíteros estão unidos ao bispo em sua supervisão da Igreja e no ministério da Palavra e Sacramentos; recebem autoridade para presidir a eucaristia e pronunciar a absolvição. Os diáconos, embora não disponham de tantos poderes, associam-se aos bispos e presbíteros no ministério da Palavra e sacramentos e ajudam na supervisão”. (parágrafo 9)
Com a complementação deste levantamento das evidências do Novo Testamento, voltaremos para o testemunho dos Pais da Igreja, e iremos discernir neles, em estudo comum com o Bispo Kallistos de Diocléia (anteriormente, Timothy Ware )⁴, palavras dirigidas ao bispo- eleito, durante seu exame, no Ordinal de 1979, três ênfases no ministério episcopal na Igreja Primitiva: Bispo como Presidente da Eucaristia (Santo Inácio e Hipólito), Bispo como mestre da fé (Santo Irineu) e Bispo como líder nos concílios da Igreja (São Ciprino). Estas ênfases são separadas, complementares e não contraditórias.
- O testemunho de Santo Inácio de Antioquia, de Santo Hipólito de Roma sobre o Bispo como Presidente da Eucaristia e Provedor de Sacramentos
Quando chegamos aos escritos de Santo Inácio de Antioquia (cerca de 107 A.D.), encontramos diretamente a emergência do monoepiscopado à frente do tríplice ministério, desenvolvimento que pode ser explicado pelos documentos, que sobreviveram na era pós-apostólica. Não só Inácio torna presbíteros ou anciãos, não menos do que os diáconos, subordinados ao bispo, mas também ele se constitui o primeiro testemunho claro do monoepiscopado (também denominado erroneamente de episcopado “monárquico”) isto é, o fenômeno de um único bispo que preside como líder autorizado sobre a comunidade inteira em qualquer cidade ou localidade. Certamente é questionável até onde se pode generalizar a partir das evidências que ele apresenta. Tem-se sugerido que, na Alexandria, pode ter
⁴ "Padrões do Episcopado na Igreja Primitiva e hoje: uma visão ortodoxa”, IN: MOORE, Peter (ed.) Bispos, mas que espécie de bispos?
sobrevivido um sistema de colegiado de bispos-presbíteros no século III, mas Inácio reflete a situação na Síria e na Ásia Menor no início do século II.
Inácio foi somente redescoberto no ocidente cristão e suas cartas identificadas e publicadas no século XVII, graças ao trabalho dos bispos anglicanos Ussher e Pearson. Com efeito, suas obras sobre Inácio persuadiram a Igreja da Inglaterra a adotar uma doutrina mais "elevada" do episcopado, isto é, não mais como simplesmente “bene esse” (bem estar da Igreja) em estrita paridade com os ministérios das Igrejas não-episcopais, mas antes o conceito do episcopado como até de “direito divino” (contra os puritanos). Não é difícil detectar sua influência no Ato de Uniformidade de 1662, que tornou a ordenação episcopal ao presbiterado uma necessidade virtual e invariável para a incumbência de todos os benefícios da Igreja da Inglaterra.⁵
Com Inácio temos a primeira evidência clara (que não temos no Novo Testamento) de uma tríplice ordem eclesiástica de bispos, presbíteros e diáconos (em ordem 1-2-3) mencionada ao todo não menos que doze vezes em cinco das sete caretas. Para Inácio, todos os três, bispos, presbíteros e diáconos, são “designados de acordo com a vontade de Cristo" (Filadélfia, prefácio) e os três parecem os títulos de uma espécie de hierarquia: Bispo é "axiotheos" (piedoso ou divino), presbíteros “axioi” (digno) e diácono “syndoulos” (conservo) (Magnésio 2, cf. Smirna 12). Inácio colocou sempre os três nessa mesa ordem, às vezes, relacionando-os com a unidade da Igreja e com uma só Eucaristia (Filipenses 4) e faz com freqüência o perfil dos três ofícios como representantes e tipos das realidades celestiais. Suas analogias mais comuns ou correspondências simbólicas são entre o bispo e Deus Pai, entre presbíteros e concílios apostólicos e entre diáconos e Jesus Cristo (Magnésios 6, Tralarianos 3). Em dois outros lugares, é o bispo é que é análogo a Jesus Cristo (Mag 3 e Efésios 3) e num lugar o paralelo é o de presbitério com a “lei de Jesus Cristo”, à qual os diáconos devem submeter-se (Mag 2). Além disso, os presbíteros ou anciãos funcionam para Inácio como uma espécie de colegiado sob a presidência de um só bispo. Há “um só bispo junto com os presbíteros e diáconos, meus co-senos”, observa ele (Filipenses 4) e alhures ele compara a relação dos presbíteros com o bispo como “cordas com o instrumento musical” (Efésios 4).
O Bispo é, para Inácio, o centro da unidade da Igreja em qualquer lugar ou comunidade e, como tal, Inácio espera que o bispo seja obedecido. Devemos estar “sujeitos ao bispo como a Jesus Cristo" afirma ele, e "devemos enxergar no o próprio Senhor" (Tralarianos 2, Efésios 6). O bispo preside “no lugar de Deus" (Mag 6) e, por isso, sem o bispo não pode haver Eucaristia e a Igreja. Ele escreve: “evitem divisões como fontes do maligno. Que todos sigam ao bispo como Jesus Cristo seguiu ao pai... Que ninguém realize o que diz respeito à Igreja sem o bispo. Que a Eucaristia seja considerada válida, aquela que é realizada sob a orientação do bispo ou por quem designado pelo bispo. Onde o bispo está presente, ai deixe o povo estar assim como onde Jesus Cristo está presente está a Igreja católica. Não é legítimo batizar ou celebrar o “ágape” sem o bispo. O que ele aprova agrada a Deus... Quem honra o bispo é honrado por Deus. Quem realiza as coisas sem o conhecimento do bispo está servindo o demônio” (Smirna 8).
No que se refere aos textos de Inácio que indicam sua visão do que, mais tarde, veio a ser denominado de “sucessão apostólica", ele apresenta o que o metropolitanos John Zizioulas denominou de “abordagem escatológica da continuidade apostólica” como o fim futuro antecipado mesmo agora na estrutura eucarística da Igreja sob presidência episcopal (Mag. 6). Inácio diz pouco sobre a “sucessão apostólica", que encontramos em forma rudimentar em seu contemporâneo Clemente de Roma e numa forma mais desenvolvida em Tertuliano e Santo Irineu de Lyon quase um século depois. Ele não diz nada a respeito da ordenação, sobre a qual a primeira evidência clara é Hipólito, um século depois, nem apresenta as Sagradas Ordens como sendo “seqüenciais” ou “cumulativas", isto é, sendo a ordem "inferior" pré-requisito para a ordem “superior”. Para Inácio, o bispo é aquele que
⁵ Ver BRADSHAW, Paul F. O Ordinal Anglicano (Londres: SPCK, 1971, especialmente o cap.6 e NORRIS, Richard A. "Episcopado” IN: SYKES, S. e BOOTY, John The Study of Anglicanism, pp.296-309
preside a unidade eucarística de cada Igreja local, ênfase bem conhecida neste século feita pelo teólogo russo Nicolas Afanassieff.⁶
A Igreja na visão de Inácio, é essencialmente eucarística por sua natureza: existe uma relação orgânica entre o Corpo de Cristo entendido como comunidade e o Corpo de Cristo entendido como sacramento. Então, para Inácio, o bispo não é principalmente um mestre ou administrador, mas aquele que preside a liturgia eucarística como “episkopos”, que a supervisiona. A presidência da eucaristia pode ser designada a um ou mais presbíteros selecionados pelo bispo, embora para Inácio, presbítero e bispo não sejam permutáveis (como foi em I Clemente, cerca de 96 A.D.) Numa passagem típica, Inácio escreve “cuidem de participar numa só Eucaristia, pois há uma só carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para união com o seu sangue, um só altar, assim como há um só bispo com presbíteros e diáconos, meus conservos” (Filipenses 4). Sua ênfase na Eucaristia como o foco da unidade da Igreja e na centralidade do ministério eucarístico do bispo dentro de uma só Igreja é percebida na repetição da palavra “uma só” ou “um só”, como observou Ware. Assim há um só bispo, um só Corpo eucarístico e uma só Igreja, sendo os três interdependentes. O tema volta à lembrança repetidamente em seus escritos: “haja uma só oração comum, uma só súplica, uma só mente e uma só esperança em amor... Venham logo a um só templo de Deus, a um só altar, a um só Jesus Cristo, o qual veio de um só Pai e está com um só Pai e voltou a um só Pai” (Mag. 7)
Deve-se levar em consideração, naturalmente, o contexto da ênfase na unidade em Inácio. Ele estava escrevendo numa época em havia provavelmente um só bispo em cada cidade e, também, não mais do que uma só assembléia eucarística em cada cidade, o que, reforçou a função do bispo como foco visível de unidade, não como um administrador distante, nem visitador ocasional, mas como o pastor-chefe local, que estava com todo o povo, pelo menos, a cada domingo, na Eucaristia. Ainda não havia surgido os bispos assistentes (sufragâneos, auxiliares, coadjutores) como é comum hoje nas Igrejas episcopalmente organizadas, nem os bispos titulares (bispos residentes em outros lugares com o título de bispo de tal lugar, que não existe hoje) encontrados freqüentemente nas Igrejas Ortodoxas e Católica Romana, nem as jurisdições que se sobrepõem, em contradição com o Cânon 8 do Concílio de Nicéia (325 A.D.) nessas Igrejas e ocasionalmente, na Comunhão Anglicana. Mesmo em Jerusalém, onde este ensaio foi escrito em março de 1992, no fim do século IV a peregrina Egéria (ou Etéria) descobriu que, a despeito de numerosos cristãos da localidade e das peregrinações, ainda estava em vigor a lei de uma só Eucaristia aos domingos celebrada pelo bispo de Jerusalém. (Viagens 24-41)
- Transição do período do Novo Testamento onde os bispos e os presbíteros eram permutáveis para o monoepiscopado
Para explicar a transição da evidência mais antiga, mais especialmente da permutabilidade entre o episcopado e o presbiterado, que se encontra em Atos 20, 1 Pedro 5 e em 1Clemente ao monoepiscopado plenamente desenvolvido como o cabeça da tríplice ordem de ministérios que encontramos em Inácio e mais tarde em Hipólito, os estudiosos expuseram duas interpretações contrastantes:
- episcopado surgiu do presbiterado por elevação
- o presbiterado evoluiu do episcopado pela delegação
A primeira representa a hipótese clássica do bispo anglicano J. B. Lightfoot: originalmente os “bispos” e “presbíteros” ou anciãos eram termos sinônimos. O episcopado surgiu do presbiterado pela “elevação” para uma ordem mais elevada e, por conseguinte, por
⁶ Ver, por exemplo, "A Igreja que preside em amor" IN: MEYENDORFF, J. (Ed.) Primacy of Peter, Londres: Faith Press, 1963, pp.57-110
implicação, o ministério “original” da Igreja era presbiteral e não episcopal. Adolfo von Harnack e B. H. Streeter (anglicano) mostraram-se inclinados a esta interpretação. Harnack ressaltou o processo de localização, e Streeter sugeriu um estágio de episcopado coletivo ou colegiado em mesmos lugares onde o monoepiscopado foi plenamente estabelecido. A interpretação de que o episcopado surgiu pela elevação do presbítero, sendo ambos os ofícios originalmente sinônimos e permutáveis com leve ênfase diferente, foi também a posição de São Jerônimo que, no século V, escreveu: “presbítero... é o mesmo que bispo e, antes que a ambição entrasse na religião por meio da instigação do demônio e o povo começasse a dizer: 'sou de Paulo, sou de Cefas, sou de Apolo', as Igrejas eram governadas pelo conselho de presbíteros, que agiam conjuntamente” (Comentário sobre Tito 1.6-7)
A interpretação de que o presbiterado evoluiu pela delegação do episcopado sustenta que havia distinção original entre o ofício de bispo e o de presbítero ou ancião, admitindo porém que alguns bispos podem ter sido, também, contados entre o presbiterado. Todavia essa interpretação ressalta que os bispos eram presbíteros/anciãos especificamente ordenados ou designados para as funções litúrgicas e pastorais de supervisão e sustentam que nem todos os presbíteros/anciãos eram bispos. Nessa visão, o presbiterado era uma posição de honra e não era ofício ministerial, embora no decorrer do tempo, com o surgimento do monoepiscopado, os presbíteros/anciãos assumissem certas funções de natureza litúrgica e pastoral delegadas pelos bispos. R. Sohm e W. Lowrie, entre outros, têm-se inclinado por esta segunda interpretação, concluindo que o presbiterado como uma ordem de ministério e não meramente um título de honra ou de senioridade veio à existência pela delegação da parte do episcopado.
A tradição anglicana tem defendido, no geral, a segunda interpretação, desde a partir de meados do século XVII influenciada pela visão “mais elevada” da distinção e da necessidade do ofício episcopal e em parte, pelas redescobertas das epístolas de Inácio de Antioquia e Clemente de Roma (redescobertas no século XVII) e de Hipólito (ainda mais tarde). Essa transição na compreensão do episcopado pode ser vista de uma perspectiva muito interessante na mudança dos textos das Escrituras designados para os ritos de ordenação da Igreja da Inglaterra antes e depois de 1662 e da Igreja Episcopal nos Estados Unidos antes e depois de 1979.⁷
Antes do Ordinal revisado de 1662, a Igreja da Inglaterra utilizava a passagem de 1 Timóteo 3, que fala nas qualificações e deveres de um bispo (episkopos) como a Epístola a ser lida liturgicamente tanto para o presbiterado quanto para o episcopado, sugerindo, por conseguinte, nenhuma distinção entre os dois e permitia como alternativa na ordenação ao presbiterado a leitura dos Atos 20, que faz o uso do termo "bispos", mas que implica na permutabilidade com os presbíteros. Todavia, no Ordinal de 1662, que foi revisado para mostrar o episcopado como uma ordem claramente distinta e separada, Efésios 4.3-7, que não faz referência aos bispos, substituiu 1 Timóteo 3 no Ordinal do Presbítero e Atos 20 foi transferido para o Ordinal do Bispo. Mesmo as duas alternativas de leitura do Evangelho: Mateus 28.18-20 e João 20.19-23, foram transferidas para o Ordinal do Bispo. Estes textos dos Evangelhos falam na comissão dos apóstolos. Presume-se que a intenção consistia em mostrar os bispos e não os presbíteros como sucessores dos apóstolos. No Ordinal do Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal nos Estados Unidos de 1979, 1 Timóteo 3 foi preservado para o Ordinal do Bispo e Efésios 4 para o do Presbítero. A passagem dos Atos 20 foi eliminado. João 20 permanece como a primeira opção e Mateus 28. 18-20 foi eliminado, presumivelmente, por ser um texto tardio.
- Tradição Apostólica de Santo Hipólito - bispo como presidente da Eucaristia
⁷ Para as seguintes observações devo, em parte a Paul Bradshaw, "Ordinals" IN: The Study of Anglicanism, especialmente p. 149
Aproximadamente um século após Santo Inácio, o próximo bloco de evidências a respeito do episcopado encontra-se na Tradição Apostólica de Santo Hipólito, bispo ou presbítero tradicional/conservador de Roma, cuja data, no geral, é de 210 A.D. e se assemelha a Inácio em sua ênfase no bispo como presidente da Eucaristia e provedor dos sacramentos. A autoria hipolitana deste tratado que contém os ritos mais antigos de Ordenação conhecidos na história e é o documento mais antigo hoje existente parecido com os livros de oração comum foi estabelecida com firmeza por R. C. Connolly em 1916 com base em outros manuscritos descobertos nos fins do século XIX. O texto definitivo é o do estudioso católico romano Bernard Botte, embora na versão inglesa a tradução mais conhecida seja a dos anglicanos Gregore Dix (tradução complicada), B. S. Easton (simplificada) e G. J. Cuming (muito proveitosa).
Ao comparar Hipólito com Inácio, encontramos certas semelhanças e algumas diferenças. Em semelhança com Inácio, encontramos em Hipólito uma plena ordem tríplice encabeçada pelo monoepiscopado, não sendo os bispos e presbíteros permutáveis e as três ordens não sendo cumulativas.
Em contraste com Inácio, encontramos, todavia, em Hipólito a eleição popular dos bispos (escolhidos por todo o povo) e a sucessão estabelecida com base na ordenação pela imposição das mãos do bispo bem como o princípio de que só o bispo ordena. (O cânon 4 de Niceia I - 325 A.D., vai declarar, pela primeira vez, que três bispos são necessários para a ordenação ou sagração episcopal.) A determinação de Hipólito: “seja o biso ordenado após a sua eleição por todo o povo” exclui claramente qualquer designação dos bispos que venha "de cima", tal como autoridade secular, ou sínodo de bispos, ou patriarca ou por um Papa. Para Hipólito, deve-se realizar a ordenação do bispo num domingo e invocar o Espírito Santo sobre o bispo. O novo bispo é descrito em termos de “sumo sacerdócio” com autoridade de perdoar os pecados (que implica, pelo menos, na possibilidade de admissão à comunidade eucarística). O bispo é presidente da assembléia eucarística e preside a iniciação cristã, ordena presbíteros e diáconos, consagra três óleos santos, designa oficiais menores, lidera as instruções diárias e dá diversas bênçãos.
A redescoberta e autenticação do texto de Hipólito parece ter sido a influência principal que levou a afirmação da Igreja Católica Romana feita no Concílio Vaticano II de que o episcopado é a ordem principal do ministério que constitui a plenitude do sacramento das ordens (visão que os anglicanos têm, geralmente, sustentado desde o século XVII). Por essa decisão, a Igreja Católica Romana avançou, com efeito, da primeira interpretação da evidência de Santo Inácio acima observada, para a segunda, e, no novo Pontifical Romano (1968) a oração de ordenação do bispo é uma paráfrase de Hipólito como também é a mesma oração do novo Ordinal (1979) do Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal nos Estados Unidos. Essas orações recentemente revisadas, portanto, (não da Igreja da Inglaterra) são paráfrases do mesmo protótipo de Hipólito, a oração de ordenação mais antiga conhecida na Igreja.
O conceito de sucessão de Hipólito é, também, mais claramente exposto em sua Refutação de Todas as Heresias (I, Proêmio), “ninguém refutará esses (erros), exceto o Espírito Santo transmitido à Igreja, o qual os apóstolos receberam, primeiramente, e transmitiram aos que corretamente creram. Mas nós, sendo seus sucessores e como participantes dessa graça, sumo-sacerdócio, ofício do ensino bem como guardiães reputados da Igreja, não devemos ser encontrados deficientes na vigilância, nem dispostos a suprimir doutrina correta".⁸
⁸ É digno de observação que a posição pre-vaticana II da Igreja Católica Romana, também, conhecida como medieval ou de Jerônimo, atribuía a permutabilidade básica entre o episcopado e presbiterado e não entendia o episcopado como uma ordem ou sacramento independente na Igreja, mas como uma concessão de autoridade episcopal ordinária pelo bispo de Roma. Essa visão prevalecia na doutrina da Igreja Católica Romana quando ocorreu a condenação papal das ordens do episcopado anglicano em 1896.
1. Santo Inácio de Antioquia e Hipólito de Roma
2. Santo Irineu de Lyon
3. São Cipriano de Cartago
Estes três modelos ressaltam, respectivamente, as funções do bispo como
- Presidente da Eucaristia
- Mestre principal
- Líder administrativo
Também eles apresentam três diferentes modelos da unidade da Igreja, cada qual focalizando o bispo de modo complementar ao invés de contradição:
- unidade eucarística
- unidade doutrinária
- unidade administrativa
Finalmente, eles apresentam três quadros complementares do ministério principal do bispo:
- Aquele que preside sobre a unidade eucarística de cada Igreja local
- O vínculo no tempo entre cada Igreja local com o ensino dos apóstolos
- vínculo da unidade de cada Igreja local com todas as outras no espaço
É possível que esses três modelos ou ênfases ou quadros tenham alguma relação com a descrição clássica da obra de Cristo como:
- Sacerdote (Inácio e Hipólito)
- Profeta (Irineu)
- Rei (Cipriano)
QUESTÕES
Surgem várias questões para debates a partir das evidências mais antigas e fazer uma lista das mesmas não significa, naturalmente, resolvê-las.
Podemos colocar o desenvolvimento patrístico mais antigo ao nível de autoridade igual à evidência do Novo Testamento ou ainda maior do que a mesma (reconhecidamente escassa)?
Que peso de autoridade devemos dar hoje às qualificações para o ofício episcopal estabelecido em 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.7-9?
Consideramos hoje o surgimento do monoepiscopado à cabeça do tríplice ministério em Inácio e Hipólito como necessário? Como irreversível?
Consideramos essencial a distinção do episcopado do presbiterado a despeito da permutabilidade em Atos 20., 1 Pedro 5, 1 Clemente e Irineu?
Considerando a ausência de qualquer evidência da prescrição das ordens cumulativas antes de Cipriano, julgamos esse desenvolvimento necessário e irreversível ou só normativo ou até indiferente?
Considerando a evidência da escolha popular dos bispos nos ritos de ordenação mais primitivos como os de Hipólito, que juízo devemos fazer sobre outros métodos de designação dos bispos pelos governantes, papas, patriarcas ou sínodo de bispos?
Os cinco diferentes conceitos de sucessão episcopal/apostólica que encontramos são complementares e capazes de síntese ou um ou mais recebam um peso maior de autoridade: escatológica (Inácio), retrospectiva/linear/histórica (Clemente), doutrinária (Irineu), ordenação (Tertuliano e Hipólito) e administrativa (Ciprino)?
É a indelibilidade das Sagradas Ordens, e, em particular, a ordenação episcopal vitalícia, não encontrada nessas evidências antigas, à parte da observação do Clemente de Roma de que os apóstolos fizeram dispositivo de que, se alguém que eles designaram morresse, outros aprovados o sucederiam no ministério, parte essencial de ingrediente constitutivo do "episcopado histórico"?
Até que pontos essas três ênfases principais delineados neste trabalho bem como os conceitos diferentes de sucessão episcopal/apostólica e outros conceitos referentes à permutabilidade, ordens cumulativas, indelibilidade e outros são principalmente atribuíveis às diferenças geográficas tais como Antioquia, Ásia Menor, Síria, Roma e África do Norte e, por conseguinte, refletem uma inculturação ou diferenciação cultural que talvez fossem mais prontamente toleradas naquele período mais do que hoje em dia?
Quais são as ênfases ou funções do ministério episcopal em nossos textos litúrgicos de hoje e como elas correspondem à evidência clássica do ministério episcopal que vem do Novo Testamento, de Inácio, de Hipólito, Irineu e Cipriano?