Princípios e Métodos

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Princípios e Métodos

Salomão Ferraz1915

(Esta é a tese apresentada pelo Reverendo Salomão Ferraz, a respeito do sacramento do batismo conferido pela Igreja Romana, em 1915, preparatória às decisões que deveriam ser tomadas a respeito, pela Conferência Missionária Latino-Americana reunida no Panamá em fevereiro de 1916 – Dom Felismar Manoel – Bispo Primaz – Natal de 2010)

SALOMÃO FERRAZ

Princípios e Métodos

Preliminar

Ai do espírito que abafa as suas convicções, ao ameaçar dos sacerdotes e da multidão por eles dementada, aos brados de heresia e de insinuações, “Tu não és amigo de César!"

ROBERTSON

Quando um homem, ao cabo de anos, encontra-se com algumas convicções formadas, não por efeito de influências ligeiras do momento, mas o fruto de estudo humilde e escrupuloso, de observação demorada, silenciosa, e muitas vezes amaríssima, na consideração dos fatos e das circunstâncias da sua época, tal homem, embora preferindo pessoalmente o pacífico remanso do seu retiro, tem não só pleno direito de se fazer ouvir, ele tem o sagrado dever de se externar. Se são razoáveis ou não as suas conclusões, é o que será julgado, com justiça, pela consciência esclarecida de seus irmãos, se não por todos já no presente, ao menos em próximo porvir.

Plenamente convicto, tornado claro o caminho do seu dever, o primeiro passo de um indivíduo em tais condições, é ajustar as suas atividades ao seu modo de pensar, e isto com prudência, com o silêncio dos que crêem, mas também sem hesitação, sem tímidas consultas aos preconceitos do dia, sem covardes receios de conseqüências. Ao lado da verdade Deus está, e ele não abandonará os seus servos, quaisquer que sejam os clamores que se levantem.

Era ainda no tempo de estudante, época risonha e florida para muitos, porém torva e dolorosa para nós. Em consonância com os vendavais de paixões que lá fora rugiam, em atmosfera eclesiástica asfixiante, letal; cá dentro d'alma nos bramavam outras procelas, incomparavelmente mais atrozes, mais sinistras, mais acabrunhadoras: era a tormenta das dúvidas, das perplexidades e o desespero de um espírito inquiridor, sedento de verdade e paz.

Em um desses dias, no sótão do Seminário, em S. Paulo, à rua Maranhão, veio-nos às mãos um dos vigorosos artigos do professor Bruce, da Escócia, onde deparamos um conceito, que nos sacudiu até o mais profundo da natureza moral, e gravou-se indelevelmente em nosso espírito: Your suprem duty, ó young man, is to have an open eye, an open heart, and an open mouth. "O teu supremo dever, ó moço, e ter abertos os olhos, aberto o coração, e abertos os lábios."

Estas palavras do insigne pensador cristão não se apartaram jamais do nosso espírito, mas passaram, por assim dizer, a fazer parte da contextura da nossa alma. No meio de acidentes e vicissitudes de uma vida inçada de trabalhos, de duras provas e amargas decepções, o aviso do sábio mestre tem caminhado à nossa frente, como um astro propício, apontando-nos o caminho, espancando muitas brumas de insidiosos preconceitos.

De olhos abertos e coração aberto temos procurado viver, embora fraqueando muitas vezes, e não raro apalpando o caminho às escuras. E agora que, impelido por um dever que a conjuntura nos impõe, começamos a descerrar os lábios para relatar, aos nossos irmãos, o que temos visto e ouvido, rogamos que nos ouçam com paciência.


Se outro mérito não tem nossas palavras, elas valem ao menos por sinceras e conscientiosamente ponderadas.

As razões, que ora oferecemos, não são meras críticas de observador indiferente e de palanque, mas conclusões de um espírito empenhado no trabalho ativo da igreja.

O que temos em mira é apenas apontar um caminho que, estudado, examinado, experimentado, contrastado com outros divergentes, se nos afigurou o verdadeiro.

Quais sejam as nossas convicções e a nossa orientação no trabalho do evangelho – convicções e orientação da grande maioria dos pensadores e obreiros cristãos em nossos dias – é o que constitui o assunto destas páginas.

Traçando as linhas, que aí vão, temos apenas a consciência de nos desobrigarmos de um dever para com a causa de Cristo no Brasil, muito especialmente para com a igreja evangélica, da qual somos filho, e a qual temos consagrado a nossa vida, as nossas forças, certo de que o catolicismo evangélico é hoje a expressão mais aproximada do ensino e do espírito de Cristo. Os princípios do cristianismo evangélico, bem entendidos e assimilados, são os únicos capazes de conduzir este povo pela senda da piedade sem fanatismo, sem intolerância, sem estreiteza de vistas; pelo caminho da razão desagrilhoada, abrasada pela chama da fé e do amor cristão; pela estrada do respeito sem subserviência, e da liberdade sem abusos, sem loucuras.

É que o cristianismo evangélico é o cristianismo do novo testamento, é o cristianismo do que há de melhor na gloriosa tradição cristã dos séculos, é o cristianismo da consciência cristã esclarecida e livre, é o cristianismo do Espírito, é o cristianismo de Cristo.

A reforma religiosa do século XVI, conforme a sensata ponderação de ilustre pensador, não foi propriamente um movimento de retorno aos tempos primitivos – bebeu sem dúvida a sua inspiração de fresco nos princípios do cristianismo apostólico – mas foi um movimento de natural evolução, um movimento de progresso, progresso na apreensão da obra redentora do Calvário, em uma idéia mais justa do valor e da responsabilidade do indivíduo e, muito particularmente, no conceito mais espiritual da igreja, em contraste com a espécie de materialismo a que o esforço do papado tentara reduzi-la, encerrando-a exclusivamente nos limites de uma particular agremiação, sacrificando o indivíduo, abafando a voz da consciência individual, em favor do poderio e da glória da hierarquia, e de uma coercitiva unidade exterior do mundo cristão.

Não resta dúvida que a união orgânica de todos os cristãos é um formoso ideal, ideal de que não nos é lícito abrir mão, embora o seu advento esteja ainda sobremodo afastado dos nossos dias. Mas esse ideal há de ser realizado, não por via da violência física, empregada nos tempos da inquisição, nem pela violência mental, recurso indecoroso de que infelizmente lançam mão, não raro, até obreiros protestantes; esse ideal há de ser realizado no caminho da liberdade cristã, no caminho do profundo respeito pelo indivíduo, no caminho do verdadeiro amor cristão, aliado ao conscencioso culto da verdade.

Se as atuais condições empecem uma união mais formal entre todos os ramos da cristandade, removamos ao menos do caminho as desnecessárias barreiras, firmemos melhor, o olhar sobre os pontos em comum, e muito deliberadamente sobre o centro luminoso de todo o orbe cristão – a pessoa de Cristo.

O nome do Deus Trino e as verdades fundamentais no Símbolo dos Apóstolos – eis a bandeira comum de toda a cristandade. E se motivos justos nos forçam, por enquanto, a separadas organizações eclesiásticas, com trabalhos à parte, congrace-nos ao menos, espiritualmente, essa comum insígnia, esse comum sinal de iniciação na igreja, esse comum reconhecimento da supremacia de Jesus Cristo – o batismo em nome de Deus Trino.

"Eis o segredo de toda a verdadeira união! – exclama Adolpho Monod. Não é a união que resulta de virem os outros para nós, nem de nós irmos para eles, mas a de irmos todos, eles e todos nós, a Cristo."

Entenda-se bem o que almejamos. Pregando, doutrinando o povo, convertendo as almas, congraçando-as no aprisco de sábias instituições, seja o nosso fim primordial promover

a glória de Cristo, a glória do caráter cristão, a glória da melhor eficiência na obra do reino de Deus, e não a vangloria e a arrogância de seitas – mesquinhas, acanhadas, idolatras do seu próprio corpo, corpo tanto mais disforme, quanto maior a vaidade e pretensão.

Se as nossas palavras tiverem o efeito de nos levar a todos para mais junto de Cristo e a um trabalho mais inteligente e eficaz em prol do seu reino, teremos então ferido o alvo, estará cumprida a nossa aspiração.


Uma só Igreja

Quem olha com rancor e má vontade para as coisas, só pode vê-las de um modo superficial, ainda mesmo com o subsídio da mais arguta inteligência. Porém quando esta se alia ao sentimento de boa vontade e amor, então é que consegue penetrar no coração do homem, e também no coração das coisas, e alcançar o supremo objetivo.

GOETHE

A nosso ver, a igreja católica não se identifica absolutamente com o papismo.

O PAPA E O CONCÍLIO

O que os reformadores fizeram foi apenas abandonar o papa, recusando manter comunhão espiritual com ele; mas eles não renegaram, segundo o seu pensar, a igreja em que nasceram, na qual foram batizados, e em cuja comunhão tinham adorado desde a infância. A reforma, para eles, não importava em abjurar a igreja dos seus antepassados.

LINDSAY

O hábil engenheiro, tendo-se proposto a executar uma obra importante e monumental, o seu primeiro cuidado é examinar atentamente e conhecer a natureza do terreno em que a sua construção se tem de erguer. Porque um é o modo de construir sobre um solo de granito, outro o de construir sobre as planuras arenosas, e outro ainda o de edificar em lugares de pântanos ou de formação recente e artificial.

O trabalho do reino de Cristo, parece-nos, deve obedecer estritamente às mesmas leis. Entre as tribos selvagens e bárbaras há de ter um método, um processo, outro entre povos cultos e pagãos, e outro entre os povos que já possuem os rudimentos da fé, tendo sido batizados em nome do Deus Trino. Entre estes últimos pode ser a necessidade de obreiros quase tão grande como entre os outros, mas os métodos hão de variar necessariamente, deliberadamente, inteligentemente.

O trabalho evangélico no Brasil, no meio de um povo iniciado geralmente nos rudimentos da fé cristã, muito embora eivados de ignorância, de erros, de grosseiras superstições, não é propriamente uma obra de iniciação no cristianismo – posto que praticamente o seja em muitos casos particulares, como sucederá o mesmo em países protestantes – mas é uma obra de iluminação, de despertamento, de reorganização, de reconstrução, apesar de calcada em novos moldes divergentes em grande medida dos moldes tradicionais.

O Brasil, graças a Deus, não pode ser com justiça chamado um país pagão. E identificar um povo romanista com as gentilidades que desconhecem por completo a revelação de Deus em Cristo, sobre ser uma inverdade, uma injustiça, constitui grave obstáculo ao trabalho generoso das missões evangélicas. “Nós receiamos – diz o dr. Charles Hodge – que a causa do protestantismo é materialmente prejudicada pelas objurgatórias lançadas indiscriminadamente contra a igreja de Roma, e por envolver-se o seu complicado sistema de verdade e erro na mesma repulsa que nos devem causar as suas aberrações.” (Church Polity, 210).


Um povo que desde os seus maiores tem aprendido a conhecer, bem ou mal, mas tem aprendido a conhecer o sagrado nome de Cristo, batizado em nome do Deus Trino, não pode ser tido em conta de gentio, como parecem pretender, infelizmente, alguns pregadores protestantes.

E insistir em levantar um trabalho cristão sobre bases semelhantes, recusando acintosamente socorrer-se dos fundamentos cristãos, que na boa providência de Deus foram lançados nestas plagas, é edificar em terreno duvidoso, é não acertar bem o alvo, é burlar em parte os nobres sacrifícios das missões protestantes.

O trabalho cristão, no Brasil, há de resultar necessariamente na suplantação e demolição de práticas e princípios errôneos; em muitos casos há de traduzir-se em vigorosa polêmica do púlpito e da imprensa, em enérgicos e certeiros golpes sobre os tumores da hipocrisia, sobre as torpezas à sombra do santuário. Mas tudo sem amargura pessoal, sem laivos da injustiça, com os lábios castigados na brasa viva do altar, sem a insolência dos demagogos vulgares. Entretanto convém notar que é muito fácil ter a energia de Cristo contra os hipócritas, mas sem a sua pureza e candura, sem as lágrimas sobre o povo impenitente.

Embora rejeitando as incrustações errôneas e perniciosas da religião popular, o trabalho evangélico de forma alguma deve ter a pretensão de um trabalho novo desde os fundamentos, uma religião inteiramente nova, uma igreja absolutamente outra da que existe no país. Não! Isto não é verdade, e querer insinuar ao contrário é incorrer na repulsa dos homens de senso, dos homens que pensam e temem a Deus.

A igreja de Cristo é uma só, católica, universal, composta de todos os sinceros crentes em toda a parte, em todas as corporações cristãs. A própria igreja romana, apesar das suas pretensões exclusivistas e formidáveis, não é a igreja católica, apenas pode ser uma fração da grande igreja católica, apostólica de Jesus Cristo.

A missão do trabalho evangélico não é propriamente derrocar a igreja falsa para fundar a verdadeira, mas é suplantar princípios falsos com princípios verdadeiros, levantar instituições livres com vantagem sobre as instituições romanistas, eivadas de vícios seculares; criar instituições eclesiásticas mais consentâneas com o ensino e o espírito apostólico e as necessidades religiosas e sociais do povo; e, muito especialmente, despertar os sentimentos religiosos em um povo que jaz na indiferença e no mundanismo, trazendo-os a Cristo, ao conhecimento da verdade, à obediência do evangelho.

E é isto exatamente o que o cristianismo evangélico em boa hora está fazendo no Brasil, ainda que inconscientemente em muitos casos, e neutralizado em grande parte por essas disputas acrimoniosas, loucas, dos que reclamam para si, exclusivamente, os foros de única e verdadeira igreja.

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Este modo de ver é o único razoável, ao nosso pensar, e o único que ao nosso foro íntimo recomenda. Outros verão porventura as coisas de outra forma. Não desejamos que abdiquem da própria vista para enxergar com olhos alheios: um ponto de vista mais alto e um olhar mais calmo, mais atento, mais desapaixonado, e alcançarão mais amplo descortino.

Mas o que não podemos absolutamente consentir, é que nos venha aplicar o tapa-olhos a circunscrever-nos a visão, com o fim de, ao que parece, puxar-se melhor o carro da igreja.

Antes de ministro de uma igreja particular, nós temos em conta de obreiro do reino de Cristo - reino de verdade, reino de justiça e de amor. E os altos interesses do reino não os sacrificaremos jamais aos pretensos interesses de qualquer agremiação, embora religiosa.

Acima de tudo a verdade, acima de tudo a justiça, acima de tudo a lei suprema da caridade cristã.

Ministro de uma igreja, sim, serventuário de uma corporação, mas sob a condição de nunca nos deixarmos mutilar, à maneira do que se faz com animais domésticos, para torná-los

mais mansos, mais dóceis, mais serviçais. Confiando em Deus, pretendemos conservar a nossa integridade moral, a independência mental – fruto preciosíssimo que nos legou a reforma protestante, que no meio de um mundo a tremer covardemente aos gestos dos reis, aos anátemas de papas e concílios, proclamou os direitos da consciência individual.

Serventuário de uma igreja, é certo, mas como homem, na sua inteireza, como livre filho de Deus.

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Porém o ideal visado por certas atividades religiosas, até mesmo no meio evangélico, mais em minoria, felizmente, parece ter sido, não propriamente o suscitar de homens livres, inteligentes, aprumados, de largos horizontes, mas uma espécie de criação de cães de fila, para guarda de propriedades particulares. Homens que só reconhecem os da sua comunidade e prontos para morder a todos os demais.

O fila, como sabemos, não percebe distinções morais; ele só conhece uma distinção: o que é de casa, e o que é estranho à casa. Os de casa, até mesmo os meninos rabudos, como em criança ouvíamos chamar-se aos meninos malfeitores, fazem dele o que querem, aplicam-lhe varadas, arrumam-lhe pontapés, cavalgam-no à vontade, e a tudo o bruto se submete com uma santa paciência, com invejável resignação. Mas ai do estranho que assomar ao portão! Pode o recém-vindo ser distintíssimo cavalheiro, pode ser até mesmo um santo, mas o cão de fila tudo desconhece, arrepia os pelos, ruge pavorosamente e avança com as faces horrivelmente escancaradas, e somente se detêm ao encontrar as vigorosas barras de ferro, que o bom homem tem a prudência de não transpor.

Que se conservem cães de fila nas quintas, contra os amigos do alheio, justifica-se; porém isto mesmo é perigoso, porque estão sujeitos a enlouquecer, e os primeiros que lhes caem nos dentes acerados, são os da própria casa. Criá-los porém na igreja e conservá-los a título de cristãos zelosos e fervorosos, é o que absolutamente não convém, nem mesmo às igrejas particulares. Eles enlouquecem ali também, e torna-se então um perigo temeroso, um desastre, um pavor, uma geral consternação. Ao invés dos que guardam as quintas, os tais filas da igreja também mudam de dono à vontade e, então, ai dos antigos donos!

A igreja tem já sofrido de sobejo com esses animais ferozes. A igreja de Cristo não precisa nem de cavalgaduras com a visão comprimida, nem de mutilados bovinos de serviço, feitos assim, mais dóceis, mais prestantes a certos fins particulares e sectários, mas despojados também do necessário brio e de vital fecundidade; nem tão pouco de animais bravios, prestes a avançar contra tudo o que não é da casa. A igreja precisa de homens, de homens livres, libertados por Cristo, homens de integridade moral e mental, homens que saibam pensar por si e colocar a verdade acima de conveniências partidárias e pessoais.

Isto, sim, é cristianismo, isto é protestantismo e, graças a Deus, é presbiterianismo!

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Quem, como nós, tem passado pela humilhação de assistir a certas cenas degradantes, em que a consciência cristă se deixa espezinhar, mesmo entre crentes evangélicos, que sacudiram, como dizem, as gargalheiras da tirania clerical, não pode deixar de soltar um grito vibrante de protesto, um brado da mais justa indignação. Concílios decretam, por vezes, regulamentos absurdos, anti-cristãos, e certos crentes nem sempre possuem essa viril autonomia cristã, que sabe em primeira plana colocar os ditames da consciência, e só depois, em segundo lugar, as decisões dos homens.

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É uma modesta casa, na roça.

Entremos aí, mas entremos em silêncio, respeitosamente, porque os irmãos se acham reunidos para o culto de Deus e para a sagrada comunhão.

É meio dia. Em torno tudo é silêncio e só se ouve, ora o cantar dos hinos, ora a voz do servo do Senhor a ministrar-lhes o pão da vida.

Depois de um ano, é esta a primeira vez que estes irmãos recebem, em tão longínquas paragens, a visita do mensageiro do evangelho. A repassar-lhes o coração eles sentem, agora, o mais vivo contentamento.

Finda a pregação, e depois de um hino preparatório, passam eles a celebrar, sob a presidência do ministro, a santa ceia do Senhor. Hora de silêncio, de recolhimento, hora em que as diferenças pessoais se apagam e todos se congraçam na efusão dulcíssima de amor e gratidão. Em torno se acham da mesa do Senhor, como os discípulos outrora no cenáculo, naquela noite memorável, em Jerusalém. Traz cada um deles, para ali, um coração dorido, a sangrar, pelos acidentes desta vida de trabalhos, de tentações e agruras. Mas na mesa do Senhor recebem graça, recebem conforto, inspiração. Ao passarem os elementos, eles participam, de um modo significativo, do sagrado memorial do Mestre. As almas então rejuvenescem, e sobre os corações doridos caem o bálsamo maravilhoso da graça, que acalma todas as dores e aviventa a luz da esperança nos corações prostrados.

Hei-los, pois, ali, todos unidos, satisfeitos com o participar da ordenança do Salvador. Mas no meio de toda aquela harmonia percebem-se algumas notas tristemente dissonantes: são alguns irmãos, com o semblante descaído, confusos, envergonhados, lágrimas ardentes a rolar por algumas daquelas faces de cristãos sinceros, faces vincadas pelos anos, pelos trabalhos e aflições. Ao passar por eles os elementos consagrados, eles baixam os olhos, como múmias, conservam-se quedos, não se atrevem a tocá-los.

Será que não professaram ainda a sua fé em Cristo? Ou estarão sob disciplina por algum escândalo em suas vidas? Ou serão eles mesmos que, de si, não se julgam em condições de participar dignamente da Ceia do Senhor?

Nada disto há. São membros professos da igreja, em plena comunhão, e nada os impede de se aproximarem da mesa do Senhor. E é exatamente por isso o seu constrangimento, a sua tristeza, as suas lágrimas.

Mas então porque não comungaram?

A razão é muito simples e muito triste; muito triste e pouco honrosa para os que repudiaram o jugo opressor de Roma e receberam, como pretendem, a liberdade de consciência no seio do cristianismo reformado. Eles não comungaram simplesmente porque são membros de outras corporações evangélicas, e os seus pastores e os concílios das suas igrejas, com fins políticos e sectários, proibiram-nos expressamente de comungar com certas igrejas irmãs, atiradas por eles, maldosamente, no índex de abominável tirania protestante!

Em tais casos, a voz da consciência brada-lhes: - “Podeis e deveis comungar com estes irmãos!” Mas de encontro a voz da consciência ergue-se a voz de concílios, e de ministros que parecem ter abdicado nas mãos daqueles a sua consciência individual, e gritam-lhes: “Não podeis, não deveis comungar!"

E estas pobres criaturas, cristãos geralmente atrasados, inconscientes dos seus nobres direitos como filhos do eterno Rei, deixam de escutar a voz de Deus, para atender ao capricho e à política dos homens!

E quando se lhes lança em rosto a sua covardia, a sua inconsistência, alguns baixam a cabeça, nada respondem, ou respondem com miseráveis evasivas, ao passo que outros forcejam por explicar o fato com a lei da solidariedade. “É que nós – dizem eles – precisamos ser solidários com os nossos concílios, precisamos ser coerentes com os nossos companheiros.”

Muito bem! Então para ser solidários com os homens, com a sua política, com os seus interesses partidários, com as suas urucubacas, nós deixamos de ser solidários com os claros ditames da consciência!


Isso não é cristianismo! Isso não é protestantismo! O que isto é, o mundo inteiro o sabe, e nós agora o repetimos, alto e bom som, aos ouvidos de quantos ainda os tenham para ouvir: isso é puro jesuitismo!

Aos cristãos, hoje, o Espírito brada como outrora aos galatas: “Tende-vos firmes e não vos sujeiteis de novo a um jugo de escravidão.”

O que nos revolta, o que nos enche de uma justa indignação, é ouvir às vezes essa gritaria infernal contra Roma, ao mesmo tempo que, muito de indústria, manhosamente, vai-se pondo em prática o que há de pior e detestável nessa igreja – os princípios e métodos jesuíticos.

Graças ao céu, não é essa a índole do cristianismo, nem do cristianismo evangélico, e tais abominações estão sendo repelidas, com viril energia, pela maioria vasta dos ministros e dos verdadeiros cristãos.

II

Alguém o disse, e com visos profundos de razão, que nove décimos da conduta irregular dos homens não é o produto de um animo perverso, mas as conseqüências de idéias falsas e de princípios errôneos.

À luz deste princípio, tratemos de inquirir as causas, ao menos uma delas, a que se deva atribuir o desacordo crônico que tem reinado, infelizmente, entre os corpos protestantes no país.

Outras causas haverá, sem dúvida, mas uma delas, parece-nos, é a errônea e deficiente noção da igreja – reprodução desse mesmo erro funesto, que tem desnorteado o sistema romanista. É essa pretensão, desarrazoada, de circunscrever a Igreja de Cristo a qualquer corporação ou grupo de corporações cristãs. É isso o que faz o romanismo, e o que igualmente faz certo protestantismo estreito, apaixonado, que se aventura a traçar os limites da igreja com exclusão de tudo o que não participa da exterior agremiação das igrejas protestantes.

Insolentemente arbitrário é o romanismo ultramontano, quando assenta os marcos limítrofes da igreja em uma fórmula mais ou menos como esta: “Fora da igreja romana não há igreja, não há salvação.” É o pensamento de muitos protestantes no Brasil, em vez de um real e enérgico protesto contra conceitos tão mesquinhos e iníquos, indignos do pensamento generoso e amplo de Cristo, é apenas uma reprodução do mesmo erro e da mesma intolerância, apenas sob outra forma. O pensamento da certa classe protestante, em nosso meio, parece ser mais ou menos este: “Fora das igrejas protestantes não há igreja, não há cristianismo.” E há crentes evangélicos, que chegam ao requinte da estreiteza, reconhecendo somente os da sua própria agremiação, cortando do rol de igrejas aos demais corpos protestantes.

É isto visivelmente um erro, erro que tem dado lugar à mais deplorável confusão no trabalho do evangelho. Uma coisa é a igreja de Jesus Cristo, e outra as manifestações da igreja nas várias corporações cristãs em todos os tempos, apesar das suas múltiplas imperfeições e dos seus elementos secundários e perecíveis: “A igreja – diz o dr. Macy Dulles – é uma, quer no passado, quer no presente, quer no futuro. Há uma igreja apenas, desde que Jesus Cristo, o único cabeça da igreja, só pode ter um corpo. A igreja, como vimos, tem a sua manifestação nas igrejas.”

“A glória e a supremacia da igreja – continua o mesmo escritor – não será realizada na glória de qualquer das igrejas que presentemente existem, desde que, como vimos, não há nenhuma que seja a igreja por excelência. E esta supremacia não cabe também a qualquer grupo de igrejas, quer se chamem elas católicas ou evangélicas.” (The True Church, pag. 269, 270.)

E outro não foi o espírito dos reformadores. O glorioso movimento, operado por eles, nunca teve a pretensão de criar uma nova igreja, no sentido de fazerem as suas respectivas

agremiações o monopólio dos direitos da igreja de Jesus Cristo. Reforma – foi o brado deles, reforma primeiro dentro da própria igreja romana, e, obstados pela cúria que os separou, e que assim tornou-se responsável pelo pecado da cisão na igreja, eles promoveram a reforma da igreja fora dos precintos tradicionais. Mas tudo isto sem a pretensão de criar nova igreja que fosse a única verdadeira, fora da qual não há salvação. Seria isto recair no mesmo erro que pretendiam combater. Mais modestos eram eles nas suas pretensões, e por isso mesmo os seus trabalhos foram coroados de gloriosos resultados.

A questão das organizações é uma questão de relativa liberdade e secundária, é uma questão de expediência, de conveniência aos interesses da edificação dos crentes e da propaganda da fé. E estas organizações – em que pese a um ultra-protestantismo, irmão gêmeo do romanismo ultramontano – estas organizações com os seus respectivos regulamentos, que o bom senso cristão preconiza, não devem ser absolutamente promovidas em espirito cismático, cobrindo de vilipêndios aos demais corpos cristãos. “Sem dúvida – diz o dr. Hodge – há o que tem o nome de cisma, e é um grande pecado. Mas se a igreja é um corpo espiritual, este pecado é um pecado contra a unidade espiritual. Todo o alto eclesiasticismo, todas as pretensões de que a nossa igreja é a igreja por excelência, a única igreja, são da essência do cisma; todo o orgulho e fanatismo são da essência do cisma; toda a falta de amor universal, toda a inveja, e todas as tentativas para ilaquear os outros em discussão ou em estender a igreja, são da essência do cisma.” (Popular Lectures, 213.)

“No tocante à unidade da igreja – é o mesmo teólogo quem o diz – alguma coisa eu tenho ainda a declarar. Muitos se sentem perturbados, hoje, com respeito à unidade da igreja e suas manifestações, e eu acho que vai nisto uma grande dose de idéias confusas quanto à concepção original da própria igreja. Se a igreja fosse apenas a sociedade externa, então qualquer desvio daquela sociedade seria da natureza do cisma; porém si a igreja, em sua essência, é uma grande corporação espiritual, constituída pela presença do Espírito Santo através de todos os séculos e nações, unindo todos a Cristo, e si a organização externa é somente acidental e temporária, sujeita a mudança e variação, nesse caso a diferença de organização, a menos que inquinada de espírito cismático, não é detrimente à igreja.” (Popular Lectures, 211, 212.)

"E eu digo – continua o grande teólogo – que sob a presente dispensação Deus nos deixou em liberdade para formar organizações. Ele nos deixou livres para experimentar o cristianismo sob todas as condições em que ele nos tem colocado; e a religião cristã, que nós recebemos, assume várias cores e tons, quer de nacionalidade, quer de tribo, quer de raça.” (Id. 213).

A igreja, é verdade, tem um corpo, que é a sua organização exterior; mas precisamos não perder de vista que ela possui também uma alma, alma que por nenhum princípio deve ser sacrificada a um suposto proveito do corpo. As relações da alma infinitamente transcendem as relações do corpo, especialmente este corpo corruptível das nossas personalidades, e este corpo igualmente corruptível das organizações eclesiásticas. Assim como esperamos receber, um dia, um corpo incorruptível e perfeitamente adaptado à vida espiritual, assim também a igreja receberá de seu Esposo e Cabeça um corpo perfeito, imperecível, na cidade da luz, onde não há templos, onde não existe a necessidade de expedientes a que, na presente ordem de coisas, precisamos recorrer para assegurar o culto divino, para manter acesa a chama da fé e para a difusão do evangelho.

O cristianismo incorporado, representado nas agremiações visíveis e tangíveis, com as suas divisões convencionais, deve ser subserviente ao princípio cristão espiritual, amplo, livre, universal, e não o vice-verso, sacrificando-se impiedosamente o glorioso princípio da comunhão dos santos em proveito de qualquer corporação particular, ainda que essa corporação invoque, em seu abono, o prestígio dos séculos ou o número avultado de aderentes, como, por exemplo, a igreja de Roma.


Cada vez que repetimos o venerando Símbolo dos Apóstolos e dizemos, “Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos”, nós enunciamos grandes verdades, cujo conteúdo nos cumpre cada dia examinar de fresco.

Sempre que perdemos de vista a obra excelsa do Espírito Santo na Igreja e no mundo, também nos foge a visão do caráter acentuadamente espiritual e católico da igreja, desconhecido o Espírito, começa o seu lugar a ser preenchido pelo espírito das organizações externas, que se degeneram facilmente em reais e abomináveis ídolos, que usurpam o lugar supremo do outro Paracleto e, assim, o lugar que Cristo deve ter com o cristão, quer como indivíduo, quer como coletividade.

E quais as conseqüências de semelhante idolatria? As conseqüências, as conseqüências fatais são simplesmente estas: ídolo romanista contra ídolos protestantes e vice-verso; os vários ídolos protestantes a disputar uns contra os outros, arremessando-se mútuos anátemas, cobrindo-se de recíprocos baldões.

É que o Espírito do Senhor o é de paz, de ordem, de síntese, de amor, mas o do homem é o espírito de discórdia, de confusão, de anarquia, de dispersão, de arrogância e desamor.

A velha tentativa de erigir uma Babel, abrigo seguro contra os cataclismos do mundo, tem-se reproduzido em todas as eras, e com idêntico resultado: a confusão.

O único remédio contra o insidioso espírito de Babel, esse esforço de acolher-se à sombra das suas próprias pesadas construções eclesiásticas ou sociais, esse secreto e ímpio desejo de recusar o único abrigo seguro sob as asas do Altíssimo, na comunhão fiel e viva com o Eterno; o único remédio contra esse espírito não consiste na fusão de todas as Babeis, católicas, gregas, protestantes, em uma grande Babel, formidável, imponente, tocando as nuvens, pondo a igreja em honra e poderio sobre a terra; o único remédio, divino, eficaz, é o Espírito de pentecoste.

E quando de nós se apoderar o Espírito de pentecoste, então as nossas igrejas particulares, arvoradas não raro em arrogantes Babeis, nesse secreto espírito de idolatria, serão transfiguradas em singelas aras, de pedras vivas, sobre as quais não tocou o cinzel, conforme a prescrição divina, onde a individualidade humana seja respeitada e não amputada, mutilada, imolada ao princípio de uniformidade externa; e sobre essas aras, singelas, simbólicas, ofereceremos o sacrifício vivo de nossas pessoas, de nosso devotamento, e faremos subir o perfume das nossas orações mediante o áureo turíbulo do grande Sacerdote da nossa confissão.

As nossas organizações, os nossos arranjos eclesiásticos, si bem que importantes e mesmo indispensáveis, são entretanto provisórios, são relativos, são esforços de aproximação a um ideal.

A todos nós, gregos, romanistas, protestantes, assim como aos judeus de outrora, apegados ao ídolo da uniformidade externa, contra o qual, no sinédrio, argumentara com vigor o primeiro mártir da igreja – a voz do Espírito faz ouvir hoje os seus avisos, muito claros, muito incisivos, pondo Cristo em destaque perante os nossos olhos:

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